Agapismo
O ágape é a crença no amor altruísta, caridoso, não erótico (fraternal), no amor espiritual, no amor da alma. Pode significar a crença de que esse amor deve ser o único valor supremo e que todos os outros valores derivam dele, ou que o único imperativo moral é amar. O ágape teológico sustenta que nosso amor por Deus se expressa pelo amor ao próximo. Como ética do amor, o ágape indica que devemos fazer o que há de mais amoroso em cada situação, deixando que o amor determine nossa obrigação em vez de regras. Alternativamente, diante de um conjunto de regras, o ágape indica que devemos seguir aquelas que produzem mais amor. Notoriamente, agapismo tornou-se um conceito elaborado por Charles Sanders Peirce em sua cosmologia para designar o universo como evoluindo com base no amor criativo, diretamente ligado à sua categoria da terceiridade e à reconciliação. Um precursor do termo apareceu anteriormente em Henry Mayhew, referindo-se a uma atitude comunal, cujo ideal mais tarde foi adotado também no movimento hippie.[1]
História conceitual
Em 1851, o jornalista e pesquisador social inglês Henry Mayhew, ao discutir meios para "uma divisão mais geral e igualitária da riqueza do país", caracterizou o agapismo como "a partilha voluntária de bens individuais com os membros menos afortunados ou bem-sucedidos da comunidade" e como a alternativa ao comunismo ("a abolição de todos os direitos à propriedade individual").[2][1]
Em 1893, o filósofo americano Charles Sanders Peirce usou a palavra "agapismo" para a visão de que o amor criativo opera no cosmos.[3] Baseando-se nas ideias swedenborgianas de Henry James, Sr., que ele havia absorvido muito antes,[4][1] Peirce sustentou que envolve um amor que se expressa em uma devoção a nutrir e cuidar de pessoas ou coisas além de si mesmo, como um pai pode fazer por seus filhos, e como Deus (sendo Amor) faria até mesmo e especialmente por aqueles que não amam, através dos quais os amados podem aprender. Peirce considerava esse processo como um modo de evolução do cosmos e de suas partes, e chamou tal processo de "agapasmo" (agapasm), de modo que: "O bom resultado aqui é alcançado, primeiro, pela concessão de energia espontânea da figura parental à prole e, segundo, pela disposição desta última em captar a ideia geral daqueles ao seu redor e, assim, servir ao propósito geral."[3] Peirce sustentou que existem três desses princípios e três modos de evolução associados:
"Três modos de evolução foram assim apresentados a nós: evolução por variação fortuita, evolução por necessidade mecânica e evolução por amor criativo. Podemos denominá-los evolução ticástica, ou ticasmo, evolução anancástica, ou anancasmo, e evolução agapástica, ou agapasmo. As doutrinas que representam cada uma delas como de importância principal podem ser denominadas tiquismo, anancasmo e agapasticismo. Por outro lado, as meras proposições de que o acaso absoluto, a necessidade mecânica e a lei do amor operam separadamente no cosmos podem receber os nomes de tiquismo, anancasmo e agapismo." —C. S. Peirce, 1893[3]
O agapismo se insere dentro de sua doutrina do sinequismo.[5] Houve inspiração do conceito unitivo do amor em Schelling.[6] O Evangelho cristão também serviu de modelo. Para Peirce, a proposição realça que, em sua cosmologia, a criação no universo é não compulsiva, mas sacrificial, de doação do amor: para ele, o crescimento da Natureza e o falibilismo cognitivo somente podem ser reconciliados por meio da força da "identificação" proporcionada pelo movimento do amor espraiado pelo cosmos, visto que "amor" é o conceito dado a uma força que porta uma teleologia a um bem comum. Assim, cada indivíduo se une a outro para um bem comum.[5]
Enquanto o tiquismo se referiria ao acaso e à categoria da primeiridade, o ananquismo ao choque bruto e à segundidade de leis mecânicas, a mediação entre ambos ocorre pelo agapismo, em terceiridade.[7] Para Peirce, o acaso e a necessidade são fatores importantes no processo cósmico, porém são formas parciais e subsumidas à lei do agapismo, a qual tornaria o universo cada vez mais aperfeiçoado.[8]
Em sua lógica, o conceito também possui um papel importante: ele designa um processo de pensamento para além da dedução, em que se intui "por uma atração imediata pela própria ideia, cuja natureza é adivinhada antes que a mente a possua, pelo poder da simpatia, isto é, em virtude da continuidade da mente". Assim, as coletividades de ideias e de pessoas são reunidas em simpatia pelo amor criativo. Vincula-se, por excelência, diretamente ao processo de abdução.[6][8]
Referências
- 1 2 3 Passariello, Phyllis (2015). «Cosmic Sensorium: Evolutionary Love, Agapasm, and the Community of Souls» (PDF). Semiotics 2015: Virtual Identities
- ↑ Mayhew, Henry (1851), London Labour and the London Poor, v. 2, p. 256, Google Books Eprint.
- 1 2 3 Peirce, C. S. (1893), "Evolutionary Love", The Monist, v. III, n. 1, pp. 176–200, for "agapism" see p. 188, Arisbe Eprint Arquivado em maio 20, 2007, no Wayback Machine. Reprinted in Collected Papers v. 6, paragraphs 287–317, for the word "agapism" see 302. Reprinted also in Chance, Love, and Logic pp. 267–300, Philosophical Writings of Peirce pp. 361–74, and The Essential Peirce v.1, pp. 352–72.
- ↑ Peirce, C. S. (1870), Review of Henry James, Sr.'s The Secret of Swedenborg, in North American Review 110, April, pp. 463–8, Google Books Eprint. Reprinted in Writings of Charles S. Peirce v. 2, pp. 433–8, Peirce Edition Project Eprint.
- 1 2 Deuser, Hermann. «Synechismus». In Ritter, Johann; Gründer, Karlfried; Gabriel, Gottfried. Historisches Wörterbuch der Philosophie online. Schwabe Online.
- 1 2 Ibri, Ivo Assad (15 de setembro de 2022). Semiotics and Pragmatism: Theoretical Interfaces (em inglês). [S.l.]: Springer Nature. ISBN 978-3-031-09625-9
- ↑ Brioschi, Maria Regina (29 de agosto de 2017). «Between Continuity and Atomism». In: Dziadkowiec, Jakub; Lamza, Lukasz. Beyond Whitehead: Recent Advances in Process Thought (em inglês). [S.l.]: Bloomsbury Publishing PLC. ISBN 978-1-4985-5469-5
- 1 2 Gelpi, Donald L. (15 de agosto de 2007). Varieties of Transcendental Experience: A Study in Constructive Postmodernism (em inglês). [S.l.]: Wipf and Stock Publishers. ISBN 978-1-55635-570-7. Consultado em 20 de abril de 2026