Almoquetar Atacafi
| Almoquetar Atacafi | |
|---|---|
![]() Pintura persa de Almoquetar Atacafi | |
| Nascimento | ca. 622 |
| Morte | 3 de abril de 687 |
| Nacionalidade | Califado Ortodoxo Califado Omíada |
| Progenitores | Mãe: Dauma binte Anre Pai: Abu Ubaide Atacafi |
Almoquetar ibne Abi Ubaide Atacafi (em árabe: الْمُخْتَار ٱبْن أَبِي عُبَيْد الثَّقَفِيّ; romaniz.: al-Mukhtār ibn Abī ʿUbayd al-Thaqafī; c. 622 – 3 de abril de 687) foi um revolucionário árabe pró-álida sediado em Cufa, que liderou uma rebelião contra o Califado Omíada em 685 e governou a maior parte do Iraque por dezoito meses durante a Segunda Fitna. Nascido em Taife, Almoquetar mudou-se ainda jovem para o Iraque e cresceu em Cufa. Após a morte de Huceine ibne Ali, neto do profeta islâmico Maomé, às mãos do exército omíada na Batalha de Carbala em 680, aliou-se ao califa rival Abedalá ibne Zobair em Meca, mas a aliança foi breve. Almoquetar retornou a Cufa, onde proclamou Maomé ibne Hanafia, filho do califa Ali (r. 656–661) e irmão de Huceine, como o mádi e o imame, conclamando ao estabelecimento de um califado álida e à vingança pela morte de Huceine. Ele tomou Cufa em outubro de 685, após expulsar seu governador zobaírida, e posteriormente ordenou a execução dos envolvidos na morte de Huceine. Relações hostis com Ibne Zobair culminaram na morte de Almoquetar pelas forças do governador zobaírida de Baçorá, Muçabe ibne Zobair, após um cerco de quatro meses.
Embora derrotado, o movimento de Almoquetar teve consequências duradouras. Após sua morte, seus seguidores formaram uma seita xiita radical[a], mais tarde conhecida como caissanitas, que desenvolveu doutrinas inovadoras e influenciou a ideologia xiita posterior. Almoquetar elevou o status social dos maulas (convertidos locais não árabes ao islã), que se tornaram uma importante força política. Os maulas e os caissanitas desempenhariam papel significativo na Revolução Abássida sessenta anos depois. Almoquetar foi importante como um dos primeiros defensores da igualdade entre muçulmanos árabes e não árabes. É figura controversa entre os sunitas; condenado por eles como falso profeta, mas reverenciado pela maioria dos xiitas por seu apoio aos álidas. As avaliações de historiadores modernos variam entre considerá-lo um revolucionário sincero ou um oportunista ambicioso.
Antecedentes

Almoquetar ibne Abi Ubaide ibne Maçude ibne Anre ibne Omair ibne Aufe ibne Afra ibne Omaira ibne Aufe ibne Taquife Atacafi nasceu em Taife em 622 EC (ano em que o profeta islâmico Maomé migrou para Medina) como filho de Abu Ubaide Atacafi, comandante militar muçulmano da tribo dos taquifitas, e Dauma binte Anre ibne Uabe ibne Muatibe.[2][3] Após a morte de Maomé em 632, Abu Becre (r. 632–634) tornou-se o primeiro califa. Ele morreu dois anos depois e foi sucedido por Omar (r. 634–644), que prosseguiu com a expansão califal iniciada por Abu Becre[4] e enviou o pai de Almoquetar, Abu Ubaide, para o fronte iraquiano. Abu Ubaide foi morto na Batalha da Ponte em novembro de 634. Almoquetar, então com treze anos, permaneceu no Iraque após a conquista muçulmana da região[2] e foi criado por seu tio Sade ibne Maçufe Atacafi.[5] Omar foi assassinado pelo escravo persa Abu Lulua Firuz em 644, e seu sucessor, Otomão (r. 644–656), governou por doze anos antes de ser assassinado por rebeldes em 656.[4]
Após a morte de Otomão, Ali (r. 656–661), primo e genro de Maomé, tornou-se califa e transferiu a capital para Cufa,[4] onde Almoquetar ocupou um cargo menor sob seu governo,[2] e seu tio tornou-se governador de Almadaim.[5] Os apoiadores de Otomão, incluindo Moáuia ibne Abi Sufiane, governador da Grande Síria, recusaram-se a reconhecer a autoridade de Ali, levando ao início da Primeira Fitna. A Batalha de Sifim (julho de 657) terminou em impasse quando os iraquianos recusaram-se a continuar a luta diante do pedido sírio de arbitragem. Ali aceitou relutantemente negociar, mas um grupo de seus partidários, mais tarde chamado carijitas, separou-se em protesto. A arbitragem não resolveu o conflito, e Ali foi assassinado pelo dissidente carijita Abderramão ibne Muljame em janeiro de 661.[4]
O filho mais velho de Ali, Haçane, tornou-se califa, mas Moáuia desafiou sua autoridade e invadiu o Iraque com seu exército sírio.[4] Enquanto Haçane mobilizava suas tropas, foi ferido por um carijita perto de Almadaim e levado para a casa do tio de Almoquetar. Ali, Almoquetar teria recomendado que Haçane fosse entregue a Moáuia em troca de favores políticos, mas foi rechaçado por seu tio.[5][6] Em agosto de 661, Haçane abdicou do califado em favor de Moáuia por meio de um tratado de paz, e a capital foi transferida para Damasco. Alguns anos antes de sua morte, Moáuia nomeou seu filho Iázide como sucessor, fundando assim o Califado Omíada. A nomeação de Iázide irritou os partidários álidas (apoiadores políticos de Ali e de sua família), pois foi vista como violação do tratado de paz, que estipulava que Moáuia não indicaria um sucessor.[7] Existem poucas informações sobre a juventude de Almoquetar, e ele só ganhou proeminência quando já tinha cerca de sessenta anos.[8]
Revolta
Com a ascensão de Iázide em abril de 680, os cufanos pró-álidas instaram Huceine ibne Ali, irmão mais novo do já falecido Haçane, a liderar uma revolta contra Iázide. Huceine enviou então seu primo Muslim ibne Aquil para avaliar o ambiente político em Cufa.[7] Almoquetar hospedou Ibne Aquil em sua casa antes da chegada de Ubaide Alá ibne Ziade. Este foi nomeado para substituir o sogro de Almoquetar, Nomane ibne Baxir, como governador, devido à atitude benevolente de Ibne Baxir para com Ibne Aquil e seus seguidores. Como resultado da repressão e das manobras políticas de Ibne Ziade, o apoio a Ibne Aquil começou a se dissipar, e ele foi forçado a declarar a revolta prematuramente. Almoquetar não estava na cidade naquele momento. Ao saber das notícias, tentou reunir apoiadores nos arredores de Cufa, mas a revolta de Ibne Aquil foi derrotada e ele foi executado antes que Almoquetar retornasse à cidade. Almoquetar foi preso e levado ao governador, mas negou envolvimento na revolta. Enquanto estava preso, Huceine foi morto pelas forças de Ibne Ziade na Batalha de Carbala em 10 de outubro de 680.[9] Almoquetar foi posteriormente libertado por intervenção de Abedalá ibne Omar, influente filho do segundo califa e cunhado de Almoquetar, e recebeu ordem de deixar Cufa.[10]
Exílio em Meca
Nesse período, Abedalá ibne Zobair, filho do companheiro próximo de Maomé, Zobair ibne Alauame, começou secretamente a receber juramentos de lealdade em Meca e passou a controlar todo o Hejaz (Arábia Ocidental).[11][12] Após deixar Cufa, Almoquetar dirigiu-se a Meca e ofereceu lealdade a Ibne Zobair sob a condição de ser consultado sobre assuntos importantes e receber um alto cargo, o que Ibne Zobair recusou. Almoquetar então partiu para Taife e, após um ano, Ibne Zobair, persuadido por seus conselheiros, aceitou sua homenagem nos mesmos termos.[10][13] Quando Iázide enviou um exército para retomar Meca em 683, Almoquetar participou da defesa da cidade.[14] Após a morte de Iázide em novembro, o exército omíada recuou e Ibne Zobair proclamou abertamente seu califado. Almoquetar foi informado por pessoas vindas de Cufa de que a cidade havia passado ao controle de Ibne Zobair, mas muitos cufanos buscavam um líder independente próprio. Ele afirmou ser o homem que procuravam.[15] Enquanto estava em Meca, buscou permissão do filho de Ali, Maomé ibne Hanafia, para vingar a morte de Huceine e assegurar o poder para Ibne Hanafia. Este respondeu que não aprovava nem desaprovava tal ação, mas que o derramamento de sangue deveria ser evitado.[13] Anteriormente, ele fizera a mesma proposta ao filho de Huceine, Ali Açajade, mas fora recusado.[2] Cinco meses após a morte de Iázide, retornou a Cufa sem informar Ibne Zobair, que considerava não ter cumprido sua promessa.[10] Alguns relatos afirmam que o próprio Ibne Zobair o enviou a Cufa como governador com instruções para reunir uma força capaz de resistir às tentativas omíadas de reconquistar o Iraque.[16][17] Isso é considerado improvável por historiadores modernos.[17]
Retorno a Cufa

Em Cufa, Almoquetar começou a recrutar pessoas para vingar os assassinos de Huceine, prometendo-lhes vitória e fortuna. Ao mesmo tempo, Suleimão ibne Surade, companheiro de Maomé e partidário álida, reunia um grupo de cufanos que se autodenominavam tauabinitas para combater os omíadas e expiar sua falha em apoiar Huceine na Batalha de Carbala. O movimento tauabinita criou dificuldades para Almoquetar. A maioria dos partidários álidas em Cufa apoiava Ibne Surade por ele ter sido companheiro de Maomé, e, como resultado, Almoquetar não conseguiu atrair muitos recrutas. Ele criticou as ações dos tauabinitas como prematuras e fadadas ao fracasso, argumentando que Ibne Surade era idoso, fraco e inexperiente militarmente. Em seguida, afirmou ser representante de Ibne Hanafia, a quem chamava de Mádi. Convenceu muitos partidários álidas, incluindo cerca de quinhentos maulas (convertidos locais ao islã),[b] de que agia sob ordens do Mádi.[19][20]
Desconfiando da autenticidade das alegações de Almoquetar, um grupo de partidários álidas de Cufa foi a Meca buscar confirmação junto a Ibne Hanafia. Ele respondeu de modo ambíguo que estava satisfeito com qualquer pessoa que Deus utilizasse para vingar os inimigos da família do Profeta. Interpretaram isso como confirmação das alegações de Almoquetar e retornaram para unir-se a ele. Para conquistar o ainda não convencido Ibraim ibne Alastar, influente partidário álida e chefe da tribo dos nucaítas, Almoquetar apresentou-lhe uma carta que alegava ter sido escrita por Ibne Hanafia. Nela, Ibne Hanafia supostamente se declarava o Mádi e instava Ibne Alastar a apoiar Almoquetar. Após expressar dúvidas, Ibne Alastar acabou aderindo a ele.[21] A carta provavelmente foi forjada, e Ibne Hanafia parece não ter tido envolvimento na revolta. Ele, contudo, tolerou o uso de seu nome e não desaprovou as atividades de Almoquetar.[22][23] Ainda assim, quando quis visitar seus seguidores em Cufa, foi dissuadido por um rumor, espalhado por Almoquetar ao saber da notícia, de que o verdadeiro Mádi não morreria se fosse atingido por uma espada.[23][24] Ibne Zobair nomeou Abedalá ibne Iázide como governador de Cufa em 684. Temendo Almoquetar, Ibne Iázide o prendeu. Algum tempo depois, Abedalá ibne Omar intercedeu por Almoquetar, que prometeu abster-se de atividades antigovernamentais e foi libertado.[25]
Derrubada do governador zobaírida
Após sua libertação, Almoquetar retomou suas atividades revolucionárias. Os tauabinitas foram derrotados pelos omíadas na Batalha de Aine Aluarda em janeiro de 685, e a maioria dos cufanos pró-álidas transferiu sua lealdade para Almoquetar. Ibne Zobair substituiu Ibne Iázide por Abedalá ibne Muti como governador para conter a agitação esperada, mas sem sucesso. Almoquetar e seus seguidores planejaram derrubar o governador e tomar o controle de Cufa na quinta-feira, 19 de outubro de 685. Na noite de 17 de outubro, os homens de Almoquetar confrontaram as forças zobaíridas. Almoquetar sinalizou a declaração antecipada da revolta acendendo fogueiras. Na noite de quarta-feira, 18 de outubro, as forças zobaíridas foram derrotadas. Ibne Muti escondeu-se e depois, com ajuda de Almoquetar, escapou para Baçorá. Na manhã seguinte, Almoquetar recebeu a lealdade dos cufanos na mesquita com base no “Livro de Deus, na Suna do Profeta, na vingança pela família do Profeta, na defesa dos fracos e na guerra contra os pecadores”.[21][26]
Governo sobre o Iraque

O apoio à revolta de Almoquetar veio de dois grupos divergentes: a nobreza tribal árabe e os maulas. A princípio, ele tentou reconciliar suas diferenças e apaziguar ambos.[27] A maioria dos cargos governamentais, incluindo os governos de Moçul e Almadaim, foi concedida a árabes. Os maulas, até então tratados como cidadãos de segunda categoria, passaram a ter direito ao butim de guerra e aos soldos do exército, além de poderem montar a cavalo. Ele anunciou que quaisquer escravos maulas que se juntassem a ele seriam libertados, o que resultou em maior apoio desse grupo. Sua guarda pessoal também era composta por maulas, liderados por Abu Anra Caiçane.[28] A nobreza tribal árabe, contudo, ficou perturbada com suas políticas em relação aos maulas.[19][29] Nesse estágio, ele controlava a maior parte do Iraque e suas dependências, incluindo Armínia, Azerbaijão, Jibal e partes da Jazira (Alta Mesopotâmia).[30][31] As tentativas de seus partidários de tomar Baçorá, que estava sob controle zobaírida, não tiveram sucesso.[29] Àquela altura, Abedal Maleque ibne Maruane havia assumido as rédeas do poder omíada na Síria e tentava recuperar o controle das províncias perdidas.[12]
Contragolpe
Um ano após a Batalha de Aine Aluarda, o exército omíada ocupou Moçul e marchou em direção a Cufa. Almoquetar enviou três mil cavaleiros sob o comando de Iázide ibne Anas. Em 17 de julho de 686, eles derrotaram o exército omíada, duas vezes maior, perto de Moçul. Naquela noite, após ordenar a execução de todos os cativos sírios, Ibne Anas morreu de doença. Tendo perdido seu comandante, os cufanos recuaram diante de outro exército omíada. Em Cufa, espalhou-se o rumor de que as forças de Almoquetar haviam sido derrotadas e que Ibne Anas fora morto. Em resposta, Almoquetar enviou sete mil reforços sob o comando de Ibne Alastar. Aproveitando-se da ausência das tropas, a nobreza cufana, cujas relações com Almoquetar haviam se deteriorado devido ao seu favoritismo em relação aos maulas, tentou derrubá-lo cercando seu palácio.[32][33] Eles o acusaram de roubar seu prestígio:[34]
Ele e seu partido renunciaram a nossos piedosos antepassados; ele seduziu nossos escravos e maulas, colocou-os a cavalo, deu-lhes ou prometeu-lhes uma parte de nossas receitas estatais; dessa maneira ele nos roubou ...[34]
Apesar do cerco, Almoquetar conseguiu chamar Ibne Alastar de volta. Três dias após sua partida de Cufa, o exército de Ibne Alastar retornou e derrotou a revolta.[32][33] Após eliminar sua oposição, Almoquetar adotou medidas punitivas contra os envolvidos na batalha de Carbala. Executou a maioria deles, incluindo Omar ibne Sade e Xinre ibne Di Aljauaxane.[33] Muitos outros foram mortos sob o pretexto de envolvimento direto ou indireto na batalha, enquanto cerca de dez mil cufanos fugiram para Baçorá. As casas de muitos fugitivos foram destruídas.[30] Isso reduziu ainda mais o apoio árabe a Almoquetar, que passou a depender cada vez mais dos maulas.[33]
Batalha de Cazir
Dois dias após reafirmar o controle sobre Cufa, Almoquetar enviou Ibne Alastar com um contingente de treze mil homens para enfrentar o exército omíada que se aproximava, liderado por Ibne Ziade. Alguns soldados de Almoquetar carregavam uma cadeira, circulando ao redor dela, que afirmavam pertencer a Ali e que lhes garantiria a vitória na batalha. Diz-se que a ideia foi de Almoquetar. Ele a teria inventado para aumentar seu apoio entre pessoas mais religiosas, comparando-a à Arca da Aliança.[35][36] O orientalista Julius Wellhausen, porém, sustenta que ele não foi o originador do conceito. Ele permitiu que carregassem a cadeira, pois precisava de seu zelo.[37] Os exércitos se encontraram às margens do rio Cazir no início de agosto de 686. O exército omíada foi derrotado, e muitos de seus principais líderes militares, incluindo Ibne Ziade e Huceine ibne Numair Alçacuni, foram mortos.[33][38] A data exata da batalha é desconhecida, embora algumas fontes a situem em 6 de agosto, coincidindo com 10 de Moarrão, data da morte de Huceine.[39] A morte de Ibne Ziade foi vista como o cumprimento da promessa de vingança de Almoquetar contra os assassinos de Huceine.[39][40]
Relações com Ibne Zobair
Algum tempo após expulsar Ibne Muti, Almoquetar queixou-se a Ibne Zobair por não ter cumprido sua promessa, apesar de Almoquetar tê-lo servido bem. Ainda assim, ofereceu-lhe apoio, se necessário. Embora Ibne Zobair considerasse Almoquetar leal, este recusou-se a entregar o controle de Cufa ao governador nomeado pelo califa, Omar ibne Abderramão. O governador deixou a cidade após ser subornado e ameaçado por Almoquetar.[41] Em 686, Almoquetar simulou oferecer apoio militar a Ibne Zobair contra um iminente ataque omíada a Medina, com a intenção final de depô-lo. Ibne Zobair aceitou e solicitou tropas para Uádi Alcura, um vale ao norte de Medina; porém, Almoquetar enviou três mil combatentes sob o comando de Xurabil ibne Uarse com ordens de entrar em Medina até novo aviso. Enquanto isso, Ibne Zobair enviou seu confidente Abas ibne Sal à frente de dois mil homens com instruções para escoltar Ibne Uarse e seus homens até Uádi Alcura, em antecipação ao exército sírio, e matar os leais a Almoquetar caso se recusassem. Ibne Uarse recusou-se de fato e foi morto junto com a maioria de seus homens. Almoquetar então informou Ibne Hanafia sobre seu plano frustrado de tomar a região para os álidas e ofereceu-se para enviar outro exército a Medina se Ibne Hanafia notificasse os habitantes de que Almoquetar agia em seu nome. Ibne Hanafia recusou, citando sua oposição ao derramamento de sangue. Ainda assim, Ibne Zobair, ao tomar conhecimento das intenções de Almoquetar e temendo uma revolta pró-alida no Hejaz, deteve Ibne Hanafia para forçá-lo a prestar-lhe lealdade, esperando que Almoquetar fizesse o mesmo. Ibne Hanafia pediu ajuda a Almoquetar, que enviou um contingente de quatro mil homens para libertá-lo. Isso causou maior deterioração nas relações entre Meca e Cufa.[42][43][44]
Morte
Em 687, Muçabe ibne Zobair, governador de Baçorá e irmão mais novo de Abedalá ibne Zobair, lançou um ataque contra Cufa. Uma parte significativa de seu exército era composta por nobres cufanos que anteriormente haviam fugido das medidas punitivas de Almoquetar.[27] O tamanho do exército cufano de Almoquetar é incerto, variando entre três mil e sessenta mil, dependendo da fonte.[45] Os cufanos recuaram após serem derrotados nas batalhas de Madar, localizada ao longo do Tigre entre Baçorá e Cufa, e Harura, uma aldeia próxima a Cufa.[46] Muçabe então sitiou o palácio de Almoquetar por quatro meses. Ibne Alastar, então governador de Moçul, não tentou socorrê-lo, seja porque não foi convocado,[47] seja porque recusou o chamado de Almoquetar.[48][49] Em todo caso, mais tarde juntou-se a Muçabe.[47] Em 3 de abril de 687, Almoquetar saiu do palácio acompanhado por dezenove partidários (os demais haviam se recusado a lutar) e foi morto em combate.[50] Logo depois, os partidários restantes de Almoquetar, cerca de seis mil, renderam-se e foram executados por Muçabe.[27] Uma das esposas de Almoquetar, Anra binte Nomane ibne Baxir Alançari, recusou-se a denunciar as opiniões do marido e foi executada,[51] enquanto sua outra esposa o condenou e foi poupada. A mão de Almoquetar foi cortada e pendurada na parede da mesquita.[52] Seu túmulo estaria localizado dentro do santuário de Muslim Ibne Aquil, nos fundos da Grande Mesquita de Cufa.[53] Algumas fontes, contudo, afirmam que Muçabe teria queimado seu corpo.[54]
Legado
Embora Almoquetar tenha governado por menos de dois anos, sua ideologia sobreviveu à sua morte. Foi durante seu governo que os maulas ascenderam em importância, para grande insatisfação da nobreza árabe de Cufa.[27][55] Ele proclamou Maomé ibne Hanafia como o Mádi e o imame. Essa foi provavelmente a primeira referência ao Mádi[c] na história do Islã. Essa ideia tornou-se posteriormente influente, particularmente no xiismo, onde passou a constituir um de seus princípios centrais.[19][55] Ele foi a primeira pessoa a introduzir o conceito de Bada (mudança na vontade divina), quando, após a derrota na batalha de Madar — para a qual afirmara ter recebido promessa de vitória — declarou que Deus havia alterado Seu desígnio.[57][58]
Seus seguidores posteriormente desenvolveram-se numa seita xiita distinta conhecida como os caissanitas.[59] Eles introduziram as doutrinas da Ocultação (gaiba) e do Retorno (Raja) do Mádi. Após a morte de Ibne Hanafia, alguns caissanitas acreditaram que ele não havia morrido, mas que estava oculto no monte Radua e retornaria um dia para livrar o mundo da injustiça.[60][61][50] A maioria dos caissanitas, contudo, declarou seu filho Abu Haxim como seu imame. Este então transferiu o imamato a Maomé ibne Ali ibne Abedalá antes de morrer. A dinastia abássida utilizou esse fato como instrumento de propaganda durante sua revolução para reforçar sua legitimidade e atrair as massas pró-álidas. Dois dos filhos de Maomé ibne Ali, Açafá e Almançor, viriam a estabelecer o Califado Abássida.[62][63][64] Descrevendo as semelhanças entre Almoquetar e o revolucionário abássida Abu Muslim, que recrutou tanto árabes quanto maulas em seu exército e os tratou como iguais,[65] Wellhausen escreve: “Se a doutrina do Raja é correta, então o árabe de Cutarnia [d] [Almoquetar] voltou à vida no Maula de Cutarnia [Abu Muslim].”[67]
Os muçulmanos sunitas consideram Almoquetar um mentiroso que reivindicou a profecia e o veem como inimigo dos álidas, que teria usado o nome deles para alcançar o poder e executado os assassinos de Huceine para consolidar seu apoio entre os pró-álidas.[68] Segundo Wellhausen, embora ele não tenha se autoproclamado explicitamente profeta, as acusações enraizaram-se devido à sua jactância e às afirmações excessivas que fazia, no estilo da prosa rimada dos antigos adivinhos árabes.[1][69] Relata-se que Maomé teria dito: “Entre os taquifitas haverá um grande mentiroso e destruidor.”[70] Para eles, o mentiroso é Almoquetar e o destruidor é Alhajaje ibne Iúçufe.[70] Já os xiitas o consideram um partidário sincero de Ali e de sua família, que vingou o assassinato de Huceine e de seus companheiros.[71] Sustentam que as acusações relativas à profecia, ao seu papel na seita caissanita e à sua ambição de poder constituem propaganda omíada e zobaírida.[68] Os primeiros xiitas, contudo, tinham dele opinião hostil, decorrente de sua atitude para com Haçane e de sua alegada incompetência durante a revolta de Ibne Aquil. Sua proclamação de Ibne Hanafia, um não-fatímida, também pode ter contribuído para isso,[17] pois a maioria dos xiitas posteriores aderiu à linhagem fatímida dos álidas.[39]
Visões da família álida
Há relatos divergentes sobre como membros proeminentes da família álida viam Almoquetar. Um relato sustenta que o filho de Huceine e quarto imame xiita, Ali Açajade, rezou por ele após ver as cabeças de Ibne Ziade e Omar ibne Sade,[72] enquanto outro afirma que ele rejeitou os presentes de Almoquetar e o chamou de mentiroso.[73][72] O neto de Huceine, Maomé Albaquir, elogiou-o: “Não amaldiçoeis Almoquetar, pois ele matou aqueles que nos mataram, vingou-nos, casou-se com nossas viúvas e distribuiu riqueza entre nós em tempos de dificuldade.”[72] Albaquir voltou a elogiá-lo quando o filho de Almoquetar lhe perguntou sua opinião a respeito de seu pai.[74] O bisneto de Huceine, Jafar Açadique, teria dito: “Os haxemitas não pentearam nem tingiram os cabelos até que Almoquetar nos enviasse as cabeças daqueles que mataram Huceine.”[72] Também se relata que Jafar Açadique afirmou que Almoquetar costumava mentir a respeito de Ali Açajade.[74][72]
Visões acadêmicas modernas
Embora os relatos históricos antigos sejam unânimes em retratar Almoquetar de forma negativa,[75] os historiadores modernos apresentam avaliações variadas. Wellhausen escreve que, embora Almoquetar não tenha reivindicado ser profeta, fez todo o possível para criar a impressão de que o era e falava como se participasse do conselho de Deus. Conclui, contudo, que Almoquetar foi um homem sincero que procurou erradicar as diferenças sociais de seu tempo. Argumenta ainda que ele fez afirmações extravagantes e explorou o nome de Ibne Hanafia por necessidade, pois não poderia ter alcançado seu objetivo em nome próprio.[69] Ele o chama de “... um dos maiores homens da história islâmica; [que] antecipou o futuro”.[67] O historiador Hugh Kennedy escreve que Almoquetar foi um revolucionário que tentou formar uma coalizão unificada em Cufa, mas foi prejudicado por divisões internas e abandonado pela família álida.[27] Antes de sua morte, Almoquetar teria dito:
Sou um dos árabes; vi que Ibne Zobair tomou o poder no Hejaz e que Najeda [líder carijita] fez o mesmo em Iamama e Maruane na Síria, e não me considerei inferior aos demais árabes. Portanto, assumi esta região e tornei-me como um deles, exceto que busquei vingar o sangue da família do Profeta, enquanto os outros árabes negligenciaram essa questão. Matei todos os que participaram do derramamento de seu sangue e continuei a fazê-lo até hoje ...[76]
O islamólogo Moshe Sharon descreve isso como uma descrição fiel de suas atividades.[76] O professor Abdulaziz Sachedina , por sua vez, considera-o um político ambicioso que manipulou os sentimentos religiosos do povo comum em benefício próprio.[77]
Referências na cultura popular
Assim como os Maqtal-namas que narram a versão sintetizada da história de Carbala, vários Almoquetar-namas romantizando os acontecimentos da vida e do movimento de Almoquetar foram escritos durante a Era Safávida.[78] Uma série televisiva iraniana, Mokhtarnameh, baseada na perspectiva xiita de sua vida e revolta, foi produzida em 2009, alcançando significativa popularidade.[79][71]
Notas
- ↑ Seita de muçulmanos que, ao contrário dos sunitas, acreditam que Ali, primo e genro do profeta islâmico Maomé, e seus descendentes eram os líderes legítimos e divinamente designados (imames) da comunidade muçulmana.[1]
- ↑ Na sociedade tribal do califado primitivo, todo muçulmano precisava pertencer a uma tribo árabe. Convertidos não árabes eram assim incorporados às tribos árabes, embora não como membros iguais, daí o termo maula (cliente).[18]
- ↑ O título de Mádi (o guiado) havia sido aplicado postumamente a Maomé, Ali, Huceine e outros como honorífico. Almoquetar, contudo, empregou o termo em sentido messiânico: um governante divinamente guiado, que redimiria o Islã.[56]
- ↑ Pequena aldeia próxima a Cufa, onde Almoquetar possuía propriedades. Abu Muslim iniciou suas primeiras operações a partir de Cufa.[66]
Referências
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