Aulularia

Aulularia, ou A Comédia da panela[1] é uma comédia latina da autoria de Plauto, escrita no período de maturidade deste autor (entre 194 e 191 a.C.), e que inspirou L'Avare (O Avarento) de Molière.[2]

Sinopse

Euclião, um velho avarento e sovina, esconde um pote cheio de ouro em casa, enquanto finge ser pobre. Megadoro é um rico senhor que deseja tomar a filha de Euclião em casamento. Euclião, muito desconfiado ainda, resiste, mas acaba por aceitar, desde que Megadoro abra mão do dote que tradicionalmente o pai da noiva deve ofertar ao noivo. Megadoro concorda. Entretanto, acontecem várias peripécias em casa de Euclião, pois Megadoro manda cozinheiros para preparar o festim, mas Euclião os escorraça de casa com medo que lhe levem o pote. Então Euclião decide que tem de guardá-lo noutro local mais seguro e esconde-o no templo da deusa Bona Fides. O que ele não sabia era que Estrobilo, escravo de Liconides, sobrinho de Megadoro, tinha estado a ouvir as suas divagações; daí, entra no templo para roubá-la a fim de conseguir comprar a sua liberdade. Euclião encontra-o e dá-lhe uma sova.

Como esse local já estava descoberto, decide guardar o tesouro no bosque de Silvano, porém Estrobilo, que tinha escutado o monólogo de Euclião, adianta-se e chega ao bosque primeiro, aguardando para saber onde o velho iria esconder o dinheiro. Quando o velho vai embora, Estrobilo rejubila-se de alegria, pois com o ouro poderá comprar sua liberdade. Entretanto, Liconides — que violara muito antes a filha de Euclião, Fedra, e agora estava prestes a se tornar pai — decide revelar o seu segredo e pedir Fedra em casamento. Vai falar com o velho, mas as conversas entrecruzam-se e confundem-se, pois o velho pensa que jovem roubou o pote quando na verdade o rapaz está a falar de Fedra. Ou seja, Liconides confessa o crime de ter violado a filha de Euclião, mas este entende que a confissão trata de sua fortuna.

Cena a cena

ATO 1

PRÓLOGO

O deus Lar conta diretamente à plateia que cuida da casa de Euclião desde o avô da família, que, sendo muito avarento, mandou-o vigiar um tesouro sem contar a ninguém. O filho, igualmente avarento, não teve a chance de desfrutar da fortuna porque, ao não fazer oferendas ao deus, a divindade decidiu não lhe mostrar o dinheiro. Com o neto, Euclião, a situação é diferente, mas por causa da filha deste, uma moça devota que presta honras a Lar. Por isso a divindade fez que o neto descobrisse o pote de ouro; mas o homem o mantém guardado a sete chaves.

CENA 1

Euclião expulsa Estafila, a empregada, por acreditar que ela o está espionando. Quando entra para conferir se o tesouro ainda está guardado no mesmo local de antes, Estafila revela à plateia que a filha dele está para dar à luz.

CENA 2

Após se assegurar de que tudo estava nos conformes, Euclião volta e pede que Estafila continue vigiando a casa, não deixando absolutamente ninguém entrar ali. Ela diz que não há nada para roubar e que dentro só se encontram teias de aranha. Euclião manda-a para dentro e diz que vai ao mercado porque o administrador local prometeu distribuir dinheiro aos pobres. Para não levantar suspeitas, prefere ir, mesmo que quase não consiga lucrar nada. Sempre paranoico, ele acredita que as pessoas estão mais solícitas com ele ultimamente, porque descobriram seu segredo.

ATO 2

CENA 1

(Canto.) Eunomia aconselha Megadoro, seu irmão, a se casar. Ele, a princípio nega, mas aceita se ela sugerir a noiva. Eunomia indica uma velha com grande dote. Megadoro, ao recusar, alega que, caso ela engravidasse, o parto poderia pôr a vida da mulher em risco; além disso, ele não precisa de dote nenhum, porque não quer ostentar nem na festa nem na vida privada. No fim ele opta pela filha de Euclião, seu vizinho, que é jovem e pobre.

CENA 2

Megadoro se encontra com Euclião e propõe casar-se com a filha dele. De início, Euclião acredita que se trata de uma brincadeira, mas, quando nota que a proposta é séria, diz que a moça não tem e não terá dote para oferecer. Megadoro concorda com as condições, e os dois marcam a festa para o mesmo dia. Ao longo da conversa, em reiterados apartes Euclião desconfia que a simpatia e a ideia do casório (um homem rico com uma moça pobre) têm a ver com o pote de ouro escondido.

CENA 3

Euclião pede que Estafila lave as panelas para a festa de casamento da filha a acontecer dali a algumas horas. Ele sai para fazer compras no mercado; Estafila fica apreensiva, porque a moça está prestes a dar à luz.

CENAS 4 E 5

Estrobilo, o escravo, vem do mercado acompanhado de Anthrax e Congrio, dois cozinheiros, além dos flautistas contratadas para a festa. Estrobilo conta como Euclião é sovina, enumerando sovinices absurdas: põe um saco na boca para não perder o ar enquanto dorme; cata o cabelo que cai dele na barbearia; foi às autoridades para reaver uma carne roubada por um animal. Estrobilo divide duas equipes: Anthrax segue para a casa de Megadoro, e Congrio para a residência de Euclião. Congrio reclama que ficou no pior lugar, e Estrobilo rebate que, como não há apetrechos domésticos na casa de Euclião, eles não podem ser acusados de roubo, como acontece com frequência aos cozinheiros.

CENA 6

Com Congrio, Estrobilo bate à porta da casa de Euclião, e Estafila atende. Ela diz que não há vinho nem lenha para o casamento. Desobedecendo às ordens do patrão, deixa os dois entrarem.

CENA 7

Estrobilo diz que vai cuidar para que os cozinheiros não comam tudo antes dos convidados. Ele vai à casa de Megadoro.

CENA 8

Euclião chega do mercado reclamando que tudo estava muito caro e não comprou nada, exceto incenso e uma coroa de flores. Nesse momento, ele ouve Congrio dentro de sua casa procurando um pote. Após rezar a Apolo pedindo ajuda, entra na residência.

CENA 9

Anthrax sai da casa de Megadoro ainda dando comandos aos assistentes. Ele ouve uma gritaria vindo da casa de Euclião.

ATO 3

CENA 1

(Canto.) Fugindo da casa de Euclião, Congrio lamenta ter sido espancado pelo dono da casa. Nesse momento, Euclião aparece.

CENA 2

(Canto.) Euclião pensa que Congrio está querendo roubá-lo. Em vão, Congrio tenta mostrar que foi contratado para cozinhar para o casamento. Euclião retorna à casa.

CENA 3

Euclião reparece com o pote de ouro dentro do casaco, como se ninguém estivesse percebendo, e autoriza Congrio e o grupo dele a continuar o trabalho. Eles reclamam das bordoadas recebidas antes, mas aceitam.

CENA 4

Monólogo: Euclião afirma que o galo quase o denunciou ao ciscar perto do lugar onde estava o pote, mas ele matou o animal para que não fosse traído. Ele acredita que os cozinheiros estavam usando o bicho para encontrar o pote.

CENA 5

Megadoro defende as mulheres sem dote e pobres que sejam virtuosas, porque elas não conseguem se sobrepor ao marido nem aproveitar isso para gastar fortunas em produtos de beleza e vestimenta. Enquanto isso, Euclião ouve tudo, aprovando esse discurso sem reconhecer Megadoro. No fim da cena, os dois se reconhecem.

CENA 6

Megadoro pede que Euclião se arrume melhor para o casamento da filha. O sogro recusa, porque isso significaria ostentar. Ele reclama que Megadoro enviou muitos cozinheiros para sua casa, além de muita comida. Megadoro quer beber com Euclião para celebrar o matrimônio, mas este recusa por acreditar que isso é uma estratégia para que, bêbado, ele não dê por falta do pote de dinheiro. Quando Megadoro sai para se arrumar à festa, Euclião decide enterrar a fortuna no templo de Bona Fides.

ATO 4

CENA 1

O escravo de Liconides ressalta as características do bom escravo, que deve estar a todo instante disponível para seu senhor e até mesmo antevendo suas vontades. Ele conta à plateia que Liconides o enviou para que ele coletasse notícias e novidades sobre o casamento. Ele se senta aos pés do altar de Apolo para descansar.

CENA 2

Euclião passa pelo escravo sem vê-lo e revela que escondeu o tesouro no templo. O homem ouve tudo e vai ao santuário para procurar.

CENA 3

Euclião volta ao templo porque viu um corvo ciscando e grasnando no chão e tomou aquele comportamento como um vaticínio. Ele sai do templo batendo no escravo de Liconides.

CENA 4

Euclião acusa o escravo de tê-lo roubado, mas, depois de tentar de todas as formas reaver o pote que acreditava estar com ele, desiste e o manda embora. Entra então no templo.

CENAS 5 E 6

Euclião sai com o tesouro e vai para o Bosque de Silvano para enterrá-lo. Escondido, o escravo vê tudo e o acompanha.

CENA 7

Liconides pede que Eunomia (sua mãe) interceda por ele diante do tio (Megadoro) sobre Fedra (filha de Euclião) e o casamento, porque ele teve um envolvimento com a moça. Eunomia diz que, se o filho tiver lhe dito toda a verdade, é justificada a violência que resultou numa gravidez. Nesse momento, Fedra está dando à luz na casa de Euclião. Liconides e Eunomia vão falar com Megadoro.

CENA 8

O escravo de Liconides sai do bosque com o pote de ouro de Euclião.

CENA 9

(Canto.) Euclião lamenta a perda do pote de ouro, o que aniquila sua própria identidade. Ele se dirige ao público (inclusive a espectadores específicos) e pede que lhe digam quem fez isso com ele. Liconides sai da casa de Megadoro e, ao notar Euclião em desespero, acredita que ele descobriu a desonra da filha e o nascimento da criança.

CENA 10

Cena de grande comicidade. Euclião se lamenta por ter sido roubado, enquanto Liconides o encontra e acredita que ele descobriu a gravidez da filha. A confusão se estabelece quando os dois conversam achando que estão tratando do mesmo assunto. Quando o engano se resolve, Liconides pede a mão de Fedra e afirma que engravidou a moça; antes de responder, Euclião, abalado pela notícia, entra em casa para ver a jovem.

ATO 5

CENA 1

Liconides encontra o escravo que roubou o dinheiro e tenta fazê-lo devolver, mas ele diz que só devolverá se for libertado. (A cena está incompleta.)

(O restante da peça está perdido. Mas sabe-se que Liconides retorna o dinheiro para Euclião, que acaba abençoando o casal lhes dando enfim a fortuna.)[3]

Referências

  1. ↑ Sidney Barbosa. Aspectos do teatro ocidental. Editora UNESP; 2006. ISBN 978-85-7139-689-0. p. 37.
  2. ↑ Alfeu Trancoso. Os sete pecados capitais. Distribuidora Autentica LTDA; 2001. ISBN 978-85-86583-92-6. p. 44.
  3. ↑ Plaute; Rau, Peter (2007). Komödien: lateinisch und deutsch. Col: Edition Antike. Darmstadt: WBG. ISBN 978-3-534-18483-5