Caipira picando fumo

Caipira picando fumo
AutorAlmeida Júnior
Data1893
Géneroregionalismo, gênero
Técnicaóleo sobre tela
Dimensões202 × 141 cm 
LocalizaçãoPinacoteca de São Paulo

Caipira picando fumo é uma pintura de Almeida Júnior que retrata um homem caipira simples. Sua data de criação é 1893. Encontra-se sob a guarda de Pinacoteca do Estado de São Paulo. A obra é considerada uma das mais notáveis realizadas por Almeida Júnior, um dos principais objetos da pintura regionalista.[1][2][3]

Descrição e técnica

Caipira picando fumo é um óleo sobre tela datado de 1893, com 202 × 141 cm, pertencente ao ao acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo.[4]

A composição centra-se numa única figura masculina, um trabalhador rural (Bento Roque Pires), representada em posição sentada na soleira de uma habitação feita de taipa; as mãos do homem estão ocupadas no gesto de picar o fumo (preparar tabaco para consumo), ali ele permanece alheio à atenção que lhe é conferida, compenetrado em sua atividade.[5][2] O quadro reúne atenção detalhista às mãos e à fisionomia trabalhada do personagem, a presença de elementos do entorno — a palha, sujeira do chão, a porta entreaberta; e um tratamento cromático de tonalidade predominantemente terrosa que frisa a materialidade dos objetos e da pele.[5][2]

Almeida Júnior se utilizou de técnicas naturalistas francesas aprendidas em seu período de estudos na Escola de belas artes de Paris entre 1876 e 1882. A técnica envolve uma pintura com tintas já ressecadas diretamente na tela, para que em sua absorção o pigmento parecesse translúcido; a técnica permite que os brancos se destaquem, fazendo com que a pintura resulte em uma composição luminosa, rústica e tridimensional.[6]

Contexto

Na década de 1890 São Paulo vivia profundas transformações sociais e econômicas, a recente abolição alterava o trabalho rural, a República e o boom do café expandiam a economia paulista.[7] Artistas e críticos passaram a buscar um "tipo nacional" ou regional, voltando o olhar para o interior paulista.[7]

Nesse contexto emergia um nacionalismo cultural que valorizava cenas do interior, e Almeida Júnior destacou-se como precursor do regionalismo paulista, retratando com realismo o homem do campo.[8] Caipira picando fumo insere-se nesse cenário, produzido quando o artista já era conhecido por suas cenas rurais, é considerado exemplar de sua produção de temas caipiras, dando nobreza histórica a personagens simples do interior.[3][6] Esse período coincidiu com sua maturidade artística, com seus quadros combinando a inspiração naturalista europeia com um conteúdo genuinamente brasileiro.[6][9] Foi aliás nesse período que Cesário Motta aproximou-se do pintor, para que este realizasse pinturas para a formação do acervo do Museu Paulista.[5] A obra, hoje na Pinacoteca de São Paulo, foi transferida em 1905 do Museu Paulista.[10]

Obras relacionadas do artista

Análise

Assim como Amolação interrompida, Caipira picando fumo apresenta um personagem típico do sertão paulista, a quem é conferido "monumentalidade".[5] É uma pintura característica do regionalismo.[2]

Em seu ensaio centrado na tela, Rodrigo Naves interpreta Caipira picando fumo como uma pintura em que a luz (o sol) opera como um elemento dominante. A luz externa impõe-se sobre a cena e articula a relação entre figura e ambiente, de modo que o meio natural passa a mediar a leitura do personagem e do gesto. Naves discute essa ênfase luminosa em diálogo com leituras naturalistas e deterministas e aponta que a obra contém uma tensão entre uma leitura determinista do meio e uma visão que valoriza os personagens e o ambiente; o autor usa essa tensão para problematizar noções de identidade e nacionalidade na pintura brasileira de fim de século.[11]

Em uma exposição de 2024 a 2025 da Pinacoteca, Caipiras: das derrubadas à saudade, a montagem que tem Caipira picando fumo como peça-chave apresenta o tipo do "caipira" como construção cultural ligada a projetos políticos e identitários regionais, e relaciona a imagem à formação de um imaginário paulista que mobilizou o realismo e o naturalismo em sintonia com tendências internacionais.[12]

Jorge Coli diz do quadro:[13]

“ Sem nenhuma concessão a um pitoresco feito de detalhes supérfluos, o picador de fumo, na sua postura concentrada, expondo de modo crucial sua faca, interpondo-a de fato entre si mesmo e o espectador, protege-se, protege sua autonomia individualizada, protege, pela violência possível, o lugar frágil que ocupa no mundo. ”
 

A ação representada (o homem picando fumo) corresponde a uma prática doméstica e cotidiana do interior rural do século XIX; autores que estudam costumes rurais e iconografia brasileira a leem como um gesto ritualizado de consumo e de ócio produtivo, que implica tempo e um conjunto de objetos (faca, fumo, palha) associados à vida campestre. Essa atividade é tomada como indicadora de práticas populares ligadas ao prazer e à sociabilidade rural.[14]

Foi também notado que o quadro caracteriza-se por uma representação de intimidade e compenetração. Há portanto o retrato do homem em um ambiente natural, de reconforto.[15][16]

Recepção

Nas primeiras décadas do século XX a obra de Almeida Júnior ocupou lugar de relevo no debate sobre identidade nacional na arte brasileira. Intelectuais e críticos modernistas (como Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Monteiro Lobato) retomaram as figuras do interior produzidas por Almeida Júnior para criar narrativas sobre "o caipira" na cultura brasileira — ora elogiando a fidelidade ao tipo, ora criticando as leituras idealizadoras que esses quadros ajudaram a sedimentar.[6][17]

O então diretor do Museu Paulista Rodolpho von Ihering realizou a transferência da obra para a Pinacoteca do Estado de São Paulo, por considerar que não havia espaço no edifício do Museu Paulista e que não ornava com o tom da sala triunfalista onde estava. O espaço anteriormente tomado pelo quadro é ocupado pelo Retrato de Maria Quitéria.[5]

Ver também

Referências

  1. ↑ Tarasantchi, Ruth Sprung (2002). Pintores paisagistas: São Paulo, 1890 a 1920. [S.l.]: EdUSP. ISBN 978-85-314-0598-3
  2. 1 2 3 4 Imbroisi, Margaret (28 de setembro de 2016). «Caipira Picando Fumo, Almeida Junior». Historia das Artes. Consultado em 8 de fevereiro de 2020
  3. 1 2 «Video | Caipira picando fumo, de Almeida Júnior | Fundamental». Apreciando Arte. 3 de novembro de 2016. Consultado em 8 de fevereiro de 2020
  4. ↑ Cultural, Instituto Itaú. «Caipira Picando Fumo». Enciclopédia Itaú Cultural. Consultado em 17 de março de 2026
  5. 1 2 3 4 5 Lima Junior, Carlos; Nery, Pedro; Lima Junior, Carlos; Nery, Pedro (2019). «Do "campônio paulista" aos "homens da Independência": interpretações em disputa pelo passado nacional no Salão de Honra do Museu Paulista». Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material. 27. ISSN 0101-4714. doi:10.1590/1982-02672019v27e22d2
  6. 1 2 3 4 Queiroz, Christina. «Caipiras transnacionais». revistapesquisa.fapesp. Consultado em 17 de março de 2026
  7. 1 2 «Exposição "Conhecendo Almeida Junior"». Câmara Municipal de Piracicaba. 6 de maio de 2014. Consultado em 17 de março de 2026
  8. ↑ «José Ferraz de Almeida Junior». Guia das Artes. Consultado em 17 de março de 2026
  9. ↑ Naves, Rodrigo (novembro de 2005). «Almeida Júnior: o sol no meio do caminho». Novos Estudos - CEBRAP (73): 135–148. ISSN 0101-3300. doi:10.1590/S0101-33002005000300010. Consultado em 17 de março de 2026
  10. ↑ «Caipira picando fumo (primeira versão/estudo) - Almeida Júnior». Google Arts & Culture (em inglês). Consultado em 17 de março de 2026
  11. ↑ Naves, Rodrigo (novembro de 2005). «Almeida Júnior: o sol no meio do caminho». Novos estudos CEBRAP (73): 135–148. ISSN 0101-3300. doi:10.1590/S0101-33002005000300010
  12. ↑ «Pinacoteca – Caipiras: das derrubadas à saudade». pinacoteca.org.br. Consultado em 18 de março de 2026
  13. ↑ Oliveira, Lucia Lippi (1 de novembro de 2003). «Do Caipira Picando Fumo a Chitãozinho e Xororó, ou da roça ao rodeio». Revista USP (59). 232 páginas. ISSN 2316-9036. doi:10.11606/issn.2316-9036.v0i59p232-257. Consultado em 18 de março de 2026
  14. ↑ Szlachta Junior, Arnaldo Martin; Menezes, Sezinando Luiz (2019). «Almeida Junior, o caipira construtor de imaginários». Revista Tempo, Espaço, Linguagem (TEL) (em inglês) (1). ISSN 2177-6644. doi:10.5935/2177-6644.20190012. Consultado em 17 de março de 2026
  15. ↑ «CAIPIRA PICANDO FUMO (1893), NATUREZA E BRASIL SOB A SEMIÓTICA PEIRCENIANA Karina Barbosa Sousa Quiroga1 Fernando Lionel Quiro» (PDF). webcache.googleusercontent.com. Consultado em 8 de fevereiro de 2020
  16. ↑ «HACER - Um caipira (pré) moderno?». hacer. Consultado em 8 de fevereiro de 2020
  17. ↑ Junior, Valdemar Valente (21 de março de 2021). «MONTEIRO LOBATO E A CRISE DO CAFÉ: O CAIPIRA NO CONTEXTO PRÉ-MODERNISTA». Revista Decifrar (16): 49–62. ISSN 2318-2229. doi:10.29281/rd.v8i16.8094. Consultado em 18 de março de 2026