Coledococele

A coledococele é uma anomalia anatómica rara que consiste na dilatação quística da porção terminal do ducto biliar comum, localizada no interior ou imediatamente adjacente à parede do duodeno. Embora os quistos do colédoco sejam frequentemente diagnosticados na infância, esta variante específica pode manifestar-se apenas na idade adulta, representando cerca de 1 a 5% de todas as malformações quísticas das vias biliares. Na literatura médica, esta condição é formalmente classificada como sendo do Tipo III do sistema de classificação de Todani, que organiza as dilatações das vias biliares com base na sua localização e morfologia. A etiologia exata permanece sob debate, sugerindo-se tanto uma origem congénita, resultante de uma obstrução distal ou fraqueza estrutural da parede do ducto, como causas adquiridas ligadas a disfunções na junção biliopancreática.[1][2][3][4][5][6][7][8][9][10][11][12]

Os sintomas clínicos da coledococele são frequentemente inespecíficos, o que pode levar a um atraso significativo no diagnóstico definitivo. Os pacientes apresentam habitualmente episódios recorrentes de dor abdominal superior, muitas vezes desencadeados pela ingestão de alimentos gordurosos, podendo ser acompanhados de náuseas e vómitos. Em casos de obstrução biliar significativa, pode ocorrer icterícia obstrutiva, caracterizada pela coloração amarelada da pele e mucosas. Além disso, a estase da bílis e das secreções pancreáticas no interior da coledococele predispõe o indivíduo ao desenvolvimento de complicações graves, como pancreatite aguda recorrente, formação de cálculos biliares (coledocolitíase) e episódios de colangite. Embora a tríade clássica de dor, icterícia e massa palpável seja descrita para cistos de colédoco em geral, na coledococele ela é extremamente rara.

O diagnóstico moderno baseia-se fortemente em técnicas de imagem avançadas e procedimentos endoscópicos. A ecografia abdominal costuma ser o exame inicial de triagem devido à sua acessibilidade, embora possa ser inconclusiva para lesões pequenas na ampola de Vater. Exames mais sensíveis, como a colangiopancreatografia por ressonância magnética (CPRM), permitem visualizar a anatomia detalhada da árvore biliar e identificar a dilatação sacular na parede duodenal. Contudo, a colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (CPRE) é frequentemente considerada o «padrão de ouro», não apenas por permitir a visualização direta da procidência na segunda porção do duodeno, mas também por oferecer uma via para intervenção terapêutica imediata.

O tratamento da coledococele difere significativamente de outros tipos de quistos de colédoco devido à sua localização anatómica específica e à sua relação com a parede duodenal. Enquanto as dilatações dos tipos I e IV geralmente requerem ressecção cirúrgica complexa com reconstrução biliar, a coledococele permite frequentemente abordagens terapêuticas minimamente invasivas. A esfincterotomia endoscópica ou o destelhamento endoscópico da lesão surgem como as intervenções preferenciais, tendo como objetivo principal a descompressão do quisto e a facilitação da drenagem da bílis e do suco pancreático para o lúmen intestinal. Esta desobstrução mecânica reduz drasticamente a estase biliar e, consequentemente, o risco de episódios recorrentes de pancreatite e colangite.

Embora o risco de transformação maligna, como o desenvolvimento de adenocarcinoma, seja estatisticamente inferior na coledococele em comparação com outros cistos das vias biliares, a vigilância clínica e imagiológica a longo prazo é recomendada para todos os pacientes diagnosticados. Em situações em que as lesões apresentam dimensões volumosas, sintomas persistentes após intervenção endoscópica ou características suspeitas em exames de imagem, a excisão cirúrgica completa pode ser necessária para mitigar riscos futuros. A escolha entre a abordagem endoscópica e a cirurgia convencional depende da morfologia específica do quisto, da presença de complicações associadas e da experiência da equipa médica multidisciplinar envolvida no acompanhamento do caso.

Referências

  1. ↑ Martins, Bruno (12 de outubro de 2019). «Classificação de Todani - Doença cística da via biliar». Endoscopia Terapeutica. Consultado em 7 de abril de 2026
  2. ↑ Alonso-Lej, F.; Rever, W. B.; Pessagno, D. J. (janeiro de 1959). «Congenital choledochal cyst, with a report of 2, and an analysis of 94, cases». International Abstracts of Surgery. 108 (1): 1–30. PMID 13625059
  3. ↑ Law, Ryan; Topazian, Mark (1 de fevereiro de 2014). «Diagnosis and Treatment of Choledochoceles». Clinical Gastroenterology and Hepatology. 12 (2): 196–203. ISSN 1542-3565. doi:10.1016/j.cgh.2013.04.037
  4. ↑ Khandelwal, Chiranjiva; Anand, Utpal; Kumar, Bindey; Priyadarshi, Rajeev N. (fevereiro de 2012). «Diagnosis and management of choledochal cysts». The Indian Journal of Surgery. 74 (1): 29–34. ISSN 0972-2068. PMC 3259169Acessível livremente. PMID 23372304. doi:10.1007/s12262-011-0388-1
  5. ↑ Souza, Luis Ronan Marquez Ferreira de; Rodrigues, Flávio Batista; Tostes, Lucas Vieira; Barreto, Graziella Borges; Cardoso, Mateus Saldanha (2012). «Avaliação por imagem das lesões císticas congênitas das vias biliares». Radiologia Brasileira. 45: 113–117. ISSN 1678-7099. doi:10.1590/S0100-39842012000200010
  6. ↑ Soares, Kevin C.; Arnaoutakis, Dean J.; Kamel, Ihab; Rastegar, Neda; Anders, Robert; Maithel, Shishir; Pawlik, Timothy M. (dezembro de 2014). «Choledochal cysts: presentation, clinical differentiation, and management». Journal of the American College of Surgeons. 219 (6): 1167–1180. ISSN 1879-1190. PMC 4332770Acessível livremente. PMID 25442379. doi:10.1016/j.jamcollsurg.2014.04.023
  7. ↑ Machado, Norman Oneil; Chopra, Pradeep J.; Al-Zadjali, Adil; Younas, Shahzad (2015). «Choledochal Cyst in Adults: Etiopathogenesis, Presentation, Management, and Outcome-Case Series and Review». Gastroenterology Research and Practice. 2015. 602591 páginas. ISSN 1687-6121. PMC 4518150Acessível livremente. PMID 26257778. doi:10.1155/2015/602591
  8. ↑ Law, Ryan; Topazian, Mark (fevereiro de 2014). «Diagnosis and treatment of choledochoceles». Clinical Gastroenterology and Hepatology: The Official Clinical Practice Journal of the American Gastroenterological Association. 12 (2): 196–203. ISSN 1542-7714. PMID 23660418. doi:10.1016/j.cgh.2013.04.037
  9. ↑ Aulicino, Eduardo Marója; Pereira, Rodrigo Furtado; Alves, Ricardo Padlipskas; Ng, Thais Chicorski; Martines, Brenda; Frati, Rodrigo (2 de julho de 2025). «Associação do tratamento cirúrgico e endoscópico da coledocolitíase complexa: relato de caso». Revista de Medicina. 104 (4 esp.): e–238566. ISSN 1679-9836. doi:10.11606/issn.1679-9836.v104i4esp.e-238566
  10. ↑ Mirante, Vincenzo Giorgio; Cecinato, Paolo; Grillo, Simone; Sereni, Giuliana; Lucarini, Matteo; Beltrami, Marina; Sassatelli, Romano (novembro de 2021). «Endoscopic resection of a choledochocele». Endoscopy. 53 (11): E401–E402. ISSN 1438-8812. PMID 33336334. doi:10.1055/a-1314-9054
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