Cometa Austral de 1947

Cometa Austral de 1947
Outros nomesC/1947 X1-A; C/1947 X1-B; 1947 XII; 1947n
Informações orbitais
Excentricidade (e)0,99963
Semieixo maior (a)~300 UA
Periélio (q)0,11 UA
Afélio (Q)~590 UA
Período orbital (P)~5 100 anos
Inclinação (i)~139°
Último periélio2 de dezembro de 1947

O Cometa Austral de 1947 (também designado C/1947 X1, 1947 XII e 1947n)[1] foi um cometa de longo período brilhante que se tornou visível no Hemisfério Sul em dezembro de 1947. Foi o cometa mais luminoso observado em duas décadas e um dos mais brilhantes registrados desde 1935, com magnitude aparente máxima estimada em −3.[2]

O cometa passou pelo periélio em 2 de dezembro de 1947, a 0,11 UA do Sol, enquanto sua maior aproximação à Terra ocorreu em 7 de dezembro, a 0,85 UA.[3] Antes do periélio, o núcleo se dividiu em dois fragmentos, posteriormente catalogados pelo Laboratório de Propulsão a Jato como C/1947 X1-A e C/1947 X1-B.[4][5]

Por que não foi descoberto antes

Embora o cometa tenha aparecido de forma aparentemente súbita, sua trajetória orbital explica a dificuldade de detecção prévia. A partir do início de outubro de 1947, o objeto estava próximo à quadratura com o Sol em Ofiúco, com magnitude estimada em torno de 10 — potencialmente registrável por telescópios, embora improvável. Depois disso, acelerou rapidamente em direção ao Sol: em 27 de novembro passou da região vespertina para a matutina, e apenas cinco dias depois atingiu o periélio, a somente 6° do Sol no céu matutino. Naquele momento, sua magnitude era comparável à de Vênus. Três dias após o periélio, voltou a estar em conjunção com o Sol e passou para o céu noturno. O cometa completou 180° de longitude heliocêntrica em menos de oito dias, sendo duas vezes visto em conjunção com o Sol em menos de oito dias — circunstâncias que tornaram sua descoberta praticamente impossível antes do crepúsculo de 7 de dezembro.[3]

Descoberta

O cometa foi avistado no crepúsculo vespertino em 7 de dezembro de 1947, como objeto de pelo menos magnitude 0, podendo ter sido ainda mais brilhante.[6] A cabeça exibia cor laranja característica, e a cauda media entre 20° e 30° de comprimento. O cometa deslocava-se lentamente quase que diretamente para leste através de Sagitário.[6] Relatos indicam que foi avistado de forma independente por milhares de pessoas na Nova Zelândia, Austrália, África do Sul e América do Sul.[3]

Em Horsham, na Austrália, há o relato de que o cometa foi visto à luz do dia, cerca de uma hora antes do pôr do sol, com magnitude estimada em pelo menos −5 por Harold Pallot, professor de astronomia local.[7]

A primeira informação posicional sobre o cometa chegou por meio do navio Arbutus, em trânsito entre a Austrália e a Nova Zelândia, cujos tripulantes mediram o azimute e a altitude do objeto. O cálculo mostrou que o cometa estava cerca de 15° a leste e 12° ao sul do Sol, com magnitude possivelmente de −2. Essas informações foram telegrafadas ao Observatório do Colégio Harvard para distribuição internacional.[3]

Na noite da descoberta, John Paraskevopoulos, da Estação Boyden do Observatório Harvard em Bloemfontein, África do Sul, estimou que a cauda do cometa tinha ao menos 25° de comprimento.[8] Uma despacho da Associated Press de 17 de dezembro relatou que uma fotografia de Paraskevopoulos mostrava três caudas: duas com cerca de 20° de comprimento cada e uma terceira de 4° a 5°.[3]

Devido ao aparecimento simultâneo e independente por inúmeros observadores, nenhum nome individual foi atribuído ao cometa, mantendo-se a designação 1947 n.[3]

Observações

Em 9 de dezembro, Paraskevopoulos estimou a magnitude do cometa em +1.[6] Em 10 de dezembro, Jorge Bobone, do Observatório Astronômico de Córdoba, em Córdoba, observou telescopicamente que o núcleo apresentava dois componentes separados por 6,3 segundos de arco.[8] Em 14 de dezembro, I. L. Thomsen, do Observatório Carter em Wellington, registrou a cauda com 20° de comprimento, descrevendo que, após a cabeça ter se posto, a cauda estendia-se no céu como um raio auroral fraco.[3] Em 11 de dezembro, o cometa atingiu sua máxima declinação sul, −35°.[8]

Em meados de dezembro, a magnitude era estimada entre 3 e 5; a cauda exibia três componentes e aspecto fragmentado, com cerca de 1,5° de comprimento. Os dois núcleos distavam cerca de 10 segundos de arco entre si, conforme observado por Willem Hendrik van den Bos.[8] Em 20 de dezembro, a magnitude caiu para entre 4 e 5, com a cauda muito curta.[6]

O cometa foi visto a olho nu pela última vez em 25 de dezembro de 1947.[6] Ao final do mês, sua magnitude estava em torno de 8, e os dois núcleos distavam cerca de 17 segundos de arco em uma placa fotográfica de 31 de dezembro. A última detecção foi realizada em 20 de janeiro de 1948 por George Van Biesbroeck.[8]

Fragmentação do núcleo

Uma das características mais notáveis do Cometa Austral de 1947 foi a divisão de seu núcleo em dois fragmentos, presumivelmente durante sua passagem pelo periélio.[3] Zdenek Sekanina, com base na análise dos movimentos relativos dos fragmentos, estimou que a separação ocorreu em 30 de novembro de 1947, cerca de dois dias antes do periélio.[9]

Willem Hendrik van den Bos, do Observatório da União em Joanesburgo, percebeu a duplicidade do núcleo na noite seguinte à descoberta e o mediu como uma estrela dupla em todas as oportunidades subsequentes. A separação cresceu de 6" em 10 de dezembro para 12,5" em 20 de dezembro, enquanto o ângulo de posição variou de 192° para 130°. A separação aparente em 10 de dezembro correspondia a uma distância real de cerca de 4 000 km — da mesma ordem de grandeza do diâmetro terrestre.[3]

A evolução do brilho relativo dos dois fragmentos foi notável: em 10 de dezembro, van den Bos estimou suas magnitudes em 4,5 e 8,5; em 14 de dezembro, 6,0 e 8,5; em 15 de dezembro, os dois núcleos apresentavam brilho idêntico; em 20 de dezembro, as magnitudes eram 9,0 e 10,5; em 26 de dezembro, o Dr. Balfour S. Whitney, da Universidade de Oklahoma, voltou a encontrá-los com brilho quase igual.[3]

Espectroscopia

As únicas observações espectroscópicas relatadas foram obtidas por Blaauw, Jose, Page e Swings no Observatório McDonald, que registraram ao menos três espectrogramas em emulsão hipersensibilizada no infravermelho, além de outros cobrindo o intervalo de 3 800 a 6 700 ångströms. Os espectros revelaram a presença de ferro, níquel e grandes quantidades de amônia.[3] A detecção de amônia em um cometa não havia sido relatada anteriormente. A principal característica do espectro infravermelho — obtido pela primeira vez para um cometa — foi uma banda com máximo acentuado em 7 908 Å, possivelmente uma banda de rotação-vibração da amônia, conforme sugerido por Swings.[3]

Órbita

O Cometa Austral de 1947 é um cometa de longo período com excentricidade orbital de 0,99963, indicando uma órbita quase parabólica.[5] Os elementos orbitais bariocêntricos do fragmento B indicam semi-eixo maior de aproximadamente 300 UA, afélio em torno de 590 UA e período orbital estimado em cerca de 5 100 anos.[10] A inclinação orbital de aproximadamente 139° indica uma órbita retrógrada, ou seja, o cometa orbita o Sol em sentido oposto ao dos planetas.[5]

Ver também

Referências

  1. ↑ «Comet Names and Designations». International Comet Quarterly. Consultado em 17 de janeiro de 2026
  2. ↑ «Brightest comets seen since 1935». International Comet Quarterly. Consultado em 17 de janeiro de 2026
  3. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 Cunningham, L. E. (1948). «The Bright Southern Comet, 1947 n». Publications of the Astronomical Society of the Pacific. 60 (352): 27–36. Bibcode:1948PASP...60...27C. ISSN 0004-6280. JSTOR 40672080. doi:10.1086/125997. Consultado em 17 de janeiro de 2026
  4. ↑ «C/1947 X1-A (Southern comet) – JPL Small-Body Database Lookup». Laboratório de Propulsão a Jato. Consultado em 17 de janeiro de 2026
  5. 1 2 3 «C/1947 X1-B (Southern comet) – JPL Small-Body Database Lookup». Laboratório de Propulsão a Jato. Consultado em 17 de janeiro de 2026
  6. 1 2 3 4 5 Bortle, J. E. (1998). «The Bright Comet Chronicles». International Comet Quarterly. Consultado em 17 de janeiro de 2026
  7. ↑ Seargent, D. A. J. (2009). The Greatest Comets in History. Broom Stars and Celestial Scimitars. Col: Astronomers' Universe. [S.l.]: Springer. pp. 236–237. ISBN 978-0-387-09513-4. doi:10.1007/978-0-387-09513-4
  8. 1 2 3 4 5 Kronk, G. W. (2009). Cometography: A Catalog of Comets. 4: 1933–1959. [S.l.]: Cambridge University Press. pp. 276–281. ISBN 978-0-521-58507-1
  9. ↑ Sekanina, Z. (1978). «Relative motions of fragments of the split comets». Icarus. 33 (1): 173–185. doi:10.1016/0019-1035(78)90031-3
  10. ↑ Fernández, J. A.; Sosa, A. (2012). «Magnitude and size distribution of long-period comets in Earth-crossing or approaching orbits». Monthly Notices of the Royal Astronomical Society. 423 (2): 1674–1690. arXiv:1204.2285Acessível livremente. doi:10.1111/j.1365-2966.2012.20989.x. Consultado em 17 de janeiro de 2026

Ligações externas