Coprostano

O coprostano, também amplamente conhecido na nomenclatura química como 5β-colestano, é um hidrocarboneto saturado tetracíclico que pertence à classe dos esteranos, servindo como um dos principais biomarcadores geoquímicos e indicadores ambientais de contaminação fecal humana e animal em ecossistemas aquáticos e terrestres. A sua estrutura molecular deriva do colesterol através de um processo de redução microbiana mediado por bactérias anaeróbias presentes no trato gastrointestinal de mamíferos, onde a dupla ligação entre os carbonos 5 e 6 do precursor é saturada, resultando numa configuração espacial específica onde os anéis A e B da estrutura esteroide apresentam uma junção do tipo cis. Esta geometria «dobrada» distingue fundamentalmente o coprostano do seu isómero, o colestano (5α-colestano), que possui uma junção de anéis trans e uma estrutura planar, sendo esta diferença conformacional a base para a sua identificação analítica precisa através de técnicas de cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massa (GC-MS).[1][2][3][4][5][6]

A importância do coprostano como traçador ambiental reside na sua estabilidade química excecional e na sua persistência em sedimentos anóxicos, o que permite aos investigadores reconstruir históricos de poluição fecal e densidade populacional em escalas de tempo que podem abranger décadas ou mesmo milénios. Uma vez que o colesterol é convertido em coprostanol pelos micróbios intestinais e este, por sua vez, pode ser reduzido a coprostano em ambientes sedimentares sob condições redutoras, a presença deste composto em amostras geológicas funciona como uma «assinatura digital» da atividade biológica antropogénica. Em estudos paleolinfocitemia e arqueologia ambiental, a análise de rácios entre o coprostano e outros esteróis de origem vegetal ou marinha é frequentemente utilizada para distinguir entre descargas de esgotos domésticos e a presença natural de fauna selvagem, fornecendo dados cruciais para a gestão de recursos hídricos e para a compreensão do impacto humano em bacias hidrográficas ao longo da história.

Do ponto de vista da síntese química e degradação, o coprostano é um composto altamente hidrofóbico, apresentando uma afinidade muito elevada para a matéria orgânica particulada, o que facilita a sua deposição e acumulação no leito de rios, estuários e zonas costeiras. O estudo da sua degradação biológica indica que, embora seja resistente a muitos processos oxidativos comuns, certas estirpes bacterianas em ambientes aeróbios podem iniciar a sua decomposição, embora a taxas significativamente mais lentas do que as de hidrocarbonetos lineares. Além da sua aplicação na monitorização ambiental, o coprostano é fundamental na química orgânica teórica para o estudo da estereoquímica de esteroides complexos, servindo como modelo para compreender as tensões anulares e as interações espaciais em sistemas policíclicos fundidos, mantendo-se como um pilar essencial tanto na geoquímica orgânica contemporânea quanto na análise forense de contaminação por efluentes.

Referências

  1. ↑ Froehner, Sandro; Sánez, Juan (2013). «Evaluation of potential sewage contamination by fecal sterol biomarkers adsorbed in natural biofilms». Environmental Science: Processes & Impacts. 15 (11). 2080 páginas. ISSN 2050-7887. doi:10.1039/c3em00025g
  2. ↑ Ricking, M.; Schwarzbauer, J.; Franke, S. (junho de 2003). «Molecular markers of anthropogenic activity in sediments of the Havel and Spree Rivers (Germany)». Water Research (em inglês). 37 (11): 2607–2617. doi:10.1016/S0043-1354(03)00078-2
  3. ↑ Leeming, R.; Ball, A.; Ashbolt, N.; Nichols, P. (dezembro de 1996). «Using faecal sterols from humans and animals to distinguish faecal pollution in receiving waters». Water Research (em inglês). 30 (12): 2893–2900. doi:10.1016/S0043-1354(96)00011-5
  4. ↑ Venkatesan, M. I.; Santiago, C. A. (1989). «Sterols in ocean sediments: novel tracers to examine habitats of cetaceans, pinnipeds, penguins and humans». Marine Biology (em inglês). 102 (4): 431–437. ISSN 0025-3162. doi:10.1007/BF00438343
  5. ↑ Kenny, Douglas J.; Plichta, Damian R.; Shungin, Dmitry; Koppel, Nitzan; Hall, A. Brantley; Fu, Beverly; Vasan, Ramachandran S.; Shaw, Stanley Y.; Vlamakis, Hera; Balskus, Emily P.; Xavier, Ramnik J. (agosto de 2020). «Cholesterol Metabolism by Uncultured Human Gut Bacteria Influences Host Cholesterol Level». Cell Host & Microbe (em inglês). 28 (2): 245–257.e6. PMC 7435688Acessível livremente. PMID 32544460. doi:10.1016/j.chom.2020.05.013
  6. ↑ Jardé, Emilie; Gruau, Gérard; Mansuy-Huault, Laurence (agosto de 2007). «Detection of manure-derived organic compounds in rivers draining agricultural areas of intensive manure spreading». Applied Geochemistry (em inglês). 22 (8): 1814–1824. doi:10.1016/j.apgeochem.2007.03.037