Exilarca
Exilarca (em hebraico: רֵישׁ גָּלוּתָא; romaniz.: rêsh galutā) é o título dado ao chefe dos judeus da Babilônia, que, desde a época do Exílio Babilônico, eram designados pelo termo golá ou galute (Jer. xxix, 22). O chefe da golá, ou príncipe dos exilados, ocupava uma posição honorífica que, reconhecida pelo Estado, implicava determinadas prerrogativas bem definidas, e era hereditária numa família que traçava sua descendência à casa real davídica. A origem dessa dignidade não é conhecida. Os primeiros documentos históricos que a mencionam datam do período em que a Babilônia fazia parte do Império Aquemênida, e ela foi preservada de modo ininterrupto durante o Império Arsácida e o Império Sassânida, bem como por vários séculos sob o governo árabe.[1]
História
Origens
De acordo com Seder Olam Zutta, o primeiro exilarca foi Jeconias (r. 598–597 a.C.), o penúltimo rei do Reino de Judá, a quem os exilarcas consideravam seu antepassado. A promoção do rei cativo na corte de Evil-Merodaque foi aparentemente considerada pelo autor do Seder ‘Olam Zuṭa como a origem do exilarcado. Apesar de não existir uma árvore genealógica autêntica da família dos exilarcas, existem evidências dessa ligação na lista incluindo gerações dos descendentes de Jeconias que consta em I Crônicas 3:17 e seguintes. Um comentário a Crônicas, oriundo da escola de Saadia, cita Judá ibne Curaixe no sentido de que a lista genealógica dos descendentes de Davi foi acrescentada ao livro no fim do período do Segundo Templo — opinião compartilhada pelo autor da lista de exilarcas no Seder ‘Olam Zuṭa. Essa lista foi sincronizada com a história do Segundo Templo, sendo mencionado que Secanias viveu na época da destruição do Templo. Os seguintes são enumerados como seus predecessores no cargo: Salatiel, Zorobabel, Mesulão, Hananias, Berequias, Hasadias, Jesaías, Obadias e Semaías, todos nomes que também aparecem em I Crônicas 3. Os nomes dos dois exilarcas pré-históricos seguintes, Ezequias e Acube, também aparecem no final da lista davídica em Crônicas. Em seguida vem Naum, com quem provavelmente começa a parte autêntica da lista e que talvez possa ser situado na época da perseguição do imperador Adriano (135), período em que surgem as primeiras alusões na literatura tradicional à existência da dignidade exilarcal.[1]
No relato referente à tentativa de um mestre palestino da Lei, Hananias, sobrinho de Josué ben Hananias, de tornar os judeus babilônicos independentes das autoridades palestinas, menciona-se um certo Aías como chefe temporal daqueles — provavelmente como exilarca —, enquanto outra fonte substitui o nome “Neuniom” por “Aías”. Não é improvável que essa pessoa seja o Naum mencionado na lista. O perigo que ameaçava a autoridade palestina foi evitado e, por volta da mesma época, Natã, membro da casa dos exilarcas, foi à Palestina e, graças à sua erudição, logo passou a figurar entre os principais tanaítas do período pós-adriânico. Sua origem davídica sugeriu a R. Meir o plano de tornar o sábio babilônico "nassi" (príncipe) no lugar do hilélita (descendente de Hilel, o Ancião) Simeão ben Gamaliel II. A conspiração, contudo, fracassou. Posteriormente, Natã esteve entre os confidentes da casa patriarcal e manteve relações estreitas com Judá I, filho de Simão ben Gamaliel. A tentativa de R. Meir, porém, parece ter levado Judá I a temer que o exilarca babilônico viesse à Palestina reivindicar o cargo do descendente de Hilel. Ele discutiu o assunto com o sábio babilônico Hia, membro destacado de sua escola, dizendo que prestaria a devida honra ao exilarca caso este viesse, mas que não renunciaria ao cargo de príncipe em seu favor. Diz-se que quando o corpo do exilarca Huna I — o primeiro ocupante desse cargo explicitamente mencionado como tal na literatura talmúdica — foi levado à Palestina no tempo de Judá I, Hia provocou profundo desagrado em Judá ao anunciar-lhe o fato com as palavras: "Huna está aqui". Uma exposição tanaítica de Gênesis 49:10, que contrapõe os exilarcas babilônicos, que governam pela força, aos descendentes de Hilel, que ensinam em público, pretende lançar uma crítica sobre os primeiros.[2]
Referências
- 1 2 Gottheil & Bacher 1906, p. 288.
- ↑ Gottheil & Bacher 1906, p. 288-289.
Bibliografia
- Gottheil, Richard; Bacher, Wilhelm (1906). «Exilarch». Jewish Encyclopedia. Nova Iorque: Funk & Wagnalls