Grande Cometa de 371 a.C.
| Data | 372–371 a.C. |
|---|---|
| Outros nomes | Cometa de Aristóteles |
| Informações orbitais | |
| Inclinação (i) | ~150° (estimativa de Pingré, 1783; órbita retrógrada) |
| Último periélio | 372–371 a.C. |
| Propriedades físicas | |
| Dimensões | ≥120 km (estimativa do núcleo original) |
O Grande Cometa de 371 a.C. (também chamado Cometa de Aristóteles) foi um cometa observado na Grécia Antiga entre 372 e 371 a.C., durante o arcontado de Asteius em Atenas. Foi descrito por Aristóteles — que tinha aproximadamente 12 anos na época —, Éforo, Calístenes e, posteriormente, por Diodoro Sículo e Sêneca., por Diodoro Sículo e Sêneca.[1] Segundo as fontes antigas, projetava sombras noturnas comparáveis às da Lua cheia, exibia uma cauda longa e avermelhada e um núcleo mais brilhante do que qualquer estrela no céu.[2]
O cometa é considerado por muitos pesquisadores como o possível progenitor da família de cometas rasantes solares conhecida como grupo de Kreutz.[3] Se confirmada essa hipótese, seu núcleo original teria tido ao menos 120 km de diâmetro.[2] Não foram encontrados registros independentes do cometa em crônicas chinesas, babilônicas ou de outras civilizações fora da Grécia Antiga.[4]
Contexto histórico
O cometa apareceu num período de grande turbulência no mundo grego. Sua observação coincidiu com o terremoto que destruiu as cidades aquéias de Helike e Bura, tragadas pelo mar em 373 a.C., evento registrado por Pausânias e Plínio, o Velho.[5] Pouco depois, em 371 a.C., os espartanos sofreram derrota decisiva na Batalha de Leuctra, perdendo a hegemonia sobre a Grécia após quase quinhentos anos. Plínio, o Velho, em sua Naturalis Historia, associou explicitamente o cometa à ruína do poderio espartano, interpretando-o como presságio divino.[6]
Fontes antigas
Aristóteles
Aristóteles descreveu o cometa no Livro I de sua obra Meteorologica, situando sua aparição no arcontado de Asteius e associando-a ao terremoto na Acaia. Segundo ele, o cometa surgiu no ocidente durante um inverno rigoroso e claro, exibindo uma cauda tão extensa que cobria um terço do céu — denominada pelos observadores como uma "via" ou "caminho" — e subia até a altura do cinturão de Órion, onde desaparecia.[7]
Aristóteles interpretou o fenômeno não como um corpo celeste independente, mas como uma exalação seca e quente da Terra, inflamada nas camadas superiores da atmosfera — teoria que prevaleceu na filosofia natural por quase dois milênios.[7]
Éforo de Cime
Éforo relatou, em obra hoje perdida e citada por fontes posteriores, que o cometa se dividiu em dois fragmentos. Esse relato é uma das primeiras descrições históricas de fragmentação cometária.[8] A divisão teria produzido um fragmento maior e um menor, sendo o maior candidato ao retorno em 1106 d.C. como X/1106 C1.[1]
Calístenes
Calístenes, sobrinho de Aristóteles, registrou que o núcleo do cometa era mais brilhante do que qualquer estrela no céu noturno e que sua cauda apresentava coloração avermelhada — uma das primeiras descrições de cor cometária na literatura ocidental.[2]
Diodoro Sículo
Diodoro Sículo, citando uma fonte perdida, descreveu o cometa como uma "grande tocha flamejante" visível durante muitas noites seguidas, com brilho suficiente para projetar sombras sobre a Terra comparáveis às da lua cheia. Registrou também o debate entre os filósofos naturais da época sobre a origem do fenômeno, mencionando que os caldeus afirmavam ser capazes de prever tais aparições com base em ciclos astronômicos precisos.[6] Pesquisadores modernos, como Sekanina e Kracht, levantaram a hipótese de que Diodoro pode ter deslocado deliberadamente a data do cometa para torná-la mais próxima da Batalha de Leuctra, servindo a propósitos narrativos e dramáticos.[9]
Sêneca
Sêneca, em Naturales Quaestiones (VII), citou a observação do cometa em relação à destruição de Helike e Bura, sugerindo uma data ligeiramente anterior (373–372 a.C.). Sêneca também questionou o relato de Éforo sobre a fragmentação, argumentando que ninguém mais havia testemunhado a divisão e que Éforo não nomeou os dois "astros" resultantes.[5]
Datação
A datação do cometa é disputada entre as fontes antigas e modernas. Aristóteles situa o fenômeno no arcontado de Asteius, que corresponde a 373–372 a.C. segundo o Mármore de Paros (Marmor Parium). Diodoro Sículo, por sua vez, fornece elementos que permitem datar o evento em 372–371 a.C. — o centésimo segundo Olimpíada, a partir da data convencional de 776 a.C. para os primeiros jogos olímpicos.[10]
O consenso moderno tende a adotar 372–371 a.C. como período mais provável de observação, embora referências utilizem simplesmente "371 a.C." ou "373 a.C." A divergência decorre da imprecisão na correspondência entre o calendário ático e o calendário juliano proléptico.[1]
Características observadas
As fontes antigas descrevem as seguintes características do cometa:
- Cauda extensa cobrindo cerca de um terço do céu, orientada no sentido oeste
- Coloração avermelhada da cauda
- Núcleo mais brilhante do que qualquer estrela visível
- Projeção de sombras noturnas de intensidade comparável à da Lua cheia
- Visibilidade durante muitas noites consecutivas
- Elevação máxima até a altura do Cinturão de Orion
- Possível fragmentação em dois pedaços (relatada por Éforo, questionada por Sêneca)
- Ausência de registros independentes em crônicas chinesas, babilônicas ou de outras civilizações[2][1][4]
Órbita estimada
Não existem dados orbitais calculados com precisão para este cometa, dado o caráter qualitativo das descrições antigas. O astrônomo francês Alexandre Guy Pingré foi o primeiro a tentar uma estimativa formal, propondo em 1783 uma inclinação orbital de aproximadamente 150°, compatível com uma órbita retrógrada.[1] John Cooper elaborou essa análise em 1852, refinando os parâmetros com base nas mesmas fontes textuais.[2]
Com base na hipótese de que seja o progenitor do grupo de Kreutz, modelos de Sekanina e Chodas sugerem que o cometa original era um cometa rasante solar de longo período com periélio muito próximo ao Sol, órbita retrógrada e inclinação elevada.[11]
Hipótese do cometa progenitor dos Kreutz
Proposta de Marsden
O astrônomo alemão Heinrich Carl Friedrich Kreutz foi o primeiro a propor, no século XIX, que um conjunto de cometas rasantes solares muito brilhantes compartilhava órbitas semelhantes, sugerindo uma origem comum. Brian Marsden formalizou essa hipótese em dois estudos publicados em 1967 e 1989 no The Astronomical Journal, nos quais propôs que o Grande Cometa de 371 a.C. poderia ser o progenitor de todo o grupo de Kreutz, incluindo X/1106 C1, C/1965 S1 (Ikeya-Seki) e C/1843 D1.[3][12]
Segundo esse modelo, o fragmento maior resultante da divisão relatada por Éforo teria retornado ao Sol em 1106 d.C. como X/1106 C1, sofrendo nova fragmentação e dando origem aos membros mais brilhantes do grupo observados nos séculos XIX e XX.[1]
Modelos de Sekanina e Chodas (2004–2007)
Zdeněk Sekanina e Paul Chodas desenvolveram entre 2004 e 2007 modelos matemáticos detalhados da evolução do grupo de Kreutz. Contudo, em seu trabalho de 2004, concluíram que **não há evidência orbital suficiente** para confirmar o Grande Cometa de 371 a.C. como progenitor do grupo, dado que as incertezas nas descrições antigas são grandes demais para determinar parâmetros orbitais confiáveis.[11][13]
Modelo de Sekanina e Kracht (2022)
Em 2022, Sekanina e Rainer Kracht reabriram a questão com um novo modelo baseado na hipótese de que o progenitor dos Kreutz era um **binário de contato** — dois núcleos em órbita mútua muito próxima. Nesse cenário, a separação dos dois corpos durante a passagem pelo periélio explicaria tanto o relato de Éforo sobre a fragmentação quanto a diversidade orbital observada nos membros modernos do grupo.[9] O modelo é compatível com uma estimativa de núcleo original de ao menos 120 km de diâmetro e com o retorno do fragmento maior em 1106 d.C.[2]
Controvérsias
A identificação do Grande Cometa de 371 a.C. como progenitor dos Kreutz não é universalmente aceita. A hipótese alternativa de Göran Henriksson propõe que o cometa observado por Aristóteles era na verdade o Cometa Encke, com base em correspondências entre os dados textuais e os elementos orbitais do Encke para o período. Essa identificação não recebeu ampla aceitação na comunidade astronômica.[10] A Agência Espacial Europeia reconhece a possibilidade do parentesco com os Kreutz, mas ressalva que as incertezas nas descrições antigas impedem uma confirmação definitiva.[14]
Ver também
- Cometas rasantes Kreutz — família de cometas rasantes solares possivelmente originada neste cometa
- X/1106 C1 — possível fragmento que retornou em 1106 d.C.
- C/1965 S1 (Ikeya-Seki) — membro brilhante do grupo de Kreutz
- Aristóteles — principal fonte antiga sobre o cometa
- Meteorologica — obra de Aristóteles que descreve o cometa
- Grande Cometa — lista de grandes cometas históricos
Referências
- 1 2 3 4 5 6 Seargent, David A. J. (2008). The Greatest Comets in History. [S.l.]: Springer Science & Business Media. pp. cap. "The Great Comet of (ca.) 372 B.C., Aristotle's Comet". ISBN 9780387095134
- 1 2 3 4 5 6 England, K. J. (2002). «Early Sungrazer Comets» (PDF). Journal of the British Astronomical Association. 112. 13 páginas. Bibcode:2002JBAA..112...13E. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- 1 2 Marsden, B. G. (1967). «The Sungrazing Comet Group». The Astronomical Journal. 72. 1170 páginas. Bibcode:1967AJ.....72.1170M. doi:10.1086/110396
- 1 2 Williams, John (1871). Observations of Comets: From 611 B.C. to A.D. 1640: Extracted from the Chinese Annals. [S.l.]: Royal Astronomical Society. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- 1 2 Sêneca, Lúcio Aneu. «5.4 e 16». Naturales Quaestiones. VII. c. 65 d.C. [S.l.: s.n.]
- 1 2 Diodoro Sículo. «Bibliotheca historica, Livro XV, cap. 48–50». Penelope – University of Chicago. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- 1 2 Aristóteles. «343b, 344b, 368b». Meteorologica. I. [S.l.: s.n.]
- ↑ Yeomans, Donald K. (1998). «Great Comets in History». Jet Propulsion Laboratory. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- 1 2 Sekanina, Z.; Kracht, R. (2022). «Great Comet of 371 BC: Progenitor of the Kreutz Sungrazer System». arXiv. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- 1 2 Henriksson, Göran (2020). «Aristotle, King David, King Zhou and Pharaoh Thutmosis III Have Seen Comet Encke» (PDF). Mediterranean Archaeology and Archaeometry. 20 (1). ISSN 2241-8121. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- 1 2 Sekanina, Z.; Chodas, P. W. (2004). «Fragmentation Hierarchy of Bright Sungrazing Comets and the Birth and Orbital Evolution of the Kreutz System». The Astrophysical Journal. 607: 620–639. Bibcode:2004ApJ...607..620S. doi:10.1086/383466
- ↑ Marsden, B. G. (1989). «The Sungrazing Comet Group II». The Astronomical Journal. 98. 2306 páginas. Bibcode:1989AJ.....98.2306M. doi:10.1086/115301
- ↑ Sekanina, Z.; Chodas, P. W. (2007). «Theory of Sungrazing Comets». The Astrophysical Journal. 663: 657–676. Bibcode:2007ApJ...663..657S. doi:10.1086/517490
- ↑ «Sungrazer comets». European Space Agency. Consultado em 17 de janeiro de 2026