Livraria Lello

Livraria Lello
Fachada da Livraria Lello, após o restauro de 2016
Informações gerais
Nomes anteriores
  • Livraria Chardron
  • Livraria Lello & Irmão
Estilo dominanteNeogótico
Arquiteto(a)Francisco Xavier Esteves
EngenheiroFrancisco Xavier Esteves
Inauguração13 de janeiro 1906
Restauro1995, 2016, 2017
Proprietário inicialJosé Lello e António Lello
Proprietário atualPedro Pinto e Aurora Pedro Pinto
Função atualLivraria
Visitantes1,2 milhões (2019)
Websitelivrarialello.pt
Património de Portugal
Classificação Monumento Nacional
Ano2026
DGPC72272
SIPA3972
Geografia
PaísPortugal Portugal
CidadePorto
Coordenadas🌍
Livraria Lello está localizado em: Porto
Livraria Lello
Geolocalização no mapa: Porto

A Livraria Lello (antes Livraria Chardron, 1869-1919) é uma livraria e editora portuguesa, cuja sede situa-se no número 144 da Rua das Carmelitas, no Centro Histórico da cidade do Porto. Classificada inicialmente como Monumento de Interesse Público e reclassificada em 2026 como Monumento Nacional[1], a Livraria Lello preserva a beleza original do seu edifício.

A fachada neogótica, a icónica escadaria vermelha, o emblemático vitral e as estantes repletas de livros das mais diversas épocas e em diferentes idiomas têm atraído milhares de visitantes[2].  

Sendo uma das mais antigas livrarias portuguesas, e em virtude do seu ímpar valor histórico e artístico, a Livraria Lello tem sido reconhecida como uma das mais bonitas livrarias do mundo por diversas personalidades e entidades, casos como o do escritor espanhol Enrique Vila-Matas, do jornal britânico The Guardian[3] , da estação televisiva CNN[4], e da editora australiana de guias de viagens Lonely Planet[5]. A revista Travel + Leisure colocou, ainda, a Livraria Lello no topo da lista das livrarias mais “cool” do mundo, em 2015.[6]

História

A empresa remonta à fundação da "Livraria Internacional de Ernesto Chardron", em 1869, na Rua dos Clérigos, n.º 96-98, no Porto. Antigo empregado da Livraria Moré, o cidadão francês Ernesto Chardron alcançou projeção como editor, sendo o primeiro a publicar grande parte das obras de Camilo Castelo Branco e outras de relevo na época, como o Tesouro da Literatura Portuguesa, de Frei Domingos Vieira. Após o falecimento do fundador, aos 45 anos de idade, a casa-editora foi vendida à firma "Lugan & Genelioux, Sucessores" que, pouco depois, ficou com Mathieux Lugan como seu único proprietário. Em 1891, a Livraria Chardron adquiriu os fundos de três casas livreiras do Porto, pertencentes a A. R. da Cruz Coutinho, Francisco Gomes da Fonseca e Paulo Podestá.[7]

Vitral com ex libris e divisa da livraria Decus in Labore (dedicação ao trabalho)[8]

Entretanto, em 1881, José Pinto de Sousa Lello abriu um estabelecimento, nos números 18-20 da Rua do Almada, dedicando-se ao comércio e edição de livros. A 30 de junho de 1894, Mathieux Lugan vendeu a antiga Livraria Chardron a José Pinto de Sousa Lello que, associado ao seu irmão António Lello, manteve a Chardron com a razão social de "Sociedade José Pinto Sousa Lello & Irmão". Em 1898, entrou para a nova sociedade o fundo bibliográfico da Livraria Lemos & C.ª, fundada pelos irmãos Maximiliano e Manuel de Lemos.[7]

Com projeto do engenheiro Francisco Xavier Esteves, no dia 13 de janeiro de 1906, inaugurou-se o novo edifício da Livraria Lello, no número 144 da Rua das Carmelitas, causando grande impacto no meio cultural da época. De entre as diversas figuras presentes na inauguração, encontrava-se Guerra Junqueiro, Abel Botelho, João Grave, Bento Carqueja, Aurélio da Paz dos Reis, José Leite de Vasconcelos e Afonso Costa.[9]

A 24 de maio de 1919, a razão social do estabelecimento foi alterada para "Livraria Lello e Irmão, Lda.", entrando para a sociedade Raul Reis Lello, filho de António Lello. Em 1924, entraram José Pinto da Silva Lello e Edgar Pinto da Silva Lello. Em 1930, foi a vez de José Pereira da Costa, genro de António Lello, entrar também para a sociedade, simplificando-se então o nome para "Livraria Lello". Cinco anos mais tarde, José da Costa afastou-se, recuperando-se a designação "Lello & Irmão". Raul Reis Lello faleceu em 1949 e António Lello em 1953. À frente da livraria, seguiram-se José Pinto da Silva Lello, falecido em 1971, e Edgar Pinto da Silva Lello, que faleceu em 1989.[7] A partir de 1995, o estabelecimento voltou a designar-se simplesmente "Livraria Lello".

Com o objetivo de se adaptar aos tempos presentes, em 1995, o serviço foi atualizado e informatizado, o interior da livraria foi restaurado, tendo também sido criado um espaço de galeria de arte e de tertúlia que se afirmou como um importante polo cultural da cidade do Porto.[10]

Em 2014 o casal Avelino e Aurora Pedro Pinto, donos do Grupo Lionesa, adquiram 51% do capital social, tendo em 2023 adquirido a totalidade do capital da Livraria Lello.[11][12]

A partir de 23 julho de 2015, a entrada na livraria passou a estar sujeita a um pagamento inicial, descontado na compra de um livro.[13] O pagamento deste valor destinou-se a conter o número elevado de turistas e também a custear obras de conservação e restauro.[14] Em consequência da aplicação desta taxa, em apenas três meses, as vendas da Lello triplicaram.[15]

Em 30 de julho de 2016, foi concluída a primeira fase do restauro que incluiu a fachada, o telhado e o vitral interior. A vidraça de oito metros de comprimento por 3,5 metros de largura, composta por 55 painéis de vidro e da autoria do arquiteto holandês Gerardus Samuel van Krieken, foi desmontada pela primeira vez desde a sua existência. Foi alvo de limpeza, restauro e correção de danos, oferecendo agora uma luminosidade há muito esquecida.

Em 2016, a livraria foi visitada por mais de um milhão de pessoas, o que perfaz uma média de quase três mil visitas diárias. Dos visitantes 40% foram espanhóis, 15,9% franceses, 15,2% portugueses. Seguem-se os brasileiros (6,6%), os alemães (4,6%) e os norte-americanos (3,1%).[16]

Em Novembro de 2022, a Livraria Lello adquiriu um conjunto de 42 cartas escritas por Bob Dylan na década de 1950, por mais de 500 mil euros, num leilão em Nova Iorque.[17]

Em 2024, anuncia a criação da Fundação Livraria Lello, com apresentação no seu 118º aniversário, a 13 de janeiro.[18]

Características

Interior da Livraria com decoração neogótica e vitrais

Concebido segundo projeto do engenheiro Xavier Esteves, a Livraria Lello é um dos mais emblemáticos edifícios do neogótico portuense, destacando-se fortemente na paisagem urbana envolvente. Trata-se de um conjunto em que a arquitetura e os elementos decorativos deixam transparecer o estilo dominante no início de século XX.

A fachada apresenta um arco abatido de grandes dimensões, com entrada central e duas montras laterais. Acima, três janelas rectangulares ladeadas por duas figuras pintadas pelo belga Joseph Bielmann, representando a "Arte" e a "Ciência". Uma platibanda rendilhada remata as janelas, terminando a fachada em três pilastras encimadas por coruchéus, com vãos de arcaria de gosto neogótico. A decoração é complementada por motivos vegetais, formas geométricas e a designação "Lello e Irmão", sob as janelas.

No interior, os arcos quebrados apoiam-se nos pilares em que, sob baldaquinos rendilhados, o escultor Romão Júnior esculpiu os bustos dos escritores Antero de Quental, Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Teófilo Braga, Tomás Ribeiro e Guerra Junqueiro.

Os tetos trabalhados, o grande vitral da claraboia da autoria do artista holandês Van Krieken, que ostenta o monograma e a divisa da livraria "Decus in Labore" (Dignidade no trabalho) e a escadaria de grandes dimensões de acesso ao primeiro piso são as marcas mais significativas da livraria.[10]

Durante anos, as escadarias da Lello também foram consideradas localmente a suposta inspiração da livraria onde Harry Potter conheceu Gilderoy Lockhart no livro Harry Potter e a Câmara dos Segredos, já que J. K. Rowling chegou a morar na cidade do Porto. No entanto, em maio de 2020, J. K. Rowling negou esta alegada inspiração, afirmando que nunca entrou na livraria.[19]

Reconhecimento

O caráter único do edifício tem vindo a ser reconhecido por diversas personalidades e entidades:

  • O escritor espanhol Enrique Vila-Matas descreveu-a como "A mais bonita livraria do mundo".[20]
  • O jornal inglês The Guardian, em 2008, considerou-a a terceira mais bela do mundo.[21]
  • A editora australiana de guias de viagens Lonely Planet, no seu guia Lonely Planet's Best in Travel 2011, considerou-a como a terceira melhor livraria do mundo, sendo descrita como "uma pérola de arte nova", destacando as "prateleiras neo-góticas" e a "escadaria vermelha em espiral" semelhante a "uma flor exótica".[22]
  • A revista Travel + Leisure, em janeiro de 2015, colocou a Lello, no Porto, no topo da lista das quinze livrarias mundiais mais cool, referindo que o átrio coloca o enfoque na escadaria encarnada, "espetacular o suficiente para te fazer parar".[23]
  • A Revista «Time» considerou a livraria uma das quinze livrarias mais interessantes do mundo, salientando o valor histórico e artístico da livraria portuguesa.[24]
  • A CNN, em 2014, considerou-a a livraria mais bonita do mundo.[25]
  • Em 2016, o então ministro da Cultura, João Soares, disse no Porto que a Cultura pode ser motor de desenvolvimento e afirmação no plano comercial para Portugal e apontou a histórica Livraria Lello como bom exemplo.[26]
  • Em 2023, a plataforma 1000 Libraries organizou uma votação na qual a Livraria Lello foi a vencedora na categoria ‘A Livraria Mais Bonita do Mundo’.[27]

Ver também

Referências

  1. ↑ «Governo aprova decreto que reclassifica Livraria Lello no Porto como Monumento Nacional». Porto Canal. 30 de janeiro de 2026. Consultado em 31 de janeiro de 2026
  2. ↑ «Livraria Lello bateu mais um recorde de vendas e visitas em julho». Espalha-Factos. 4 de agosto de 2018
  3. ↑ Staff, Guardian (11 de janeiro de 2008). «The world's 10 best bookshops». the Guardian (em inglês)
  4. ↑ CNN, By Frances Cha. «Bookmark this! World's best bookstores». CNN (em inglês)
  5. ↑ «The world's greatest bookshops». Lonely Planet (em inglês)
  6. ↑ Kavita Mokha (6 de janeiro de 2015). «World's Coolest Bookstores». Travel + Leisure (em inglês)
  7. 1 2 3 «Livraria Lello - Porto XXI». Portoxxi.com
  8. ↑ «Livraria Lello em vias de ser classificada como monumento nacional». TSF Rádio Notícias. 5 de janeiro de 2022
  9. ↑ «Lello & Irmão - uma livraria deslumbrante». Cidadesurpreendente.blogspot.com
  10. 1 2 «Livraria Lello». Direção-Geral do Património Cultural. Consultado em 29 de maio de 2017
  11. ↑ «Após 142 anos, família Lello perde controlo da "mais bela livraria do mundo"». Porto Canal. 8 de setembro de 2023. Consultado em 30 de janeiro de 2025
  12. ↑ Santos, Daniela (21 de setembro de 2023). «O fim de uma era: a Livraria Lello vai deixar de pertencer à família». New in Porto. Consultado em 30 de janeiro de 2025
  13. ↑ ««Livraria Lello cobra 3 euros por entrada» - Jornal de Notícias». Arquivado do original em 15 de julho de 2015
  14. ↑ «Exponenciar». horasextraordinarias.blogs.sapo.pt. Consultado em 18 de dezembro de 2025
  15. ↑ «Apesar do preço de entrada Livraria Lello triplicou as vendas». Notícias ao Minuto. 23 de outubro de 2015. Consultado em 18 de dezembro de 2025
  16. ↑ «Quase metade dos visitantes da Livraria Lello são espanhóis»
  17. ↑ «Livraria Lello comprou em leilão as cartas de amor do jovem Bob Dylan por meio milhão de euros»
  18. ↑ «Livraria Lello celebra 118 anos anunciando a criação de uma Fundação e novos escritórios em edifício histórico». Livraria Lello. Consultado em 18 de dezembro de 2024
  19. ↑ Rita Cipriano (21 de maio de 2020). «Afinal, a Lello não inspirou Harry Potter. J.K. Rowling diz que nunca entrou na livraria». Observador
  20. ↑ «Lello (Portugal), sobredosis de belleza». Literaturas.com
  21. ↑ «Best bookshops». The Guardian. 11 de janeiro de 2008. Consultado em 5 de novembro de 2013
  22. ↑ Sérgio C. Andrade (17 de novembro de 2010). «Lonely Planet classifica a Lello a terceira melhor livraria do mundo». Jornal Público online. Consultado em 17 de novembro de 2010. Arquivado do original em 19 de novembro de 2010
  23. ↑ «Lello no topo das livrarias mais estilosas do mundo»
  24. ↑ «Livraria Lello é uma das mais interessantes do Mundo»
  25. ↑ «World's coolest bookstores»
  26. ↑ «Soares defende que Livraria Lello é exemplo da Cultura como "motor" de desenvolvimento»
  27. ↑ Sofia (2023). «É portuguesa e a mais bonita do mundo! Adivinha o que é?». Casa Yes. Consultado em 13 de setembro de 2023

Ligações externas