Lucas Notaras
Lucas Notaras (em grego: Λουκᾶς Νοταρᾶς; Monemvasia, 5 de abril de 1402 – Constantinopla, 3 de junho de 1453) foi um estadista bizantino que serviu como último grão-duque (comandante-em-chefe da Marinha Bizantina) e o último mesazonte do Império Bizantino nos reinados de João VIII Paleólogo e Constantino XI Paleólogo.
Biografia
Lucas Notaras descendia de uma família grega originária da Monemvasia; seu ancestral mais antigo que pode ser identificado nas fontes sobreviventes foi um tal de sebasto Paulo, que conquistou a ilha de Citera dos venezianos para o imperador Miguel VIII Paleólogo em 1270. Outros membros dos Notaras podem ser identificados nas décadas seguintes. Em meados do século XIV, um ramo dos Notaras transferiu-se para Constantinopla, onde ascenderam politicamente e socialmente com o apoio de Andrônico IV Paleólogo, que se rebelou contra seu pai — João V Paleólogo —, e depois da morte de Andrônico, por apoiarem seu filho — João VII Paleólogo.
O pai de Lucas Notaras, Nicolau Notaras, era um mercador rico em Gálata, que serviu como enviado do imperador Manuel II Paleólogo na Itália, na França e na Inglaterra; ele tinha cidadania genovesa e veneziana.[1] Sua mãe chamava-se Euprepeia; pouco se sabe sobre ela, exceto que morreu antes de 1412, e foi enterrada no Mosteiro de Xantópulo, em Constantinopla.[2] Lucas tinha ao menos um irmão, João, que serviu como epi tes trapezes e foi capturado por uma escaramuça durante o Cerco de Constantinopla de 1411 e decapitado. Nicolau recuperou a cabeça de seu filho e a enterrou com seus restos mortais num funeral público.[3][4]
Em 1424, Notaras foi um dos três emissários — junto com Manuel Melacreno e Jorge Frantzes — que negociaram um tratado de amizade entre o imperador João VII Paleólogo e o sultão Murade II dos turcos otomanos, ao final do Interregno otomano.[5] Foi oficial imperial, como atestado pela sua presença no casamento do futuro imperador Constantino XI Paleólogo com Catarina Gattilusio, em 27 de julho de 1441.[6]
A célebre frase “Prefiro ver um turbante turco no meio da cidade [Constantinopla] que uma mitra latina” (em grego: κρειττότερον ἐστὶν εἰδέναι ἐν μέσῃ τῇ Πόλει φακιόλιον βασιλεῦον Τούρκου, ἢ καλύπτραν λατινικήν) é dita de sua autoria por Ducas,[7] e embora reflita as visões do partido contrário à união das Igrejas estabelecida pelo Concílio de Florença, sua autoria por Notaras provavelmente é falsa.[8] Na verdade, Notaras trabalhou com o imperador Constantino XI para garantir o apoio católico pelas vias que ele podia abrir enquanto tentava evitar tumultos dos fiéis ortodoxos.[9] Esse meio-termo pragmático levou a sua vilificação pelos dois lados do debate, levando à ataques que não foram atenuados pela disputa política na hierarquia imperial. Frantzes raramente tinha uma palavra caridosa para Notaras, e sua antipatia foi reiterada por Edward Gibbon.
Queda de Constantinopla
Durante o Cerco de Constantinopla de 1453, Notaras liderou as tropas na muralha noroeste do mar.[10] Alguns relatos do cerco narram sua deserção do posto depois que o estandarte otomano foi hasteado na torre acima da Cercoporta, embora o relato possa ter motivação política. De qualquer forma, ele foi capaz de defender a Muralha do Mar — que foi o ponto de onde foram lançados todos os ataques bem-sucedidos à cidade — dos turcos até que a destruição das muralhas pelos turcos tornou a defesa inútil.
Morte
Notaras, sua esposa Paleóloga e seu filho mais velho foram capturados pelos turcos, que num primeiro momento concederam-lhes clemência para reestabelecer a ordem e em troca da fortuna de Notaras, que ele investiu em dotes em Veneza para seus filhos. No entanto, ele acabou sendo executado logo depois com seu filho e seu enteado Isso se deu principalmente após o sultão repensar se era sábio manter um nobre com laços com o Vaticano e Veneza vivo; Gibbon acredita que ele já estava envolvido no meio da intriga. Outros dizem que Maomé II desejava sexualmente o filho de 14 anos de Notaras, Jacó, e após Notaras recusar cedê-lo, o sultão ordenou suas mortes.[11][12]
Segundo Macário Melisseno, conhecido como "Pseudo Frantzes", que escreveu um relato ocular (provavelmente apócrifo) da Queda de Constantinopla, as palavras finais de Maomé antes de ordenar a execução de Notaras foram:
| “ | Cão mestiço desumano, habilidoso em bajulação e engano! Você possuía toda essa riqueza e a negou ao seu senhor, o imperador, e à Cidade, sua pátria? E agora, com todas as suas intrigas e imensa traição, que você vem tecendo desde a juventude, você tenta me enganar e evitar o destino que merece. Diga-me, homem ímpio, quem concedeu a posse desta Cidade e do seu tesouro a mim? [Notaras respondeu que Deus era o responsável.] Desde que Deus achou por bem escravizar você e todos os outros para mim, o que você está tentando conseguir aqui com suas tagarelices, criminoso? Por que não ofereceu este tesouro a mim antes do início desta guerra ou antes da minha vitória? Você poderia ter sido meu aliado e eu o teria honrado em troca. Como as coisas estão, Deus, não você, me concedeu o seu tesouro.[13] | ” |
A viúva de Notaras, que estava doente durante o ataque otomano, morreu escravizada durante o trajeto para Adrianópolis, então capital otomana; ela foi enterrada próximo a vila de Messene.[14] Dois membros da família Notaras estavam na lista de passageiros de um navio genovês que escapou da queda da cidade. Sua filha, Ana, tornou-se o pontou focal da comunidade de bizantinos expatriados de Veneza. Duas outras filhas, Helena Notaras e Teodora Notaras, também sobreviveram e se juntaram à sua irmã no exílio. Helena Notaras (que mais tarde adotou o nome monástico de Eufrósine), casou-se com o herdeiro de Ainos, Giorgio Gattilusio, em 1444.[15]
Escritos
Uma coleção de cartas de Lucas Notaras foi publicada na Grécia em latim com o título Epistulae. Inclui Ad Theodorum Carystenum, Scholario, Eidem, Ad eundem and Sancto magistro Gennadio Scholario. Figura como um personagem no livro Johannes Angelos, do autor finlandês Mika Waltari. No romance, ele é representado como líder de um grupo de nobres bizantinos que tentam colaborar com os turcos após a queda de Constantinopla.
Na cultura popular
- No filme turco de 1951, İstanbul'un Fethi, Notaras foi representado por Vedat Örfi Bengü.
- No romance histórico Johannes Angelos, de Mika Waltari
- No romance de 1973 Le Camp des Saints, de Jean Raspail, como ancestral ou homônimo do ficcional “Capitão Lucas Notaras”
- No filme turco de 2012, Fetih 1453, onde é representado por Naci Adıgüzel.
- No romance histórico de 2019, Porphyry and Ash
- Na docussérie fictícia histórica de 2020, Rise of Empires: Ottoman, Notaras foi representado por Osman Sonant.
- Na série ficcional turca de 2024, Mehmed: Fetihler Sultanı, Notaras foi representado por Fikret Kuşkan, Osman Soykut, e Ozman Sirgood.
Referências
- ↑ PLP, 20730. Nοταρᾶς Λουκᾶς; 20733. Nοταρᾶς Νικόλαος.
- ↑ PLP, 91898. Εὐπρέπεια.
- ↑ PLP, 20729. Nοταρᾶς Ἰωάννης.
- ↑ Doukas, 10.9; Magoulias 1975, p. 109.
- ↑ Jorge Frantzes, Chronicon Minus, 12.4; traduzida para o inglês por Marios Philippides, The Fall of the Byzantine Empire: A Chronicle by George Sphrantzes, 1401-1477 (Amherst: Universidade de Massachusetts, 1980), p. 28
- ↑ Frantzes, Chronicon Minus, 24.10; traduzida para o inglês por Philippides, Fall of the Byzantine Empire, p. 52
- ↑ Doukas, 37.10; Magoulias 1975, p. 210.
- ↑ Setton 1978, pp. 104–105, esp. note 91.
- ↑ Notas de Stephen Runciman, “Lucas Notaras certamente conduziu as negociações com grande diligência; mas não recebeu nenhum agradecimento por isso.” Runciman, The Fall of Constantinople 1453 (Cambridge: University Press, 1969), p. 69
- ↑ Donald M. Nicol, The Immortal Emperor [em inglês] (Cambridge: University Press, 1993), p. 63
- ↑ Norwich 1995, p. 441: “Todos aqueles membros das famílias nobres bizantinas que não haviam perecido no cerco e em suas consequências nem conseguido escapar para o Ocidente foram levados perante o sultão no dia seguinte à conquista. A maioria das damas nobres ele libertou imediatamente; apenas as mais belas de suas filhas — e um certo número de seus filhos — ele manteve para seu próprio deleite. Entre os homens ele encontrou o próprio Notaras e outros nove antigos ministros, todos os quais ele pessoalmente resgatou de seus captores e libertou. Mas sua benevolência não durou muito. Apenas cinco dias depois, durante um banquete, sussurrou-se ao seu ouvido que o terceiro filho de Notaras, então com quatorze anos, era um rapaz de beleza impressionante. Mehmet ordenou imediatamente a um de seus eunucos que o trouxesse de sua casa e, quando o eunuco voltou para relatar que o enfurecido grão-duque se recusava a deixá-lo ir, enviou um grupo de soldados para prender tanto o pai quanto o filho, juntamente com um genro, filho do Grande Doméstico Andrônico Cantacuzeno. Levado à presença do sultão, Notaras ainda permaneceu firme, ao que Mehmet ordenou que os três fossem decapitados no mesmo instante. O megas dux pediu apenas que os dois rapazes enfrentassem o destino primeiro, para que a visão de sua própria morte não enfraquecesse a determinação deles. Um momento depois, enquanto eles jaziam mortos diante dele, ele próprio descobriu o pescoço.”
- ↑ Babinger 1978, p. 96: “Embriagado de vinho, ele ordenou ao chefe dos eunucos negros (kızlar ağası) que fosse à casa do grande duque e trouxesse de volta seu filho mais novo, um belo rapaz de quatorze anos. Quando a ordem foi transmitida ao pai do menino, ele se recusou a cumpri-la, dizendo que preferia ser decapitado a permitir que seu filho fosse desonrado. Com essa resposta o eunuco retornou ao sultão, que então enviou o carrasco para trazer-lhe o duque e seus filhos. Notaras despediu-se de sua esposa e, acompanhado de seu filho mais velho e de seu genro Cantacuzeno, seguiu o carrasco. O sultão ordenou que os três fossem decapitados. As três cabeças foram levadas ao sultão; os corpos permaneceram insepultos. Notaras, popularmente conhecido como o ‘pilar dos Rhomaioi’, certa vez havia declarado: ‘Antes o turbante turco na cidade do que a mitra romana.’ Seu desejo havia sido realizado. Os três cronistas bizantinos — Ducas, Calcocôndilas e Frantzes— que todos relatam o incidente em detalhe, abundam em reflexões lamentosas e homilias.”
- ↑ Macário Melisseno, “Chronicon Maius”, 3.10-12; traduzido ao inglês na obra de Marios Philippides, Fall of the Byzantine Empire, p.132
- ↑ Babinger 1978, pp. 95, 102.
- ↑ Thierry Ganchou, “Héléna Notara Gateliousaina d'Ainos et le Sankt Peterburg Bibl.Publ.gr. 243”, Revue des études byzantines, 56 (1998), pp. 141-168 (em francês).
Material adicional
- "Le rachat des Notaras apres la chute de Constantinople ou les relations 'étrangères' de l'élite Byzantine au XVe siecle", by Thierry Ganchou, in Migrations et diasporas méditerranéennes (Xe-XVIe siecles), Paris 2002.
- Magoulias, ed. (1975). Decline and Fall of Byzantium to the Ottoman Turks, by Doukas. An Annotated Translation of "Historia Turco-Byzantina" by Harry J. Magoulias, Wayne State University. Detroit: Wayne State University Press. ISBN 978-0-8143-1540-8
- Norwich, John Julius (1995). Byzantium: The Decline and Fall (em inglês). 3. [S.l.]: Viking Press. ISBN 978-0-679-41650-0
- Philippides, Marios; Hanak, Walter K. (2011). The Siege and the Fall of Constantinople in 1453: Historiography, Topography and Military Studies. [S.l.]: Ashgate Publishing, Ltd. ISBN 978-1-4094-1064-5
- Philippides, Marios (2018). Constantine XI Dragaš Palaeologus (1404–1453): The Last Emperor of Byzantium. [S.l.]: Routledge. ISBN 978-1-351055406