Mentalidade
Mentalidade (também chamada mindset, dependendo do contexto) refere‑se ao conjunto de predisposições, atitudes, costumes e orientações intelectuais, morais, cognitivas e afetivas consideradas comuns aos membros de uma coletividade ou categoria específica de indivíduos.[1][2] Expressa‑se por meio de opiniões, crenças e representações, atuando como um filtro que organiza a informação e orienta a compreensão que cada indivíduo tem de sua experiência..[1][2]
O termo também designa a predisposição psicológica que pessoas ou grupos sociais possuem para determinados tipos de pensamento e padrões de comportamento, influenciando inclusive a forma como sociedades inteiras se estruturam ideologicamente.[3] A mentalidade funciona como a estrutura que sustenta fatos, ideologias e imaginários de uma sociedade, estando intimamente ligada à temporalidade: é uma construção de longa duração, em contraste com os fatos, que tendem a ocorrer de maneira muito mais rápida.[4]
Usos do termo
No campo da psicologia, o termo é frequentemente associado ao conceito de mindset, definindo um estado de espírito que influencia a maneira como as pessoas pensam e executam atividades direcionadas a objetivos específicos.[5][6]
Na historiografia, especialmente na tradição da Escola dos Annales, refere-se ao nível do cotidiano e do automático, revelando o conteúdo impessoal do pensamento que une diferentes sujeitos históricos sob uma mesma sensibilidade de época.[7][8] Estas estruturas são caracterizadas pela longa duração, atuando como "prisões mentais" que se transformam de maneira extremamente lenta e exercem uma força de inércia sobre a ação humana ao longo das gerações.[8] O conceito abrange desde o conjunto de ferramentas intelectuais, categorias de pensamento, conceitos e modos de expressão disponíveis e necessários para o raciocínio em uma determinada época, até dinâmicas inconscientes, sendo por vezes comparado ao inconsciente coletivo por representar permanências psíquicas herdadas por um grupo social.[8][9]
Cientificamente, o termo é usado principalmente em sociologia e história das mentalidades.[10][11]
Etimologia
A palavra «mentalidade» provém do latim mentālis e chegou ao português através do francês mentalité.[12] Significa «que se produz no espírito».[13]
Histórico
Século XIX
A partir da década de 1880, em meio a críticas ao modo como a História era escrita, os historiadores passaram a buscar a profissionalização da disciplina, seguindo métodos fortemente inspirados no positivismo, buscando explicações causais e trabalhando quase exclusivamente com documentos oficiais do Estado.[14] Tal prática levava a narrativas voltadas para a construção nacional, destacando o Estado, suas instituições e grandes líderes, em uma abordagem conhecida como "história dos acontecimentos".[14] Alguns historiadores franceses e alemães começaram a questionar esse modelo, enquanto outros procuraram recuperar uma tradição anterior, de história cultural, defendida por autores como Jacob Burckhardt, Karl Lamprecht e Troels Troels-Lund [en], que queriam mostrar como fatores materiais e elementos simbólicos — valores, tradições e percepções — estavam interligados. Na época, porém, essas ideias tiveram pouca influência, pois eram vistas como pouco científicas pelos historiadores mais alinhados à nova profissionalização.[14]
Século XX
A partir do início do século XX, a palavra "mentalidade" como sinônimo de comportamentos e atitudes coletivas, começou a ganhar espaço no mundo ocidental. A definição de mentalidade já podia ser encontrada em "Em Busca do Tempo Perdido", obra de Marcel Proust, escritor francês. Paralelamente, o conceito apareceu nas ciências humanas e sociais, primeiro na Antropologia, designando pejorativamente comportamentos considerados primitivos, sendo comum, à época, a comparação entre as mentalidades do homem primitivo e a de uma criança.[4]
No campo da historiografia, o conceito passou a se referir às formas de pensar de uma sociedade: seus valores, sentimentos, medos, imaginário e tudo aquilo que as pessoas consideram verdade, mesmo sem perceber.[15] As mentalidades fazem parte do cotidiano e orientam a maneira como as pessoas veem o mundo, influenciando tanto os fatos quanto as ideologias. Sendo estruturas profundas, mentalidades mudam muito lentamente, ao contrário de acontecimentos históricos, que são rápidos.[15]
Entre as décadas de 1920 e 1930, a Escola dos Annales, na França, foi responsável por destacar a importância das mentalidades. A partir desta época, as grandes transformações históricas passaram a ser analisadas também pelo ângulo da evolução psicológica e dos comportamentos coletivos.[15] O historiador Lucien Febvre, um dos fundadores dos Annales, foi um dos primeiros a estudar as mentalidades, seguido por autores contemporâneos como Marc Bloch, Huizinga e Norbert Elias.[15]
O crescimento dos estudos demográficos ocorrido entre as décadas de 1940 e 1950,no entanto, fez com que o interesse pelas mentalidades diminuísse. Somente após 1960, com a Nova História, o tema voltou a ganhar força. Autores como Philippe Ariès, Jacques Le Goff e Georges Duby impulsionaram a produção de obras sobre mentalidades, especialmente sobre a Idade Média francesa, tornando esses estudos mais conhecidos e acessíveis ao público.[15]
Década de 1940
Após o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o estruturalismo e o marxismo influenciaram fortemente a historiografia, destacando o papel das estruturas materiais.[16] A segunda geração dos Annales, entre 1948 e 1972, liderada pelo historiador francês Fernand Braudel, reforçou essa abordagem, embora ainda considerasse as mentalidades.[16] Já a terceira geração dos Annales, no final da década de 1960, revitalizou o estudo das mentalidades, com autores como os historiadores franceses Philippe Ariès, Jaques Le Goff e Emmanuel Le Roy Ladurie, que passaram a analisar o cotidiano e as práticas culturais a partir de uma perspectiva "de baixo para cima". A mentalidade passou então a ser entendida como uma estrutura coletiva e inconsciente, compartilhada por todos os membros de uma época.[16]
Nesse período, a linguagem e categorias universais, como nascimento e morte, passaram a ser estudadas dentro dos marcos cognitivos próprios de cada época. O conceito de mentalidade, então, tornou‑se criticado apesar de sua utilidade, por ser considerado vago, difícil de delimitar e pouco eficaz para explicar conflitos ou mudanças históricas.[16]
Década de 1980 em diante
Entre as décadas de 1980 e 2000, a pesquisa sobre mentalidade e suas aplicações começou a se expandir para outras áreas, incluindo os estudos de Glen Fisher sobre relações internacionais em 1988, a pesquisa de Ellen Langer [en], em 1989, sobre mindfulness, a psicologia das fases de ação de Peter Gollwitzer [en], em 1989,[17][18] a teoria da mudança de sistemas de Donella Meadows, de 1991, o trabalho de Stephen Rhinesmith sobre mentalidades globais em 1992, a prática de liderança adaptativa de Ronald Heifetz (1994), o conceito de teorias implícitas de Carol Dweck, proposto em 2006 e a teoria do desenvolvimento adulto de Robert Kegan [en] e Lisa Lahey (2009).[19]
Referências
- 1 2 Boudon, Raymond; Ribeiro, António J., eds. (1990). Dicionário de sociologia. Col: Dicionários Dom Quixote 1. ed ed. Lisboa: Dom Quixote. pp. 155–156. ISBN 978-972-20-0809-9
- 1 2 Buchanan, Ash (23 de abril de 2024), What is mindset? 100 definitions from the field., doi:10.31234/osf.io/5xeqv, consultado em 9 de março de 2026
- ↑ Mayordomo, A.; López Torrijo, Manuel (2013). «Lecturas de metodología histórico-educativa. Hacia una historia de las mentalidades». Universität de Valencia. Cuadernos del Departamento de Educación Comparada e Historia de la Educación. Historia De La Educación (16): 613–614. Consultado em 10 de março de 2026
- 1 2 Silva & Silva 2009, p. 279.
- ↑ Buchanan, Ash (23 de abril de 2024), What is mindset? 100 definitions from the field., doi:10.31234/osf.io/5xeqv, consultado em 9 de março de 2026
- ↑ «Mindset». American Psychological Association Dictionary of Psychology (em inglês). Consultado em 9 de março de 2026
- ↑ Venâncio, Renato Pinto (1995). «Comentário V». São Paulo: Universidade de São Paulo. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material. v.3 (1): 51-54. Consultado em 9 de março de 2026
- 1 2 3 Oliveira, Amanda Muniz; Bastos, Rodolfo (dezembro de 2015). «Os modos de sentir o mundo: a história das mentalidades e sua relação com o inconsciente coletivo». Revista Expedições: Teoria & Historiografia. 6 (2). Consultado em 9 de março de 2026
- ↑ Sobral, José Manuel (30 de janeiro de 1987). «Mentalidade, acção, racionalidade – uma leitura crítica da história das mentalidades». Análise Social (95): 37–57. ISSN 2182-2999. doi:10.31447/AS00032573.198795.03. Consultado em 9 de março de 2026
- ↑ Sciamarella, Sant’Anna, Luiz Alberto (2008). «A história do mental de Lucien Febvre : uma complexidade reflexiva». Repositório Institucional Unesp. Consultado em 10 de março de 2026
- ↑ Lima, Renato Sampaio (2008). «Historia da psicologia social no Rio de Janeiro entre as décadas de 1960 e 1990» (PDF). Biblioteca Digital de Teses e Dissertaqöes - Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Consultado em 10 de março de 2026
- ↑ Editores do Aulete (2011). «Mentalidade». Dicionário Caldas Aulete. Consultado em 19 de julho de 2017
- ↑ Manuel López Torrijo (1995). Lecturas de metodología histórico-educativa. Hacia una historia de las mentalidades. [S.l.]: Universitat de València. 156 páginas. ISBN 9788437023137
- 1 2 3 Durst-Andersen 2010, pp. 14-15.
- 1 2 3 4 5 Silva & Silva 2009, pp. 279-280.
- 1 2 3 4 Durst-Andersen 2010, pp. 17-18.
- ↑ Higgins, E. T.; Sorrentino, R. M. (eds.). The Handbook of Motivation and Cognition: Foundations of Social Behavior (Vol. 2). [S.l.]: New York: Guilford Press. pp. 53–92
- ↑ Van Lange, P. A. M.; Kruglanski, A. W.; Higgins, E. T. (eds.). Handbook of Theories of Social Psychology (Volume 1),. [S.l.]: SAGE. pp. 526–545. doi:10.4135/9781446249215.n26
- ↑ Buchanan, Ash (25 de dezembro de 2023). «Perspectives: The History of Mindset: A Critical Review». Middle East Journal of Positive Psychology (em inglês): 79–99. ISSN 2520-0364. Consultado em 9 de março de 2026