Quinta dos Azulejos
| Quinta dos Azulejos | |
|---|---|
![]() | |
| Informações gerais | |
| Tipo | casa, património cultural |
| Património de Portugal | |
| DGPC | 323336 |
| SIPA | 4002 |
| Geografia | |
| País | Portugal |
| Localização | Lumiar |
| Coordenadas | 🌍 |
| Localização em mapa dinâmico | |
A Quinta dos Azulejos localiza-se no Paço do Lumiar, Lisboa. Tem uma casa senhorial, edificada no século XVII e reconstruída na primeira metade de 1700 por iniciativa de António Colaço Torres, ourives da Casa Real.
A quinta tem um magnifico conjunto azulejar, de meados do século XVIII, alguns anteriores ao terramoto de 1755, outros logo na sequência, e um jardim com características portuguesas.[1]
História
O paço setecentista
Erguida durante o século XVIII, a propriedade exibe uma clara filiação nas correntes estéticas vigentes na época. O primeiro detentor da propriedade foi António Colaço Torres, descendente de Luís Colaço da Cruz, um ourives sediado no Adro de São Julião e que habitou a Rua Nova dos Ferros antes do terramoto de 1755.
Entre os anos de 1745 e 1755, decorreu a fase inaugural de aplicação de revestimentos cerâmicos nos espaços interiores e nos jardins, com recurso a peças oriundas da Real Fábrica de Faianças do Rato. Em 1753, com os trabalhos de ornamentação das alas viradas a Sul e a Nascente concluídos, o paço acolheu a visita dos monarcas D. José I e D. Mariana Vitória. Na sequência deste evento, foi afixado um medalhão azulejar para perpetuar o momento e, no mesmo ano, a 16 de Dezembro, o proprietário foi agraciado com o cargo de guarda-mor do Soldo de Lisboa. Mais tarde, a 28 de Janeiro de 1756 recebeu ainda a nomeação para inquiridor e distribuidor da Ouvidoria da Alfândega e Conservatória Inglesa.[2][3][4]
Uma segunda empreitada de fixação de azulejos teve lugar após o terramoto, englobando não só os muros do logradouro a Sul e os aposentos reais, mas também o primeiro andar e várias paredes interiores da casa. Foi igualmente inserida uma fonte parietal nas bacias preexistentes. É a partir destas profundas campanhas decorativas que o espaço adopta o topónimo pelo qual é hoje designado.[3]
Sabe-se ainda que D. Maria I chegou a habitar transitoriamente nestas instalações.[5] No ano de 1760, ocorreu uma nova deslocação da família real à quinta, facto que motivou a fixação de um extenso elemento epigráfico evocativo, no qual se pode ler:
SUAS MAGESTADES FIDELISSIMAS FELIZMENTE REINANTES O SENHOR DOM JOZE PRIMEIRO E A RAINHA NOSSA SENHORA FIZERÃO A ESTA CASA A SUBLIME MERCE DE SE SERVIREM D`ELLA EM 3 DE NOVEMBRO DE 1753 E LHE REPETIRAM A MESMA / HONRA COM TODA A FAMILIA REAL V. R .T. O AGRADECIMENTO DO SEU OBRIGADISSIMO E HUMILISSIMO CRIADO ANTÓNIO COLASSO TORRES PARA SE ESTABELECER NA DURAÇÃO DO MARMORE FEZ AQUI GRAVAR ESTA MEMORIA EM 1760
A 25 de Setembro de 1759, o proprietário redigiu o seu testamento, instituindo como única herdeira a sua filha, Maria Josefa Joaquina, matrimoniada com o almoxarife dos Paços da Bemposta, José Pedro da Silveira. O falecimento do guarda-mor sobreveio a 29 de Setembro de 1761, tendo sido inumado no exterior da porta principal da ermida de São Sebastião, cumprindo rigorosamente as suas últimas vontades. No registo testamentário, ficou assinalada a posse de moradias nobres, de um amplo quintal, de outras residências na Rua Esquerda.[3]
Nos registos da Décima da Cidade relativos a 1762 e 1763, a propriedade era de José Pedro da Silveira, passando para a sua família após a sua morte em 1764 — a esposa manteve a parcela habitacional onde residia, enquanto a restante terça parte do património foi distribuída pelos cinco descendentes do casal. A partir de 1765, a herdade foi sujeita a sucessivos contratos de arrendamento.
A 30 de Setembro de 1784, o imóvel foi vendido a Martinho Alonço Correia, boticário ao serviço da coroa e morador na Junqueira. Sob a sua administração, o recinto passou a ser designado por Quinta dos Embrechados.
Posteriormente, a 24 de Dezembro de 1802, a propriedade transitou para o droguista António Colaço da Silva. Visando expandir os seus domínios, este novo titular adquiriu a D. Vasco Manuel Figueiredo Cabral da Câmara, a 1 de Setembro de 1804, um conjunto de imóveis devolutos circundantes, unindo os lotes e rebaptizando o espaço como Quinta do Droguista. Até 1809, consolidou a malha urbana através da compra de quatro prédios na Rua Esquerda.[3]
Foi nesta fase, em 1805, que o literato António Feliciano de Castilho, então com cinco anos de idade, ali permaneceu para debelar os efeitos de um grave acidente, deixando mais tarde testemunho dessa vivência.
Com a morte do droguista em 1820, a viúva Maria Francisca Salles de Santa Teresa assumiu os bens. Décadas volvidas, a 17 de Outubro de 1862, a neta daquele, Maria Angelica Melchiades d'Assis e Brito, transferiu a titularidade para João Augusto Ferreira Rangel de Sampaio. As descrições prediais desta época retratam um complexo imponente, abarcando casa principal de três andares, cocheiras, adega, pomar equipado com engenho e nora, zonas de horta, lagar de cantaria, além de um jardim com cascata, lago e parreiras.
A integridade do lote foi fragmentada quando Sampaio decidiu dividi-lo: a 23 de Dezembro de 1869 alienou a secção fidalga e os vergéis a Maria Araceli e ao seu esposo Miguel de Mena y Rocio, alienando a parcela remanescente a Manuel Maurício Vieira a 16 de Junho de 1874. A reunificação da herdade concretizou-se em 1877, por acção de José Joaquim das Neves, que comprou a primeira fracção em Abril e a segunda em Agosto. Pouco tempo depois, em 1881, o olissipógrafo Júlio de Castilho publicou uma pormenorizada transcrição visual e escrita do local, comprovando através de um desenho de Novembro de 1862 a total ausência de azulejos no alçado principal àquela data.
O final do século XIX ditou novas alterações de propriedade: a 16 de Dezembro de 1891, uma parcela sobrante de terreno foi transaccionada a António Garcia Domingues, culminando a 21 de Novembro de 1898 com a venda de toda a Quinta dos Azulejos a Júlio Alves Ribeiro da Silva, por via dos herdeiros de José Joaquim das Neves.[3]
Remodelação do século XX
O século XX despontou com a aquisição do recinto por Henry Scholtz, cidadão de nacionalidade norte-americana, a 26 de Maio de 1903. O novo proprietário teve o ensejo de hospedar nas instalações figuras sonantes, como a escritora Juliette Adam e o Ministro dos Negócios Estrangeiros dos Estados Unidos, em 1909. Alguns anos depois, a 5 de Agosto de 1912, o segundo conde de Santar, Pedro Paulo Melo Figueiredo Pais Amaral, comprou e restaurou o palacete, assinalando a sua intervenção com uma placa no alçado ocidental:
PEDRO PAULO JOSÉ DE MELLO (SANTAR) ADQUIRIU ESTA QUINTA EM 5 DE AGOSTO DE 1912 E A RESTAUROU
A transacção seguinte ocorreu em Abril de 1919, a favor de John Peter Hornung. Em Novembro desse mesmo ano, quando os alçados exteriores estavam a ser rebocados e pintados, deflagrou um incêndio que infligiu avultados danos à estrutura. Os dois anos seguintes foram assim dedicados à reconstrução e ampliação do conjunto edificado. Ocorreu a fixação do contínuo revestimento azulejar na fachada frontal, tendo o referido painel comemorativo da passagem régia sido deslocado para as traseiras do edifício. A área rústica do complexo diminuiu drasticamente, restando apenas os espaços ajardinados.[3][2]
Colégio Manuel Bernardes
O destino utilitário da casa sofreu uma alteração permanente a partir da sua venda, em Março de 1932, a Artur Ribeiro Lopes, que modificou a escadaria e a porta principal em 1934. No ano imediato, o padre Augusto Gomes Pinheiro instituiu no local o Colégio Manuel Bernardes, honrando o presbítero oratoriano de mesmo nome. Consolidando esta vertente escolar, o clérigo viria a adquirir definitivamente a herdade em Maio de 1947, altura em que o município aprovou a elevação da volumetria edificada. Sob a direcção do arquitecto Artur Bentes, ergueu-se um piso suplementar na ala Sul entre 1947 e 1948, intervenção repetida com a construção de um terceiro andar entre 1957 e 1958. Em paralelo, edificou-se um ginásio na zona Norte entre 1949 e 1950, bem como um anexo em 1961, sucedendo-se obras de beneficiação geral em 1943 e 1970.[3]
O Decreto n.º 44675, de 9 de Novembro de 1962 classificou as parcelas com azulejaria setecentista como
Imóvel de Interesse Público. Subsequentemente, foi abrangida pelo Plano Director Municipal em 1994 e incluída no Conjunto de Interesse Público do Paço do Lumiar a 31 de Dezembro de 1997.[3]
Descrição
Exterior
O edifício, de traça marcadamente barroca e rocaille, insere-se na malha urbana do núcleo histórico do Paço do Lumiar, demarcando-se como um complexo de grandes dimensões. A fachada frontal confronta com o Largo Padre Augusto Gomes Pinheiro, situando-se nas imediações das antigas estruturas quinhentistas do Hospital e Ermida do Espírito Santo. A face orientada a este dialoga com a Rua Esquerda, na continuidade da entrada principal da Quinta de Santo António.[3][6]
Arquitectura
O conjunto organiza-se numa matriz longitudinal, articulada numa planta em 'L' que sofreu múltiplas adaptações fruto de várias campanhas de construção. O palacete desenvolve-se através de dois blocos paralelepipédicos de acentuada horizontalidade. O corpo voltado a nascente ergue-se em quatro pavimentos sob uma cobertura homogénea a quatro águas. A ala Sul, também constituída por quatro andares mas dispostos de forma escalonada, exibe uma conjugação de telhados a três e quatro águas, intervalados por zonas de terraço.[2]
Com excepção da fachada virada a sul e dos dois primeiros pisos da lateral este, que se encontram forrados a azulejaria, os alçados apresentam-se rebocados e pintados de branco. O revestimento cerâmico exterior pauta-se por azulejos estampilhados de produção industrial, monocromáticos em tons de azul sobre fundo alvo. A composição modular revela motivos geométricos e vegetalistas estilizados, onde pontificam florões e tarjas curvilíneas a delimitar contornos hexagonais. As paredes exteriores encontram-se flanqueadas por cunhais de cantaria calcária, rematadas superiormente por frisos, cornijas e beiradas simples.[3][2][4][6]
Fachada principal
O alçado orientado a sul é simétrico a partir do seu eixo central. Assentando num embasamento pétreo, encontra-se tripartido por pilastras de silharia fendida. Os panos laterais limitam-se a dois pisos, contrastando com a secção central que evolui em quatro patamares, encimados no seu topo por uma balaustrada de terracota decorada com acrotérios almofadados e vasos.[2]
No piso térreo do eixo central rasgam-se dois grandes portões resguardados por folhas de madeira, ladeando duas janelas de peitoril munidas de grades. O andar nobre exibe quatro janelas de sacada com bacias de pedra e guardas em ferro forjado de linhas sinuosas. O terceiro nível, ladeado por aletas azulejadas, comporta duas janelas tipo varandim, culminando o conjunto num quarto registo de perfil poligonal onde se insere uma chaminé quadrangular.[3][2]
Fachada lateral esquerda
A fachada lateral voltada a ocidente termina igualmente numa balaustrada semelhante, encerrando um pequeno terraço no nível cimeiro. Destacam-se nesta secção os painéis azulejares de carácter figurativo no andar inferior e uma varanda metálica no segundo pavimento.[3]
Fachada lateral direita
Já a fachada este desdobra-se em dois planos num ângulo pronunciado. O pano esquerdo exibe fenestrações rectilíneas sobre o tapete cerâmico, enquanto o pano direito combina o azulejo térreo com a alvura das paredes superiores.[3]
Pátio
A articulação dos dois corpos do palacete cria na zona traseira um pátio em esquadria, pavimentado com calçada portuguesa de motivos geométricos. Este logradouro encontra-se circunscrito por um muro com remate recortado e volutado que estabelece a ligação aos vergéis, albergando no seu perímetro um reservatório hídrico.[3]
Fachada posterior
A parede ocidental deste claustro interior, delineada por sucessivos ressaltos e rasgada por vãos de volta perfeita ou rectilíneos, engloba escadarias de cantaria nos extremos, integralmente revestidas a azulejo de figura avulsa. Estes acessos conduzem a um patamar alpendrado, sob o qual se abrem arcos maciços que permitem a entrada na residência. É no nível intermédio desta face que figuram os dois medalhões ovais pormenorizadamente inscritos, alusivos à passagem da monarquia setecentista e ao restauro do século XX. A face orientada a norte, dividida por uma pilastra de ordem toscana, contempla um vasto portal em arco de volta perfeita assente sobre pilastras clássicas.[3]
Interior
O ingresso no interior da residência processa-se através de um pequeno vestíbulo de paredes brancas e pavimento axadrezado em cantaria. Uma escadaria de madeira em dois lances assegura a transição para os pisos superiores, flanqueada por silhares cerâmicos em azul e branco, decorados com festões e folhas de acanto. No andar de cima, o revestimento azulejar enriquece-se com molduras policromáticas e composições de enrolamentos, envolvendo cenas cortesãs e de galanteio.
Por toda a área edificada multiplicam-se os painéis azulejares. Desde os padrões esponjados a manganês na zona utilitária da cozinha, passando pelas composições florais e tarjas ondulantes nos corredores, até aos lavabos integralmente preenchidos por azulejos monocromáticos de cariz geométrico e vegetalista, a azulejaria afirma-se como o elemento aglutinador e definidor da identidade visual e histórica do conjunto patrimonial.[3]
Capela
A edificação integra uma capela de planta rectangular, provida de tecto plano, lambrim de madeira almofadado e um altar de talha encimado por sacrário. Através de um corredor e de uma escada íngreme, forrada a azulejos de padrão policromo, atinge-se o torreão, espaço que acolhe os aposentos reais. Este salão rectangular, servido por janelas de peito e comunicação directa para um terraço privativo, possui um tecto que acompanha a volumetria da cobertura, rematado por um florão central.
Os azulejos das paredes retratam episódios campestres, enquadrados por elaboradas molduras coloridas e concheados. O terço superior da alvenaria exibe pinturas murais delineando amplos apainelados, compostos por anjos, albarradas e bustos perfilados. Nos quatro vértices do compartimento, imponentes móveis de madeira pintada e rematados por talha dissimulam fenestrações e vãos de passagem, ou funcionam como estruturas expositivas com prateleiras e vitrais.[3]
- ↑ DN, Redacção (24 de março de 2017). «Quinta dos Azulejos, o paraíso na Terra em pleno Lumiar». Diário de Notícias (em inglês). Consultado em 22 de abril de 2026
- 1 2 3 4 5 6 Almeida, Álvaro Duarte de; Belo, Duarte (2008). Portugal Património: Guia-Inventário. VII (Lisboa). Conselho científico de José Mattoso, Paulo Pereira e Teresa Belo. Lisboa: Círculo de Leitores. p. 73
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 «Monumentos». www.monumentos.gov.pt (em inglês). Consultado em 22 de abril de 2026
- 1 2 «Palacete da Quinta dos Azulejos». CM Lisboa
- ↑ Almeida, Álvaro Duarte de; Belo, Duarte (2008). Portugal Património: Guia-Inventário. VII (Lisboa). Conselho científico de José Mattoso, Paulo Pereira e Teresa Belo. Lisboa: Círculo de Leitores. p. 73
- 1 2 «PESQUISA GERAL». imovel.patrimoniocultural.gov.pt. Consultado em 22 de abril de 2026
Referências
.jpg)