Rede de dormir

A rede de dormir, também conhecida como rede de descanso, cama de rede ou maca, é um utensílio doméstico constituído por um tecido retangular suspenso pelas extremidades a pontos de ancoragem, como armadores ou árvores. É historicamente utilizada para o sono e o repouso.[1] Concebida originalmente pelas populações indígenas das Américas a partir de fibras naturais, a rede foi assimilada pelos colonizadores europeus e, atualmente, é fabricada em larga escala com fios de algodão ou materiais sintéticos industriais.[1]
No Brasil, o artefato integra a cultura material do país, enquanto no contexto internacional consolidou-se no comércio como um símbolo de lazer e de atividades ao ar livre.[2]
Etimologia e nomenclatura
O vocábulo "maca" e traduções internacionais como hammock (inglês), hamac (francês) e hamaca (espanhol) derivam do termo hamaka, pertencente à língua taína (de origem aruaque), falada por povos nativos da região do Caribe.[1] O prefixo ha- indicava a ação de pendurar, enquanto a raiz -maka referia-se a um pedaço de tecido.[2]
No Brasil pré-colonial, os grupos indígenas utilizavam termos do tronco tupi-guarani para designar o leito suspenso, tais como ini, kisáua, maquira e kyçaba.[1] A palavra rede foi adotada pelos colonizadores portugueses logo após os primeiros contatos, devido à semelhança visual entre as tramas abertas do leito indígena e as redes de pesca utilizadas na Europa.[1]
História
Origens e o período pré-colombiano
A rede de dormir é uma invenção das populações ameríndias da bacia amazônica e das Américas Central e do Sul.[3] Inicialmente, as redes apresentavam malhas rústicas tecidas de forma manual a partir de lianas, cipós e fibras de palmeiras, como o tucum e o buriti.[1] O objeto oferecia utilidade prática no ambiente florestal, isolando os indivíduos do contato direto com o solo úmido e oferecendo proteção contra insetos e animais peçonhentos.[1]
Adoção europeia e uso naval
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O primeiro registro documental da rede de dormir no Brasil foi feito por Pero Vaz de Caminha. Em carta de 27 de abril de 1500, o escrivão relatou que os indígenas dormiam em uma "rede atada pelos cabos, alta".[3] A adoção da rede pelos colonizadores ocorreu de forma rápida, sendo as mulheres responsáveis por adaptações técnicas significativas: a substituição das fibras selvagens por fios de algodão, a introdução do tear horizontal (que adensou a trama do tecido) e a adição de ornamentos como as franjas.[1]
Posteriormente, o artefato foi incorporado ao uso naval pelas frotas europeias. A rede otimizava o espaço nos conveses, podendo ser recolhida durante o dia, e seu mecanismo pendular acompanhava o balanço das embarcações, evitando a queda dos marinheiros durante o sono.[1]
Meio de transporte e uso funerário
Durante o período do Brasil Colônia e do Império, a carência de estradas adequadas para carruagens fez com que a rede fosse adaptada como meio de transporte. Veículos suspensos conhecidos como liteiras, serpentinas ou palanquins de rede consistiam em uma rede atada a um varão de madeira, transportada nos ombros por trabalhadores escravizados.[1] [3]
Em regiões do interior do Nordeste brasileiro, a rede também desempenhou papel nos ritos funerários. Na ausência de caixões de madeira, era costume utilizar a própria rede do indivíduo falecido para transportá-lo até o cemitério, prática que foi retratada pelo pintor Candido Portinari na obra Enterro na Rede (1944).[1] [3]
Representação na arte e cultura
Ao longo dos séculos XVI e XIX, viajantes e artistas estrangeiros como Hans Staden, Jean-Baptiste Debret e Johann Moritz Rugendas registraram a rede de dormir, frequentemente associando-a ao clima tropical. Essa iconografia colonial contribuiu para a construção de um estereótipo visual que ligava o uso da rede à inatividade da população local.[3]
A partir do modernismo, na década de 1920, o objeto foi ressignificado na literatura e nas artes plásticas como um elemento da identidade nacional, a exemplo de sua presença na obra Macunaíma, de Mário de Andrade.[3] Na arte contemporânea, a rede integra instalações interativas, como as Cosmococas (1973) de Hélio Oiticica e Neville D’Almeida, e as proposições do coletivo Opavivará, que utilizam o leito suspenso no ambiente dos museus como uma ferramenta de repouso coletivo e de questionamento do ritmo de vida urbano acelerado.[3]
Estrutura e elementos constitutivos
A produção artesanal da rede de dormir envolve uma anatomia têxtil específica. A estrutura tradicional é composta pelos seguintes elementos:[2] [1]
- Pano (ou corpo)
- Porção central de tecido (geralmente algodão) ou malha trançada, responsável por receber o peso do usuário.[2]
- Cabrestilhos
- Conjuntos de fios agrupados que conectam a margem vertical do tecido aos cordões principais.[2]
- Cordões
- Feixes de fios trançados (frequentemente produzidos em máquinas chamadas trancelins) que saem dos cabrestilhos e convergem para as extremidades.[4]
- Punho (ou caré)
- Alça espessa em formato de anel no final dos cordões, utilizada para atar a rede aos armadores.[5]
- Mamucaba
- Cinta transversal de tecido denso costurada nas cabeceiras do pano para evitar esgarçamentos.[5]
- Varanda
- Guarnição decorativa suspensa nas bordas laterais do pano, geralmente confeccionada de modo artesanal utilizando técnicas de macramê ou crochê.[5]
A cadeia produtiva e os polos regionais
No Brasil, a confecção de redes de dormir ocorre por meio de uma divisão social do trabalho que integra o uso de teares elétricos (para o corpo do tecido) e o trabalho manual (focado nos acabamentos e varandas). O país possui polos produtivos de destaque:[5] [4]
Geografia econômica e o ramo de rede
Segundo estudos fundamentados na teoria dos "dois circuitos da economia urbana" do geógrafo Milton Santos, a produção nordestina de redes divide-se em níveis complementares. O circuito superior abrange a maquinofatura, o uso de tecnologia e a exportação, enquanto o circuito inferior é constituído pelo trabalho informal e pelas fábricas de "fundo de quintal".[6] Essa dinâmica gera uma forte interdependência territorial entre municípios. O município de Jaguaruana (CE), por exemplo, atua como um dos principais fornecedores de fios brutos para as fábricas de São Bento (PB), conectando as cidades por meio de rotas logísticas contínuas.[6]
A comercialização interurbana impulsionada pelos "redeiros" (vendedores viajantes de porta em porta) compõe o que a sociologia e a antropologia denominam "ramo de rede". Ao invés de uma transação puramente financeira, as rotas de viagem desses vendedores são estritamente reguladas pelas relações de parentesco.[7] Laços de sangue e casamentos definem a organização das equipes de venda, a divisão de caminhões e o repasse de mercadorias em consignação, criando circuitos de ajuda mútua familiar que viabilizam o ofício ao longo de gerações em estados como o Maranhão e o Pará.[7]
Legislação e os direitos do artesão
A fabricação de redes, ao longo de décadas, esteve vinculada a extensas jornadas de trabalho doméstico e à ausência de garantias previdenciárias. Em diversas comunidades de artesãos, a dependência econômica em relação aos chamados "atravessadores" comerciantes que adquirem as peças artesanais a baixo custo para revenda nos grandes centros gera oscilações severas de renda e precarização profissional.[8] [9]
Como forma de assegurar o reconhecimento e a organização da categoria, mobilizações políticas impulsionaram debates sobre a aposentadoria facilitada e o desenvolvimento de arranjos produtivos locais (APLs). Um marco nacional foi a sanção da Lei n.º 12.634/2012, que instituiu oficialmente o dia 19 de março como o Dia Nacional do Artesão, medida que buscou fornecer maior visibilidade para os produtores das tramas e fortalecer as associações rurais.[9]
Principais municípios produtores
- São Bento (Paraíba): Conhecida como a "Capital Mundial das Redes", a cidade possui a economia voltada quase integralmente para essa manufatura, com fábricas e ateliês residenciais que produzem milhões de unidades anuais e escoam a produção pelo ramo de rede.[5]
- São Bento (Maranhão): Localizada na Baixada Maranhense, a cidade também detém ampla tradição têxtil baseada no trabalho feminino e em saberes transmitidos por gerações, mobilizando cooperativas locais para a preservação de sua identidade cultural frente à mecanização.[9]
- Jaguaruana (Ceará): Polo produtor focado na exportação. A produção na cidade caracteriza-se pela aplicação de saberes etnomatemáticos; os tecelões utilizam lógicas geométricas e linguagem binária (perfurações e pinos nas cartelas do tear) para programar as padronagens e listras dos tecidos de forma empírica.[4]
- Pedro II (Piauí) e Boqueirão (Paraíba): Municípios marcados pela atuação de associações locais (como a Associação Xique-Xique) que preservam técnicas de tecelagem padronizada e manual cooperativa em galpões domésticos.[10] [8]
- Várzea Grande (Mato Grosso): Na comunidade de Limpo Grande é confeccionada a "Rede Cuiabana", ofício com raízes na etnia indígena Guaná. O tecido é produzido em teares verticais (urdidos de baixo para cima), resultando em uma lona espessa sem avesso. As peças recebem bordados com ícones do Pantanal (como o tuiuiú).[11]
Design de superfície e inovações têxteis
No âmbito do design industrial e de superfície, a rede de dormir tem sido objeto de análises morfológicas e renovações visuais que valorizam a identidade local. Na Paraíba, padronagens são elaboradas utilizando sistemas geométricos baseados em translação, reflexão e rotação de módulos.[12] Projetos contemporâneos buscam incorporar elementos da arquitetura nordestina na trama dos fios, a exemplo do uso das formas sinuosas das platibandas das casas do Art déco sertanejo para nortear a confecção em macramê das varandas da rede.[12]
A cadeia produtiva também tem incorporado o ecodesign. A transição para a sustentabilidade, como o uso de algodão naturalmente colorido, pigmentações orgânicas e materiais sintéticos reciclados (fios originados de garrafas PET), possibilita não só a preservação ambiental como também a agregação de valor mercadológico ao artefato tradicional.[12]
Uso terapêutico e hospitalar
Além de sua utilidade residencial primária, a rede de descanso tem sido objeto de estudos e adaptações na área de saúde, notadamente em práticas de Enfermagem e fisioterapia biomecânica. Pesquisadores apontam o uso das tramas na prevenção de lesões por pressão (escaras) em pacientes adultos acamados, visto que o tecido flexível viabiliza uma melhor distribuição do peso e alívio do atrito em comparação à rigidez de colchões hospitalares tradicionais.[13]
No cenário pediátrico, Unidades de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) implementaram ativamente o uso das "redes de posicionamento". A prática consiste em acomodar bebês prematuros no interior de incubadoras utilizando versões miniaturizadas do artefato (as chamadas minirredes). O formato pendular e o limite espacial do tecido mimetizam o ambiente intrauterino materno, promovendo aos recém-nascidos uma organização postural adequada, conservação de energia, melhora nos sinais vitais e notória redução do estresse durante o período de hospitalização.[14] [9]
Comercialização e tipologia digital
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Com a expansão do comércio eletrônico global, o mercado digital segmentou as redes em três tipos principais: a multicordal (estilo tradicional sul-americano, de algodão); a rede com barras (dotada de hastes rígidas nas extremidades que forçam a abertura do pano, comum em jardins norte-americanos); e a unicordal tática (feita de material sintético levíssimo, como o náilon ripstop, voltada ao campismo e aventuras).[2]
A publicidade em lojas virtuais utiliza frequentemente o termo em inglês hammock como padrão de busca e não promove a rede apenas como um móvel utilitário, mas associa o artefato a experiências simbólicas de escape da rotina metropolitana, relaxamento terapêutico e contato direto com a natureza.[2]
Ver também
Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 CASCUDO, Luís da Câmara. Rede de dormir: uma pesquisa etnográfica. 1.ª ed. São Paulo: Global, 2012.
- 1 2 3 4 5 6 7 GONZÁLEZ, Juan Sebastián Restrepo. Ao vaivém do ócio: circulação e tradução da rede de dormir no comércio eletrônico. Dissertação (Mestrado em Lazer) - UFMG, Belo Horizonte, 2017.
- 1 2 3 4 5 6 7 FONSECA, Raphael do Sacramento. Construções do Brasil no vaivém da rede de dormir. Tese (Doutorado em História da Arte) – UERJ, Rio de Janeiro, 2016.
- 1 2 3 LIMA, Edney Araujo. Os saberes etnomatemáticos dos tecelões de redes de dormir de Jaguaruana/CE. Dissertação (Mestrado) - UFRN, Natal, 2019.
- 1 2 3 4 5 DANTAS, Jefferson Fernandes. MAMUCABAS, TEARES E FIOS: a produção têxtil de rede de dormir como identidade. Dissertação (Mestrado) - UFOPA, Santarém, 2023.
- 1 2 CARNEIRO, Rosalvo Nobre; DE SÁ, Alcindo José. As multiterritorialidades dos centros produtores de redes de dormir da região nordeste brasileira. Revista de Geografia, Recife, 2007.
- 1 2 CUNHA, Elisa Ribeiro Alvares da. Famílias do ramo de rede: tecelagem, negócio e viagem no sertão da Paraíba e do Rio Grande do Norte. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) - UFRJ, Rio de Janeiro, 2006.
- 1 2 SOUSA, Michely Maria Vieira. Uma etnografia da produção de redes de dormir na Comunidade Taboado de Cima no Município de Boqueirão-PB. TCC - UFCG, Sumé, 2024.
- 1 2 3 4 SOUSA, Beatriz de Jesus. Mulheres que tecem histórias: uma abordagem sobre a produção da renda.... Especialização, UFMA, 2006.
- ↑ AMARAL, Ivanilda Teixeira do. A REDE NOSSA DE CADA DIA: um estudo de caso sobre a rede de dormir artesanal na Associação Xique-Xique em Pedro II-Piauí. Dissertação - UFPI, 2017.
- ↑ SOUZA, Laurenice Lopes de et al. CARTOGRAFIA DOS LUGARES DE RESISTÊNCIAS DOS MODOS DE FAZER DA REDE DE DORMIR: REDEIRAS DE VÁRZEA GRANDE (MT). Artigo Acadêmico, 2020.
- 1 2 3 MEDEIROS, Gabrielly Alves de. Paraíba em tramas: design de superfície para redes de dormir. TCC (Bacharelado em Design) - UFCG, Campina Grande, 2022.
- ↑ RAMOS, Ricardo Luiz et al. Rede de Dormir: contribuições para prevenção de lesões por pressão. Anais do 13º Congresso Internacional da Rede Unida. Suplemento, 2018.
- ↑ RIBAS, C. G. et al. Efeitos da rede de posicionamento nos recém-nascidos pré-termo: uma revisão sistemática. Artigo Científico, 2018.
Bibliografia
- CASCUDO, Luís da Câmara. Rede de dormir: uma pesquisa etnográfica. 1.ª ed. São Paulo: Global, 2012.
- FONSECA, Raphael do Sacramento. Construções do Brasil no vaivém da rede de dormir. Tese (Doutorado em História da Arte) – UERJ, Rio de Janeiro, 2016.
- GONZÁLEZ, Juan Sebastián Restrepo. Ao vaivém do ócio: circulação e tradução da rede de dormir no comércio eletrônico. Dissertação (Mestrado em Lazer) - UFMG, Belo Horizonte, 2017.