Rei Momo

Rei Momo do Carnaval de Florianópolis. 2005

Rei Momo é um personagem da mitologia grega que se tornou um símbolo do Carnaval em alguns países da América Latina, incluindo Brasil e Colômbia.

Mitologia

Na mitologia grega, Momo (Reclamação) era uma das filhas que a deusa Nix, personificação da noite, teve sem um pai,[1] ou com Érebo.[2]

Momo foi escolhida para julgar qual deus, dentre Zeus, Poseidon e Atena, poderia fazer algo realmente bom. Zeus fez o melhor dos animais, o Homem, Atena fez uma casa para as pessoas morarem, e Poseidon fez o touro. Momo, então, que ainda vivia entre os deuses e tinha o hábito de não gostar de nada, criticou o touro porque não tinha olhos em baixo dos chifres que o permitissem mirar os seus alvos quando ele fosse dar uma chifrada, o homem por não ter uma janela no seu coração para que o seu semelhante pudesse ver o que ele estava planejando, e a casa porque ela não tinha rodas de ferro na sua base para que ela fosse movida.[3]

História

O Rei Momo parece ter surgido em Espanha, sob a forma de um boneco que se queimava, como forma de suavizar um costume antigo mais brutal, simbolizando a morte de Jesus Cristo propiciadora da sua ressurreição.[4]

Surge na literatura espanhola já no século XVI, na obra de 1553, "El Momo. La moral y muy graciosa historia del Momo: compuesta en latín y trasladada al castellano por Agustín de Almacan. En Alcalá de Henares". Correm então várias historietas sobre esta personagem burlesca.[5] A novela picaresca espanhola La pícara Justina, publicada pela primeira vez em 1605 em Medina del Campo, alude ao Rei Momo, parodiando-o como Rey Mono, ou seja, Rei Macaco: "Ya guisa del rey Mono, hizo su trono", e "Hizo de las capas un trono imperial, poniendo por respaldar dos desaforados cuernos, parecía rey Mono puramente."[6] Salas Barbadillo volta a recolher esta tradição e personagem em 1627, na sua obra Estafeta del rey Momo.[5]

Esta figura apareceu em 1888 no Carnaval de Barranquilla, na Colômbia, como vestígio do Rei Burlesco[nota 1] da Antiguidade, sob a forma de uma personagem alegre e foliona que substitui o antigo Rei Momo, a qual era coroada nos salones burreros de Barranquilla[nota 2]. Este concedia a licença que autorizava a desordem carnavalesca[nota 3] com bombos, pratos e maracas, parodiando o cerimonial solene dos ministreis do Palácio que outrora saíam nos tempos coloniais à praça pública a ler os éditos dos vice-reis. Os costumes de nomear o Rei Momo ainda continua até os dias de hoje em Barranquilla, e o rei deve caracterizar-se pela sua permanente alegria e simpatia, estando encarregue de organizar o Desfile del Sur na calle 17 da cidade.[7]

Pela mesma época o enterro do Rei Momo era festejado no Carnaval de Montevideu, sendo-lhe dedicadas quadras, como esta de 1892: "El Rey Momo ya murió / lo llevamos a enterrar / envuelto en una mortaja / de ajo, pimienta y sal...".[8] Esta figura substitui na abertura dos corsos carnavalescos o clássico espanhol Marqués de las Cabriolas.[9]

Rei Momo no Carnaval do Rio de Janeiro

Durante muito tempo o Rei Momo fez parte do Carnaval carioca, como de outros carnavais, sem no entanto incorporar uma figura específica.[10]

Em 1910 o palhaço negro Benjamim Oliveira personificou o Rei Momo, pela primeira vez no Rio de Janeiro, numa actuação do Circo Spineli.[11]

A figura actual do Rei Momo carioca terá surgido em 1933, quando Edgard Pilar Drumond, também conhecido por Plamenta, cronista carnavalesco, juntamente com o jornalista Vasco Lima e outros jornalistas do jornal A Noite, criaram um boneco de papelão a que chamaram Rei Momo I e Único, esculpido pelo artista Hipólito Colomb.[12]

Marcelo Reis, Rei Momo do Carnaval Carioca de 2005

Em 1934,[11] o jornal decidiu passar o rei para carne e osso, sendo consenso que devia ser alguém alegre, bonacheirão, bem falante e com cara de glutão, uma visão peculiar do Rei Momo e diversa da de carnavais como o de Nice, Nova Orleães e Colônia. O eleito foi Moraes Cardoso, cronista de turfe na redacção do mesmo jornal, que prontamente concordou. Pedida a opinião ao maestro Sílvio Piergilli do Teatro Municipal sobre a indumentária do futuro rei, este, ao saber o físico do escolhido, não teve dúvidas em entregar a vestimenta do Duque de Mântua, personagem da ópera de Verdi, Rigoletto. E assim, entre os gritos de saudação de "Vive le Roy!" e "Evoé Momo!" de repórteres, linotipistas, contínuos e faxineiros, comandados por Pilar Drumond, nascia para o Rio de Janeiro o primeiro Rei Momo genuinamente carioca. Não é claro se os dois Reis Momos - o de papelão e o de carne e osso - chegaram a coexistir no mesmo Carnaval.[10]

Moraes Cardoso foi coroado como rei do Carnaval por quase 15 anos, de 1934 a 1948. Até ao seu falecimento, participou dos desfiles carnavalescos onde era ovacionado com muitas serpentinas e confetes, além de sempre ser cumprimentado com um "Vive le Roi!" (Viva o Rei, em francês), tanto pelos amigos de redação quando pelos foliões. A partir daí, a escolha do rei do Carnaval foi feita por entidades carnavalescas e jornalísticas, uma vez que a presença do rei havia virado tradição entre os foliões. Uma lei estadual de 1968 oficializou a eleição.

A importância do Rei Momo para a cidade do Rio de Janeiro pode ser atestata pelo fato de vários prefeitos, nos primeiros dias do carnaval, entregarem as chaves da cidade ao Rei Momo, como se, a partir deste momento, quem governasse a cidade não fosse mais o prefeito, mas o Rei Momo.[13][14][15]

Lista de Rei Momos vencedores no Rio de Janeiro

Rei Momo em Santos

Rei Momo Waldemar, hoje, recebe a visita da Rainha Andréa (Carnaval 1989). Foto de dezembro 2008

Desde 1950 começou ser conhecida a figura do Rei Momo também no Carnaval de Santos com Waldemar Esteves da Cunha (1920-2013), que foi Momo da Cidade até 1990, e até sua morte foi o mais velho Rei Momo vivente de todo o Brasil.

Rei Momo hoje

Hoje existe concurso para a escolha do Rei Momo em vários estados do Brasil. Para participação do certame é preciso ser muito simpático e esbanjar alegria, além de pesar no mínimo 120 quilos. Esta última exigência vem sendo abandonada nos últimos anos, considerando-se os problemas de saúde causados pela obesidade.

Ver também

Notas

  1. ↑ Rey de Burlas no original, no mesmo sentido que mascararam Jesus de rei quando o julgaram.
  2. ↑ salones burreros eram espaços onde, em tempos antigos, a população de Barranquilla se reunia para festejar o Carnaval.
  3. ↑ guachafita no original

Referências citadas

  1. ↑ Hesíodo, Teogonia, 211ff
  2. ↑ Cícero, De Natura Deorum, 3.17
  3. ↑ Esopo, Fábulas, 518
  4. ↑ Revista Bigott, 41-44, C.A. Cigarrera Bigott, Sucs., 1997, p. 21
  5. 1 2 Ferreras, Juan Ignacio (2009), La novela en España: historia, estudios y ensayos, ISBN 9788492492176, Biblioteca del Laberinto, p. 203
  6. ↑ Francisco López de Úbeda, Bruno Mario Damiani, Andrés Pérez (1982), La pícara Justina, ISBN 9780935568363, José Porrúa Turanzas, p. 194 (nota 504)
  7. ↑ Anuário UNESCO/UMESP de comunicação regional, 3–4, UNESCO, 1999, p. 175
  8. ↑ Alfaro, Milita (1991), Carnaval y modernización : impulso y freno del disciplinamiento (1873-1904), ISBN 9789974321779, Ediciones Trilce, p. 86
  9. ↑ Aínsa, Fernando (2002), Del canon a la periferia: encuentros y transgresiones en la literatura uruguaya, ISBN 9789974322929, Trilce, p. 43
  10. 1 2 Costa, Haroldo (2000), Cento anos de carnaval, ISBN 8574071161, Irmãos Vitale, p. 153
  11. 1 2 Pinheiro, Marlene M. Soares (1996), Sob o signo do carnaval, ISBN 9788585596491, Annablume, p. 92-94
  12. ↑ Memória do carnaval, ISBN 8585386010, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 1991, p. 374
  13. ↑ Artigo: O Rei Momo do Carnaval[ligação inativa], site do jornal O Dia
  14. ↑ Eduardo Paes entregou as chaves da cidade ao Rei Momo em 2010
  15. ↑ César Maia entregou as chaves da cidade ao Rei Momo em 1996
  16. ↑ Terra (20 de fevereiro de 2004). «Rei Momo magro inicia reinado no Rio de Janeiro». Consultado em 19 de setembro de 2013
  17. ↑ Carnavalesco. «Para Rei Momo, sambista não pode mais ser visto como alguém 'que não quer nada'»
  18. ↑ G1 (9 de novembro de 2013). «Rainha e Rei Momo do carnaval 2014 do Rio são eleitos». 00h15. Consultado em 9 de novembro de 2013
  19. ↑ G1. «Rei Momo do Rio entre 2014 e 2016, Wilson Neto volta ao trono da folia». Consultado em 26 de janeiro de 2019
  20. ↑ G1. «Rio elege Rei Momo, Rainha e Princesas do carnaval de 2020». Consultado em 12 de janeiro de 2020
  21. ↑ https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/carnaval/2023/noticia/2022/12/17/conheca-a-corte-do-carnaval-de-2023-do-rio-de-janeiro.ghtml

Ligações externas