Retículo

O retículo ou barrete representa o segundo compartimento do complexo sistema digestivo dos ruminantes, como bovinos, ovinos e caprinos, desempenhando um papel crucial na fisiologia da digestão e na separação mecânica de partículas alimentares. Estruturalmente, situa-se na porção cranial do estômago composto, encontrando-se intimamente ligado ao rúmen, razão pela qual ambos são frequentemente referidos como o complexo retículo-rúmen devido à livre circulação de quimo entre estas duas câmaras. A característica mais distintiva do retículo é a sua morfologia interna, composta por uma mucosa que se projeta em pregas laminares formando células poligonais que se assemelham a um favo de mel, uma adaptação evolutiva que aumenta significativamente a área de superfície e auxilia na retenção de partículas grosseiras que necessitam de mais tempo para a fermentação microbiana ou que devem ser reencaminhadas para o processo de ruminação.[1][2][3][4]
No que concerne à funcionalidade motora, o retículo executa contrações bifásicas rítmicas que são essenciais para a mistura do conteúdo ingerido e para a expulsão de gases através da eructação, além de ser o principal responsável pela seleção de partículas que estão prontas para passar ao omaso. Durante o ciclo de contração, as partículas menores e mais densas são impulsionadas através do orifício reticulo-omasal, enquanto as fibras mais longas e menos digeridas são retidas ou forçadas de volta ao rúmen para posterior degradação. Adicionalmente, o retículo serve como local de passagem para o sulco reticular, uma estrutura muscular presente em animais jovens que permite que o leite ingerido ignore o ambiente fermentativo do rúmen e do retículo, seguindo diretamente para o abomaso para uma digestão enzimática eficiente, prevenindo assim fermentações indesejadas que poderiam prejudicar o desenvolvimento do vitelo ou do cordeiro.[5][6]
Do ponto de vista clínico e veterinário, a localização anatómica do retículo, posicionado imediatamente atrás do diafragma e em proximidade com o coração, torna-o particularmente vulnerável à reticuloperitonite traumática, vulgarmente conhecida como «doença do prego». Este fenómeno ocorre quando o animal ingere acidentalmente objetos metálicos pontiagudos, como pedaços de arame ou pregos, que se depositam no fundo do retículo devido à sua densidade e, através das fortes contrações musculares do órgão, podem perfurar a parede reticular e atingir o peritónio ou mesmo o saco pericárdico. Para prevenir esta condição, é prática comum a administração de ímanes permanentes por via oral, que se fixam no retículo e capturam fragmentos ferrosos antes que estes possam causar lesões graves, demonstrando como a gestão da saúde destes animais depende do conhecimento profundo desta câmara gástrica especializada.[7][8]
Referências
- ↑ «Digestão dos ruminantes. Como ocorre a digestão dos ruminantes?». Mundo Educação. Consultado em 13 de julho de 2019
- ↑ Vasconcellos, Paulo Mario BacariÇa (1977). Guia prático para o fazendeiro. [S.l.]: NBL Editora. ISBN 9788521301516
- ↑ al, K. M. Dyce et (8 de julho de 2011). Tratado de anatomia veterinária 4/E. [S.l.]: Elsevier. ISBN 978-85-352-3672-9
- ↑ König, Horst Erich (7 de junho de 2021). Anatomia dos animais domésticos: texto e atlas colorido. Hans-Georg Liebich, Régis Pizzato, Luciana Silveira Flôres, Jurema Salerno Depedrini 7 ed. Porto Alegre, RS: Artmed. ISBN 978-65-5882-022-2
- ↑ Klein, Bradley G. (17 de maio de 2022). Cunningham Tratado De Fisiologia Veterinária 6 ed. RIO DE JANEIRO, RJ: Grupo Gen. ISBN 978-85-9515-779-8
- ↑ Dukes- fisiologia dos animais domésticos. [S.l.]: Editora Guanabara Koogan Ltda. 29 de agosto de 2016. ISBN 978-85-277-3125-6
- ↑ «Exame Clínico e Diagnóstico em Veterinária de Doreen M. Houston, I.G. Mayhew e Otto M. Radostits - Livro - WOOK». www.wook.pt. Consultado em 1 de maio de 2026
- ↑ Large Animal Internal Medicine (em inglês). [S.l.: s.n.] 25 de junho de 2019. ISBN 978-0-323-55445-9. Consultado em 1 de maio de 2026