Romance com Cocaína

Romance com Cocaína
Роман с кокаином
Capa da primeira edição
Autor(es)M. Ageyev
IdiomaRusso
País França
GêneroBildungsroman
Lançamento1934

Romance com Cocaína (em russo: Роман с кокаином, transl. Roman s kokainom, também traduzido como Um Romance com Cocaína e Romance com Cocaína: Memórias de um Doente), é um romance primeiro publicado em 1934 em uma revista literária emigrante russa, Chisla (Números)[1] sob o pseudônimo M. Ageyev. A tradução para o inglês do título falha em transmitir o duplo significado do russo "Роман", que significa "novela" e "romance".

Dmitry Merezhkovsky e outros críticos emigrados viram em Romance com Cocaína uma continuação polêmica dos temas do romance O Adolescente de Fiódor Dostoiévski.[2][3][4]

Descrição

Romance com Cocaína é um romance psicológico de ideias de Dostoiévski, que explora a interação entre psicologia, filosofia e ideologia em seu retrato franco do vício em cocaína de um adolescente. A história relata as experiências formativas do narrador Vadim na escola e com as mulheres antes de se voltar para o abuso de drogas e as reflexões filosóficas que isso suscita.[5] Embora Ageyev faça poucas referências explícitas à Revolução Russa de 1917, a obsessão do romance por formas viciantes de pensamento encontra ressonância no pano de fundo histórico, no qual "nossos sentimentos inatos de humanidade e justiça" provocam "as crueldades e transgressões satânicas cometidas em seu nome".[5]

Enredo

A narrativa de sua vida escolar, começando aos 15 anos e continuando até seus primeiros anos na Universidade de Moscou, é contada por um narrador não confiável, Vadim Maslennikov. O jovem tem uma alta opinião de si mesmo, vangloria-se de seu domínio da língua, é arrogante e despreza aqueles ao seu redor. As ações que ele descreve são imorais: ele não hesita em roubar, levanta a mão contra a mãe, apaixona-se por uma garota inocente e a infecta friamente com sífilis. Ao mesmo tempo, ele se sente atraído por uma colega de classe que prega o pacifismo durante a Primeira Guerra Mundial e que mais tarde se junta aos bolcheviques.

O jovem decadente deleita-se em sua depravação e, simultaneamente, sofre com a culpa. Sentindo um vazio interior, Vadim torna-se viciado em cocaína. Ele passa cada vez mais tempo em visões induzidas por drogas e refletindo sobre sua vida. Com o início da Guerra Civil, a decadência moral de Maslennikov continua. Um dia, em um sonho, ele corre aterrorizado até sua mãe, a quem recentemente desprezava, mas encontra apenas seu corpo: ela cometeu suicídio. No epílogo, um funcionário do hospital relata como, em janeiro de 1919, Maslennikov, viciado em cocaína, foi internado no hospital, sem que nenhum médico pudesse salvá-lo.

História da publicação

Como Vasily Yanovsky recorda, ele recebeu o manuscrito do romance pelo correio, vindo de Istambul, assinado com o pseudônimo M. Ageyev e intitulado Um Romance com Cocaína.[6] Depois disso, a obra foi publicada no semanário parisiense Vida Ilustrada de 15 de março a 5 de julho de 1934 (nº 1-17). A primeira parte do romance foi então publicada pela revista Números na edição 10 de 1934.[7] A segunda parte não foi publicada, pois a revista foi fechada após a publicação da edição devido a problemas financeiros. Um Romance com Cocaína foi publicado como um livro separado dois anos depois pela Editora da Associação de Escritores de Paris.[8]

Após sua publicação original em Números, o romance foi publicado em forma de livro; foi desprezado como decadente e repugnante, para usar o termo aplicado a ele por Vladimir Nabokov. Em 1983, o romance foi traduzido para o francês e publicado com elogios quase unânimes; uma tradução em inglês (por Michael Henry Heim) foi publicada em 1984. Depois que a tradução francesa foi publicada, houve uma breve especulação nos círculos literários sobre se Romance com Cocaína poderia realmente ser obra de Nabokov, talvez uma de suas mistificações; o consenso agora é que Nabokov não foi o autor. O filho de Nabokov, Dmitri, aborda essa questão em um posfácio de sua tradução para o inglês de 1986 do romance de VN, The Enchanter, no qual ele afirma que o autor é Mark Levi.[9]

Meio século depois, após a publicação de uma tradução francesa em 1983, o romance ganhou renome internacional como um dos livros mais originais e poéticos da comunidade russa emigrada. Traduções para as principais línguas europeias apareceram. Na URSS, foi publicado pela primeira vez na revista Даугава (Daugava) em 1989.[10]

Autoria

Durante muito tempo, a questão da autoria do livro permaneceu sem solução. Em 1985, Nikita Struve sugeriu que o livro foi escrito por Vladimir Nabokov.[11] Isso apesar de, em 1983, Lydia Chervinskaya (em conexão com a edição reimpressa do romance e sua tradução para línguas estrangeiras) ter relatado que a autoria era de Levi, a quem ela conheceu a convite de seus amigos parisienses em 1935. M. Sorokina e G. Superfin finalmente estabeleceram quem estava escondido por trás do pseudônimo "M. Ageyev" em 1994.[12] A publicação das cartas de Mark Levi para Nikolai Otsup em 1997 dissipou as últimas dúvidas: a correspondência continha negociações sobre a publicação do romance, e uma das cartas continha suas frases finais, omitidas do manuscrito e não incluídas em nenhuma publicação.[13]

A autoria de Levi foi confirmada por um relatório do Cônsul Geral da URSS em Istambul, Georgievsky, datado de 22 de abril de 1939, descoberto nos Arquivos de Política Externa. O relatório foi submetido ao Comissariado do Povo para Assuntos Exteriores em conexão com a petição de Mark Levi para restaurar sua cidadania soviética. Na época, Levi era responsável pelos departamentos russo e alemão da filial de Istambul da editora francesa Librerie Hachette, que colaborava com a Missão Comercial da URSS. Segundo Levi, Romance com Cocaína é descrito no relatório como "um livro inofensivo; não contém uma única palavra dirigida contra a URSS e, em geral, é uma obra forçada, escrita para sua própria existência".[14]

Entretanto, Vasily Semenovich Yanovsky também é um possível autor e organizador desta farsa.[15]

O título do livro provavelmente é um trocadilho com o gênero ao qual pertence: um roman à clef.[12] Ele difere de outros livros desse gênero pelo fato de o autor praticamente não alterar os nomes dos protótipos de seus personagens.[16] Os nomes dos colegas de classe do protagonista (Vasily Burkevits, Aisenberg, Takadzhiev) coincidem com os nomes dos colegas de Mark Levi no Ginásio Kreyman, que, assim como o próprio autor, continuaram seus estudos na faculdade de direito da Universidade de Moscou.[12] Os nomes dos professores mencionados no romance também são reais.[12] Os antigos gêneros do roman à clef e do picaresco, reinterpretados no contexto da modernização da década de 1920, tornaram-se definidores da literatura russa da época.

Adaptações

Em 2011, Gennady Sidorov fez um filme baseado no livro Romance com Cocaína, ambientado no século XXI. Os papéis principais foram interpretados por Igor Trif e Ksenia Sobchak.[17]

Traduções em inglês

  • Novel with Cocaine, traduzido por Michael Henry Heim, 1984
  • A Romance with Cocaine, traduzido por Hugh Aplin, 2008

Censura

Em dezembro de 2025, o regime de Lukashenko adicionou o livro à Lista de publicações impressas contendo material informativo cuja distribuição poderia prejudicar os interesses nacionais da Bielorrússia.[18]

Referências

  1. ↑ Boon, Marcus (2002). The Road of Excess: A History of Writers on Drugs. Cambridge, MA: Harvard University Press. 187 páginas
  2. ↑ «Классика: Мережковский Дмитрий Сергеевич. Критика и эссеистика». Consultado em 28 de maio de 2020. Cópia arquivada em 7 de maio de 2020
  3. ↑ Царство Антихриста - Дмитрий Сергеевич Мережковский - Google Books
  4. ↑ В. М. Димитриев. Подросток Вадим Масленников: О полемике с Ф. М. Достоевским в «Романе с кокаином» М. Агеева. // Летняя школа по русской литературе. 2018. Т. 14. № 2-3. С. 295-310.
  5. 1 2 Eloi, William Lima (4 de fevereiro de 2020). «Por onde andará M. Aguéiev?». Mundo de Livros. Consultado em 10 de maio de 2023
  6. ↑ Яновский В. С. (1983). Поля Елисейские. Книга памяти. Нью-Йорк: Серебряный век
  7. ↑ Агеев М. «Повесть с кокаином (По запискам больного)», 1-я часть. Числа, 1934, № 10. С. 31—69.
  8. ↑ Ксения Рагозина. (23 de março de 2000). «Детектив с романом». РЖ. Consultado em 28 de maio de 2020. Cópia arquivada em 8 de junho de 2020
  9. ↑ Nabokov, Vladimir V. (1991). The Enchanter (em inglês). [S.l.]: Vintage Books. ISBN 978-0-679-72886-3. Cópia arquivada em 15 de maio de 2023
  10. ↑ Михаил Болотовский. (29 de julho de 2011). «Жестокий роман». Наш Техас. Consultado em 5 de agosto de 2011. Arquivado do original em 1 de fevereiro de 2013
  11. ↑ Струве Н. Спор вокруг Набокова и «Романа с кокаином» // Вестник РХД. 1986. № 146.
  12. 1 2 3 4 Сорокина М. Ю., Суперфин Г. Г. «Был такой писатель Агеев…»: Версия судьбы, или О пользе наивного биографизма // Минувшее: Исторический альманах. Вып. 16. М.; СПб.: Феникс-Атенеум, 1994. С. 265—289; 2-е изд.: Леви М. Роман с кокаином. М.: Согласие, 1999. С. 255—291.
  13. ↑ Роман Тименчик. (2008). «Супер». Звезда № 9. Consultado em 22 de janeiro de 2010. Cópia arquivada em 28 de abril de 2015
  14. ↑ Лев Аннинский. (2000). «Загадочный Агеев». Дружба народов № 4. Consultado em 27 de janeiro de 2013. Cópia arquivada em 25 de outubro de 2013
  15. ↑ Завьялов В.н,, Тюрин П.м (2025). Кто вы, доктор Яновский? (об атрибуции 'Романа с кокаином') (em russo) 9 ed. [S.l.: s.n.] pp. 1–17. ISSN 2454-0749. doi:10.7256/2454-0749.2025.9.75742. Cópia arquivada em 10 de dezembro de 2025
  16. ↑ Что объясняется как безвестностью этих прототипов, так и обстоятельствами публикации — на другом конце континента, где вероятность их знакомства с текстом представлялась минимальной.
  17. ↑ [www.kino-teatr.ru/kino/movie/ros/92083/annot/ «Роман с кокаином»] на сайте kino-teatr.ru
  18. ↑ «У Беларусі забаранілі навуковую кнігу па гісторыі БНР». Nasha Niva (em bielorrusso). 29 de dezembro de 2025. Cópia arquivada em 22 de fevereiro de 2026

Ligações externas