Sumano

Sumano (em latim: Summānus), na religião romana antiga, era o deus do raio noturno, como contraposto a Júpiter, o deus do raio diurno.[1] Sua natureza precisa não estava clara nem mesmo para Ovídio.[2]

Plínio, o Jovem acreditava que a divindade era de origem etrusca e um dos nove deuses do trovão. Varrão, no entanto, classifica Sumano entre os deuses que ele considera de origem sabina, a quem o rei Tito Tácio dedicava altares (aras) em consequência de um voto.[3] Paulo Diácono considera-o um deus do raio.[4] Acredita-se que o nome Summanus venha de Summus Manium, "o maior dos Manes".[5]

De acordo com Marciano Capela,[6] Sumano é outro nome para Plutão como o "maior" (Summus) dos Manes. Esta identificação é retomada por autores posteriores, como Camões ( "Se lá no reino escuro de Sumano...")[7] e John Milton, em um símile para descrever a visita de Satanás a Roma: "Exatamente assim Sumano, envolto em um turbilhão de fumaça de chama azul-celeste, cai sobre as pessoas e as cidades".[8]

Georges Dumézil argumentou que Sumano representaria o elemento estranho, violento e inspirador dos deuses da primeira função, ligada à soberania celestial. O duplo aspecto do poder soberano celestial seria refletido na dicotomia Varuna-Mitra na religião védica e na dicotomia Sumannus-Dius Fidius em Roma. Os primeiros deuses destes pares encarnavam o aspecto noturno, violento e misterioso da soberania, enquanto os segundos refletiam a reconfortante luz do dia e o aspecto legalista.[9]

Templo e culto

O templo de Sumano foi dedicado durante a Guerra Pírrica em 20 de junho de 278 a.C.[10][11] A estrutura se apresentava no oeste do Circo Máximo, talvez na encosta do Monte Aventino. Parece que o templo tenha sido dedicado a Sumano porque a estátua do deus que estava no telhado do templo de Júpiter Capitolino tinha sido atingida por um raio.[12] A cada 20 de junho, um dia antes do solstício de verão, bolos redondos chamados de sumanália, feitos de farinha, leite e mel e em forma de rodas,[13] eram oferecidos ao deus como um símbolo de propiciação: a roda pode ser um símbolo solar.[14] Na data, em anos específicos do calendário de Numa, podia coincidir de a lua nova se encontrar oculta abaixo da Terra, ou de a Lua repetidamente parecer que estava caindo do céu: por isso, há quem proponha que o deus possa também ter tido associação com a Lua, em competição com o Sol.[15] Sumano também recebia um sacrifício de dois bois ou bodes negros. Animais escuros eram normalmente oferecidos às divindades ctônicas.[14] Os Acta Arvalia registram um sacrifício feito ao deus de dois carneiros negros castrados.[16]

Santo Agostinho registrou que em épocas anteriores Sumano era mais adorado do que Júpiter, mas com a construção de um templo que era mais magnífica do que a de Sumano, Júpiter tornou-se mais honrado.[17]

Cícero relata que a estátua de barro do deus que estava no telhado do Templo de Júpiter Capitolino foi atingida por um raio e perdeu a cabeça. Os arúspices anunciaram que a parte da estátua que faltava tinha sido arremessada no rio Tibre, onde, de fato, foi encontrada no local indicado por eles.[18] Lívio atribuiu o arremessamento do raio ao próprio Júpiter.[19] O próprio templo de Sumano foi atingido por um raio em 197 a.C.[20]

Sua posição começou a ser relegada cada vez mais à inferioridade frente à estatura dos outros deuses. Depois de estar totalmente associado à noite e à escuridão, do século III em diante era considerado um deus do submundo. Surgiu também uma nova etimologia para seu nome: sub-manus, "antes da manhã".[16] Já foi também apontado que o substantivo mănus ("mão") pode evocar o significado de surrupiar e torna possível a sua associação como um deus dos ladrões. Houve acadêmicos que o identificaram com o deus Noturno (Nocturnus) citado por Plauto em seu poema: nele, o poeta também cunhou o verbo summano, em referência ao deus, mas também baseando-se no verbo mano, "manar", "molhar", o que possivelmente indica a embriaguez noturna ou o orvalho e geada causados pela Estrela D'Alva. Assim, já foi proposta também a sua identificação com Lucifer (Vênus), devido à conotação de o deus antecipar a luz da manhã e, como raio noturno, poder representar o segundo elemento mais brilhante no céu noturno (após a Lua), o que também equivale à função iluminadora e acompanhante do Sol vista na Estrela D'Alva.[21] Lucrécio, quando descreve o céu estrelado amanhecendo, traz como uma das possibilidades aquela de a abóbada matinal (summania templa) ter alguma função no movimento do éter: Passim per caeli uoluunt summania templa (Por todos os céus, as regiões sumanas [matinais/do céu noturno trovejante] giram).[22][21] Arnóbio identificou Sumano com Dis Pater e um templo parecia também intercambiá-los. Após o estabelecimento da tríade capitolina, embora tenha sido emancipado e ganhou independência como divindade (o que indica alguma popularidade), ele passou por sucessivo declínio.[16]

Ver também

Referências

  1. ↑ Paulus Festi epitome p.188 L 2nd.
  2. ↑ "The temple is said to have been dedicated to Summanus, whoever he may be" (quisquis is est, Summano templa feruntur): Ovid, Fasti 6, 731. Translation by James G. Frazer, Loeb Classical Library. Plínio, o Velho mentie temple at Natural History 29.57 (= 29.14).
  3. ↑ Varro Lingua Latina V 74.
  4. ↑ Entrada sobre Dium.
  5. ↑ Summanus Arquivado em 20 de março de 2008, no Wayback Machine..
  6. ↑ Marciano Capela, De nuptiis 2.164.
  7. ↑ Os Lusíadas, IV, 33
  8. ↑ No poema latino "In Quintum Novembris" (lines 23–24): Talibus infestat populos Summanus et urbes / cinctus caeruleae fumanti turbine flammae.
  9. ↑ Dumézil, Georges (1948). Myth et epopée vol. III, parte 2, cap. 3; Mitra-Varuna: essai sur deux representations indoeuropeennes de la souverainetè Paris, 2ª ed; La religion romaine archaïque Paris, 1974; Tr. it. Milão, 1977 p. 184
  10. ↑ Ovid fasti VI 729-731; Fasti Esquil., Venus., Amit.: ad XII Kal. Iul.; CIL I 2nd p. 211, 221,243, 320
  11. ↑ Plínio, o Velho Nat. Hist. XXIX 14; Livy Periochae XIV. Orlin, Eric M., "Foreign Cults in Republican Rome: Rethinking the Pomerial Rule", Memoirs of the American Academy in Rome, Vol. 47 (2002), p. 5.
  12. ↑ S. Ball Platner, T. Ashby A Topographical Dictionary of Ancient Rome Baltimore 1928 p. 408, citing Cicero de Div. I 10; Livy Periochae XIV; Iordanes I 2, 14-15; 98-100
  13. ↑ Festus p.557 L
  14. 1 2 John Scheid, "Sacrifices for Gods and Ancestors", in A Companion to Roman Religion (Blackwell, 2007), p. 264; Raffaele Pettazzoni, "The Wheel in the Ritual Symbolism of Some Indo-European Peoples," in Essays on the History of Religions (Brill, 1967), p. 107.
  15. ↑ Magini, Leonardo (2001). Astronomy and Calendar in Ancient Rome: The Eclipse Festivals (em inglês). [S.l.]: L'ERMA di BRETSCHNEIDER. ISBN 978-88-8265-118-3
  16. 1 2 3 Lipka, Michael (2009). Roman Gods: A Conceptual Approach (em inglês). [S.l.]: BRILL. ISBN 978-90-04-17503-7
  17. ↑ Agostinho, City of God IV 23
  18. ↑ Cicero De Divinatione I 10
  19. ↑ Magini, Leonardo (2001). Astronomy and Calendar in Ancient Rome: The Eclipse Festivals (em inglês). [S.l.]: L'ERMA di BRETSCHNEIDER. ISBN 978-88-8265-118-3. Consultado em 4 de abril de 2026
  20. ↑ Lívio AUC XXXII 29, 1
  21. 1 2 García-Hernández, Benjamín (2010). «Nocturnus y Summanus, dos nombres del lucero del alba». Latomus. 69 (4): 965–980. ISSN 0023-8856
  22. ↑ Fratantuono, Lee (3 de junho de 2015). A Reading of Lucretius' De Rerum Natura (em inglês). [S.l.]: Bloomsbury Publishing USA. ISBN 979-8-8818-8221-1