Teorema de Euclides-Euler

O teorema de Euclides-Euler é um teorema na teoria dos números que relaciona números perfeitos com primos de Mersenne: um número par é perfeito se e somente se apresenta a forma 2p−1(2p − 1), em que 2p − 1 é um número primo. O teorema foi nomeado em homenagem à Euclides e Leonhard Euler, que provaram, respectivamente, o "se" e o "somente se".

Foi conjecturado que há infinitos primos de Mersenne. Apesar de que a validade dessa conjectura nunca tenha sido provada, é equivalente, pelo teorema de Euclides-Euler, a conjectura que alega a existência de infinitos números perfeitos pares. Contudo, também é desconhecido a existência de um único número perfeito ímpar.[1]

Conceitos e exemplos

A soma dos divisores próprios de seis é seis, o que o caracteriza como um número perfeito

Um número perfeito é um número natural que é igual a soma de seus divisores próprios. Por exemplo, o número 6 é igual a soma de seus divisores 1, 2 e 3; logo, é perfeito.[2][3]

Já um número primo de Mersenne Mp é um número primo uma unidade menor que uma potência de dois, isto é, Mp = 2p − 1. Para Mp ser primo, p precisa também ser primo. Porém, nem todo p primo origina um primo de Mersenne.[2] Por exemplo, 23 − 1 = 7, que é primo de Mersenne, mas 211 − 1 = 2047 não é, pois 2047 = 23 × 89.

O teorema Euclides-Euler estabelece que um numero natural par é perfeito se, e somente se, apresentar a forma 2p−1Mp, com Mp como um primo de Mersenne.[1] Assim, o número perfeito 6 vem de , assim 22−1M2, isto é, .

História

Euclides provou que é um número perfeito sempre que é par na seção de teoria dos números de Os Elementos. Euclides expressa os resultados ao analisar a tese de que uma série geométrica finita começando em 1 e com razão 2 tem a soma , sendo um número primo, então esta soma multiplicada pelo último termo da série é um perfeito.[4]

Expressada nesses termos, a soma de uma série finita é o primo de Mersenne , e o último termo é a potência de dois . Euclides, então, prova que é perfeito ao observar que a série geométrica de razão 2, com como o primeiro termo e o mesmo número de termos da outra série, é proporcional a série original. Logo, como a soma da série original é , a segunda série apresenta a soma . As duas séries somadas dão , duas vezes os suposto número perfeito. Contudo, essas duas séries são disjuntas uma da outra e, por ser um número primo pela hipótese, compreendem todos os divisores de . Como tem divisores que somam , a soma dos divisores próprios é exatamente , mostrando que ele é perfeito.[4]

Um milênio após Euclides, Alhazém conjecturou que todo número perfeito seria da forma , com sendo primo, mas não conseguiu provar tal resultado.[5] Foi somente no séxulo XVIII, mais de dois milênios após Euclides,[6] que Leonhard Euler provou que a fórmula apresentaria todos os números perfeitos.[1][7] Além disso, estabeleceu-se uma relação entre os números perfeitos e os primos de Mersenne. Cada primo de Mersenne gera um número perfeito para, e vice-versa. Após a prova de Euclides do teorema Euclides-Euler, outros matemáticos publicaram diferentes provas, incluindo Victor-Amédée Lebesgue, Robert Daniel Carmichael, Wayne L. McDaniel, John Knopfmacher e Leonard Eugene Dickson. Este último, em particular, é comumente utilizado em livros didáticos.[8]

O teorema foi incluído em uma lista na internet de "melhores 100 teoremas matemáticos", de 1999, que posteriormente foi utilizado como um teste benchmark de Freek Wiedjik.[9]

Prova

A prova de Euclides é curta e depende do fato de que a função da soma dos divisores, denominada por , seja multiplicativa, isto é, se e são primos entre si, então . Para essa fórmula ser válida, a soma dos divisores de um número deve incluir ele mesmo, não apenas os divisores próprios. Então, o número é perfeito se, e somente se, a soma dos divisores for o dobro de seu valor.[1]

Todo primo de Mersenne gera um número perfeito par

Quando é primo, . Os divisores de são . A soma dos divisores é uma série geométrica cuja soma é . Como é primo, os únicos divisores dele são e ele mesmo, logo, a soma de seus divisores é . Assim,

.

Portanto, é perfeito.[10][11][12]

Todo número perfeito par é gerado por um primo de Mersenne

Na outra direção, suponha um número perfeito par parcialmente fatorado como , sendo um número ímpar. Para ser perfeito, a soma dos divisores deve ser o dobro de seu valor:

.

O fator ímpar do lado direito da sentença acima deve ser igual ou maior que 3 e deve também dividir , que é o único fator ímpar do lado esquerdo. Logo, é um divisor próprio de . Dividindo os dois lados da sentença pelo fator comum e levando em conta os divisores conhecidos de como o próprio e , temos:

outros divisores outros divisores.

Para a igualdade ser verdadeira, não pode haver outros divisores. Assim, deve ser 1. e deve ser um número primo da forma .[10][11][12]

Referências

  1. 1 2 3 4 Stillwell, John (2010). Mathematics and Its History. [S.l.]: Undergraduate Texts in Mathematics, Springer. p. 40. ISBN 978-1-4419-6052-8
  2. 1 2 Gomes, Alacyr J.; Costa, Eudes A. da; Santos, Ronaldo A. dos (setembro de 2008). «Números Perfeitos e Primos de Mersenne» (PDF). IME - UFG. Revista da Olimpíada (7): 99-111. Consultado em 6 de fevereiro de 2026
  3. ↑ «Na Folha, Marcelo Viana fala sobre números perfeitos». IMPA - Instituto de Matemática Pura e Aplicada. 27 de março de 2024. Consultado em 6 de fevereiro de 2026
  4. 1 2 Euclide; Heath, Thomas (1956). The thirteen books of Euclid's elements 2nd ed., rev. with additions ed. New York: Dover publications. ISBN 978-0-486-60088-8
  5. ↑ «Ibn al-Haytham - Biography». Maths History (em inglês). Consultado em 13 de fevereiro de 2026
  6. ↑ Pollack, Paul; Shevelev, Vladimir (1 de dezembro de 2012). «On perfect and near-perfect numbers». Journal of Number Theory (12): 3037–3046. ISSN 0022-314X. doi:10.1016/j.jnt.2012.06.008. Consultado em 13 de fevereiro de 2026
  7. ↑ Euler, Leonhard (1 de janeiro de 1849). «De numeris amicibilibus». Commentationes arithmeticae collectae: 627–636. Consultado em 13 de fevereiro de 2026
  8. ↑ Cohen, Graeme L. (março de 1981). «65.1 Even perfect numbers». The Mathematical Gazette (em inglês) (431): 28–30. ISSN 0025-5572. doi:10.2307/3617930. Consultado em 13 de fevereiro de 2026
  9. ↑ «Formalizing 100 Theorems». www.cs.ru.nl. Consultado em 13 de fevereiro de 2026
  10. 1 2 Gerstein, Larry J. (5 de junho de 2012). Introduction to Mathematical Structures and Proofs (em inglês). [S.l.]: Springer Science & Business Media. ISBN 978-1-4614-4265-3. Consultado em 13 de fevereiro de 2026
  11. 1 2 «All even perfect numbers are a power of two times a Mersenne prime». t5k.org. Consultado em 13 de fevereiro de 2026
  12. 1 2 Travaglini, Giancarlo (12 de junho de 2014). Number Theory, Fourier Analysis and Geometric Discrepancy (em inglês). [S.l.]: Cambridge University Press. ISBN 978-1-107-04403-6. Consultado em 13 de fevereiro de 2026