Trigona

Trigona
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Arthropoda
Classe: Insecta
Ordem: Hymenoptera
Superfamília: Apoidea
Família: Apidae
Subfamília: Apinae
Tribo: Meliponini
Gênero: Trigona
Jurine, 1807

Trigona é um gênero de abelhas sem ferrão da tribo Meliponini, descrito por Jurine em 1807. As espécies deste gênero ocorrem principalmente na região neotropical, desde o México até a Argentina, com grande diversidade na América do Sul. Espécies de Trigona são conhecidas por seu comportamento defensivo agressivo e pela ausência de ferrão funcional.[1]

Estudos taxonômicos recentes resultaram em revisões no gênero, com a transferência de diversas espécies anteriormente atribuídas a Trigona para outros gêneros da tribo Meliponini.[2]

As espécies de Trigona são altamente eusociais e formam colônias organizadas com divisão de trabalho entre operárias, rainhas e machos. Constroem seus ninhos em cavidades naturais, como troncos de árvores, ou em estruturas protegidas, utilizando uma mistura de cera e resinas vegetais.


Colônia de trigona sp.

Algumas espécies apresentam necrofagia obrigatória, coletando material de animais em decomposição em vez de néctar ou pólen. Esse comportamento é extremamente raro entre as abelhas e se limita a poucas espécies dentro do gênero, como a Trigona hypogea.[3]

Existem diversas espécies do gênero Trigona. Na imagem, uma amostra de três espécies encontradas no Brasil, com diferenças morfológicas visíveis.

Espécies

Até o momento, o gênero possui cerca de 37 espécies válidas, incluindo seis espécies recentemente descritas (2023–2024).[2][4][5][6]

Ilustração Espécie Nome comum Distribuição Autor
Trigona albipennis Bolívia, Brasil, Colômbia e Peru Almeida, 1995
Trigona almeidae Brasil Ribeiro, Nogueira & Oliveira, 2024
Trigona amalthea Jandaíra-preta Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Peru, Suriname, Trinidad e Tobago e Venezuela (Olivier, 1789)
Trigona amazonensis corta-pelo, xupé-grande Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador e Peru (Ducke, 1916)
Trigona branneri topoé-negra, abelha-corta-cabelo Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Suriname e Venezuela Cockerell, 1912
Trigona braueri abelha-cachorro Brasil Friese, 1900
Trigona chanchamayoensis arapuá-amarelo Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador e Peru Schwarz, 1948
Trigona cilipes Bolívia, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Panamá, Peru, Suriname e Venezuela (Fabricius, 1804)
Trigona corvina México, Belize, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras e Panamá Cockerell, 1913
Trigona crassipes Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Peru e Suriname (Fabricius, 1793)
Trigona daianeae Brasil Ribeiro, Nogueira, Oliveira & Oliveira, 2023
Trigona dallatorreana arapuá-vermelho Bolívia, Brasil, Colômbia, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela Friese, 1900
Trigona dimidiata Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador e Peru Smith, 1854
Trigona ferricauda Colômbia, Costa Rica, Equador e Panamá Cockerell, 1917
Trigona fulviventris abelha-cu-de-vaca México, Belize, Brasil, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Panamá Guérin, 1844
Trigona fuscipennis currunchus, mapaitero México, Belize, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Panamá Friese, 1900
Trigona guianae cu-de-vaca-vermelha Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela Cockerell, 1910
Trigona hyalinata guaxupé Bolívia, Brasil e Paraguai (Lepeletier, 1836)
Trigona hypogea Abelha-abutre Bolívia, Brasil, Colômbia e Peru Silvestri, 1902
Trigona juvenili Brasil Ribeiro, Nogueira, Oliveira & Oliveira, 2023
Trigona mandaloriana Brasil Ribeiro, Nogueira, Oliveira & Oliveira, 2023
Trigona muzoensis Muzo Colômbia, Costa Rica, Honduras e Panamá Schwarz, 1948
Trigona necrophaga abelha-carniceira Costa Rica e Panamá Camargo & Roubik, 1991
Trigona nigerrima México, Belize, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guatemala, Honduras e Panamá Cresson, 1878
Trigona pallens olho-de-vidro Brasil, Colômbia, Guiana Francesa, Guiana, Peru e Suriname (Fabricius, 1798)
Trigona pampana Peru Strand, 1910
Trigona pellucida Brasil Cockerell, 1912
Trigona permodica Guiana Francesa, Guiana, Peru e Suriname Almeida, 1995
Trigona recursa feiticeira Bolívia, Brasil, Equador, Guiana e Peru Smith, 1863
Trigona rondoniensis Brasil Ribeiro, Nogueira & Oliveira, 2024
Trigona sesquipedalis Brasil, Guiana Francesa Almeida, 1984
Trigona silveirai Brasil Oliveira, Engel, Rasmussen, Ribeiro & Urban, 2024
Trigona silvestriana México, Belize, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Panamá e Peru (Vachal, 1908)
Trigona spinipes arapuá, irapuá Argentina, Brasil, Colômbia, Guiana, Paraguai e Peru (Fabricius, 1793)
Trigona truculenta sanharão Bolívia, Brasil, Colômbia e Peru Almeida, 1984
Trigona venezuelana Venezuela Schwarz, 1948
Trigona williana Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela Friese, 1900

Ecologia

As abelhas do gênero Trigona (tribo Meliponini) são polinizadores-chave nos ecossistemas tropicais e subtropicais da América, onde desempenham um papel ecológico fundamental semelhante ao das abelhas melíferas.[7] São eusociais, formando colônias perenes com milhares de indivíduos, e contribuem significativamente para a polinização de uma ampla variedade de plantas silvestres e cultivadas.

Habitat e distribuição

O gênero Trigona distribui-se principalmente no Neotrópico, desde o sul do México até o norte da Argentina, incluindo ilhas do Caribe.[8] Habitam florestas tropicais úmidas, selvas, áreas perturbadas, bordas de cultivos e ambientes urbanos. A maioria das espécies nidifica em cavidades preexistentes, como troncos ocos de árvores, fendas em rochas, paredes de construções ou ninhos abandonados de formigas e cupins. Algumas constroem ninhos expostos em ramos ou palmeiras. Os ninhos são elaborados principalmente com cerume (mistura de cera e resinas) e geoprópolis.[9]

Comportamento de forrageamento e polinização

As operárias de Trigona coletam néctar, pólen e resinas. Algumas espécies, como Trigona hypogea, são necrófagas obrigatórias e alimentam-se de matéria orgânica em decomposição, sendo uma das únicas abelhas conhecidas com esse comportamento.[7] Muitas espécies utilizam recrutamento em massa por meio de feromônios para explorar fontes de alimento de forma eficiente. Devido ao seu pequeno tamanho, podem polinizar flores pequenas às quais outros polinizadores maiores não têm acesso, atuando como polinizadores generalistas eficazes em cultivos como abacate, café e melão.[9]

Interações ecológicas

Atuam como competidoras e presas dentro da teia alimentar. Defendem seus ninhos por meio de comportamentos defensivos. Sua atividade favorece a biodiversidade vegetal ao promover a reprodução cruzada de diversas espécies. No entanto, são muito sensíveis à desmatamento, ao uso de agroquímicos e às mudanças climáticas.[7]

Importância para a conservação

Em diversas comunidades da América Latina, espécies de Trigona são tradicionalmente manejadas por meio da meliponicultura, devido à produção de mel, pólen e própolis com usos medicinais. Sua conservação é considerada prioritária, em razão do importante papel que desempenham como polinizadores tanto em ecossistemas naturais quanto em sistemas agrícolas.[8]

Distribuição

As espécies do gênero Trigona ocorrem principalmente na região neotropical, desde o México até a Argentina, incluindo grande diversidade na América Central e América do Sul.[2]

Ver também

Referências

  1. ↑ Camargo, João M. F.; Pedro, Silvia R. M. (2013). Moure, J. S.; Urban, D.; Melo, G. A. R., ed. Meliponini Lepeletier, 1836. Catalogue of Bees (Hymenoptera, Apoidea) in the Neotropical Region. [S.l.]: Sociedade Brasileira de Entomologia
  2. 1 2 3 Moure, Jesus Santiago (2012). Moure, J. S.; Urban, D.; Melo, G. A. R., ed. Catalogue of Bees (Hymenoptera, Apoidea) in the Neotropical Region. [S.l.]: Sociedade Brasileira de Entomologia. Consultado em 27 dezembro 2025
  3. ↑ Serrão, J. E.; da Cruz-Landim, C.; Silva-de-Moraes, R.L.M. (1997). «Morphological and biochemical analysis of the stored and larval food of an obligate necrophagous bee, Trigona hypogea». Insectes Sociaux. 44 (4): 337–344. doi:10.1007/s000400050056
  4. ↑ Oliveira, F.F.; Engel, M.S.; Rasmussen, C.; Ribeiro, C.F.; Urban, D. (2024). «The taxonomic identity of Trigona lacteipennis Friese, 1900 and description of a new bee species of the Trigona cilipes group (Hymenoptera: Apidae: Meliponini)». Zootaxa. 5404 (1): 102–123. doi:10.11646/zootaxa.5404.1.8
  5. ↑ Ribeiro, C.F.; Nogueira, D.S.; Oliveira, F.F.; Oliveira, M.L. (2023). «Review of Trigona (Nostotrigona) Engel, 2021 from Brazil with description of three new species (Hymenoptera: Apidae: Meliponini)». Zootaxa. 5306 (3): 349–366. doi:10.11646/zootaxa.5306.3.3
  6. ↑ Ribeiro, C.F.; Nogueira, D.S.; Oliveira, F.F.; Oliveira, M.L. (2024). «Two new species of Trigona Jurine, 1807 with an illustrated key for the species occurring in Brazil (Hymenoptera: Apidae: Meliponini)». Zootaxa. 5458 (4): 524–546. doi:10.11646/zootaxa.5458.4.3
  7. 1 2 3 GRÜTER, C. Stingless Bees: Their Behaviour, Ecology and Evolution. Springer, 2020. ISBN 978-3-030-60025-9.
  8. 1 2 MICHENER, Charles D. The Bees of the World. 2ª ed. Johns Hopkins University Press, 2007.
  9. 1 2 ROUBIK, David W. Stingless bee nesting biology. Apidologie, v. 37, n. 2, p. 124–143, 2006.

Ligações externas