Vararanes I
| Vararanes I | |||||
|---|---|---|---|---|---|
| Xainxá de arianos e não-arianos | |||||
![]() | |||||
| xá do Império Sassânida | |||||
| Reinado | junho de 271-outubro de 274 | ||||
| Antecessor(a) | Hormisda I | ||||
| Sucessor(a) | Vararanes II | ||||
| Dados pessoais | |||||
| Morte | outubro de 274 | ||||
| |||||
| Dinastia | sassânida | ||||
| Pai | Sapor I | ||||
| Religião | Zoroastrismo | ||||
Vararanes I (em latim: Vararanes; em persa médio: 𐭥𐭫𐭧𐭫𐭠𐭭 Waraḥrān) foi o quarto xainxá do Império Sassânida de 271 a 274. Era o filho mais velho de Sapor I (r. 240–270) e sucedeu seu irmão Hormisda I (r. 270–271), que havia reinado por um ano. O reinado de Vararanes marcou o fim da tolerância sassânida em relação ao maniqueísmo e, em 274, sob a influência do poderoso sacerdote zoroastrista Cartir, ordenou a prisão e execução de Manes. O reinado de Vararanes foi breve e em grande parte sem acontecimentos marcantes. Foi sucedido por seu filho Vararanes II.
Nome
Vararanes[1] ou Veramo (Veramus)[2] são as formas latinas dos teofóricos persa médios Vararã (𐭥𐭫𐭧𐭫𐭠𐭭, Waraḥrān) e Varã (𐭥𐭠𐭧𐭫𐭠𐭬, Waḥrām), que aludem a Veretragna (𐬬𐬆𐬭𐬆𐬚𐬭𐬀𐬖𐬥𐬀, vərəθraγna), o deus iraniano da vitória. Foi registrado em armênio como Varã (Վահրամ, Vahram), Verã (Վռամ Vṙām) e Vaã (Վահան, Vahan; assumida como uma forma abreviada de Vaagênio, a forma armênia do deus Veretragna[3]), em grego como Boanes (Βοάνης, Boánēs), Baanes (Βαάνης, Baánēs), Baranes (Βαράνης, Baránēs), Baânio (Βαάνιος, Baánios), Varrames (Ουαρράμης, Ouarrámēs), Barã (Βάραμ, Báram), Baramo (Βάραμος, Báramos) e Baram(a)anes (Βαραμ(a)άνης, Baram(a)ánēs),[4][5] em georgiano como Barã (ბარამ, Baram)[6] e em persa novo como Barã (بهرام, Bahrām).[5]
Vida
Primeiros anos
.jpg)
Vararanes era o filho mais velho de Sapor I (r. 240–270), o segundo xainxá do Império Sassânida. Tinha três irmãos mais novos: Hormisda-Ardaxir, Narses, e Sapor. Embora fosse o mais velho dos filhos de Sapor, Vararanes estava abaixo de seus irmãos na hierarquia, provavelmente devido à origem humilde de sua mãe: ela era ou uma rainha secundária ou uma concubina.[7][8] Durante o reinado de Sapor, serviu como governador da recém-conquistada região de Guilão, situada na costa sudoeste do mar Cáspio.[9][10] Ele detinha o título de xá do Guilão (Gelan Shah). É mencionado numa inscrição na parede do Cubo de Zaratustra em Nacxe-i Rustão, perto de Persépolis, no sul do Irã, que Sapor mandou gravar para exaltar seus filhos, citando seus nomes e títulos.[10]
Sapor I morreu em 270 e foi sucedido por Hormisda-Ardaxir (conhecido como Hormisda I), que reinou de maio de 270 até sua morte em junho de 271. Vararanes, que nunca fora considerado candidato à sucessão por seu pai, ascendeu ao trono com o apoio do poderoso sacerdote zoroastrista Cartir.[11] Em seguida, fez um acordo com Narses, que aceitou renunciar à sua pretensão ao trono em troca do governo da importante província fronteiriça da Armênia, constantemente palco de conflitos entre os impérios romano e sassânida.[7] Ainda assim, é provável que, apesar desse acordo, Narses continuasse a ver Vararanes como um usurpador.[11]
Reinado
Os xás sassânidas anteriores, incluindo Sapor I, haviam adotado uma política de tolerância religiosa em relação às minorias não zoroastristas do império. Embora admirasse os ensinamentos de sua própria religião e incentivasse o clero zoroastrista, Sapor I permitia que judeus, cristãos, budistas e hindus praticassem livremente suas religiões.[12] Ele também mantinha relações amigáveis com Manes, fundador do maniqueísmo, que tinha permissão para pregar livremente e até mesmo acompanhar expedições militares de Sapor.[12] Com a ascensão de Vararanes ao trono, contudo, e com o aumento da autoridade do clero zoroastrista e da influência de Cartir, essa situação mudou. Quando Manes chegou à cidade de Bendosabora, houve grande comoção, semelhante à entrada de Jesus em Jerusalém.[13] Após protestos de Cartir e de outros sacerdotes zoroastristas, Vararanes foi persuadido a prender Mani, que foi condenado à morte em 274.[14][11]
A morte de Mani foi seguida pela perseguição de seus seguidores por Cartir e pelo clero zoroastrista, que passaram a agir contra as minorias religiosas do reino como forma de ampliar e difundir sua influência.[12] Para o clero zoroastrista, Mani era visto como um filósofo heterodoxo e um pagão ameaçador, que apresentava uma concepção obscura do zoroastrismo, contaminada por ideias judaicas, budistas e cristãs.[12] Com o apoio de Vararanes, Cartir lançou as bases de uma igreja estatal zoroastrista,[11][12] o que levou Vararanes a ser elogiado em fontes sassânidas como um "rei benevolente e digno".[11] Ainda assim, Vararanes era, como seus predecessores, um "zoroastrista pouco fervoroso".[15]
Vararanes morreu em setembro de 274 e foi sucedido por seu filho Vararanes II.[11] Outro filho de Vararanes, Hormisda I, governou o Reino Cuchano-Sassânida no leste e mais tarde liderou uma rebelião contra Vararanes II, que fracassou.[16] A linhagem de Vararanes continuou a governar o Império Sassânida até 293, quando Narses depôs o neto deste, Vararanes III, e se proclamou novo xá.[7] A linha dinástica foi então transferida para Narses e seus descendentes, que continuaram a governar o império até sua queda em 651.[17]
Moeda, aparência e hábitos
Sob Vararanes, o reverso das moedas voltou ao modelo cunhado durante o reinado de Sapor I, com dois assistentes de costas para o altar do fogo, em vez de voltados para ele.[18] O anverso das moedas de Vararanes o mostra usando a coroa distintiva da divindade angelical Mitra; um adorno com pontas em forma de raios.[11] Uma moeda de Vararanes foi aparentemente cunhada em Bactro, em Bactriana, o que a torna a primeira moeda imperial sassânida (isto é, não cuchano-sassânida) cunhada nos antigos domínios do Império Cuchana e confirma o domínio direto sassânida na região sob Vararanes.[19] O perdido Livro dos Retratos dos Reis Sassânidas descrevia Vararanes como "em pé, segurando uma lança na mão direita e apoiando-se numa espada empunhada na esquerda, vestindo túnica e calças vermelhas e uma coroa de ouro encimada por um globo azul-celeste".[11]
Vararanes apreciava o combate, a caça e os banquetes, que considerava formas de virtude.[11]
Relevo rupestre
Seguindo o precedente de Artaxer I e Sapor I, Vararanes mandou esculpir uma imagem de sua ascensão em um relevo rupestre. Nela, aparece montado a cavalo, recebendo o diadema da realeza do deus supremo zoroastrista Aúra-Masda, também representado a cavalo.[11] Uma inscrição em persa médio acompanha o relevo.[11] Segundo o arqueólogo Erich Schmidt, trata-se do "exemplo artisticamente mais atraente da escultura rupestre sassânida".[11] Quando Narses ascendeu ao trono em 293, mandou alterar o relevo, substituindo o nome de Vararanes pelo seu próprio.[11]
Referências
- ↑ Martindale 1971, p. 945.
- ↑ Moisés de Corene 1736, p. 292.
- ↑ Ačaṙyan 1942–1962, p. 9.
- ↑ Justi 1895, p. 363.
- 1 2 Vários autores 1988.
- ↑ Rapp 2014, p. 203.
- 1 2 3 Weber 2016.
- ↑ Frye 1983, p. 127.
- ↑ Frye 1983, pp. 121–122.
- 1 2 Kia 2016, p. 233.
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Shahbazi 1988, pp. 514–522.
- 1 2 3 4 5 Kia 2016, p. 234.
- ↑ Daryaee 2009, p. 74.
- ↑ Daryaee 2009, pp. 74-75.
- ↑ Skjærvø 2011, pp. 608-628.
- ↑ Shahbazi 2004.
- ↑ Shahbazi 2005.
- ↑ Curtis & Stewart 2008, pp. 24-25.
- ↑ Curtis & Stewart 2008, p. 25.
Bibliografia
- Ačaṙyan, Hračʻya (1942–1962). «Վահան». Hayocʻ anjnanunneri baṙaran [Dictionary of Personal Names of Armenians]. Erevã: Imprensa da Universidade de Erevã
- Curtis, Vesta Sarkhosh; Stewart, Sarah (2008). The Sasanian Era. Nova Iorque: I. B. Tauris. ISBN 9780857719720
- Daryaee, Touraj (2009). Sasanian Persia - The Rise and Fall of an Empire. Nova Iorque: I.B.Tauris
- Frye, R. N. (1983). «The Political History of Iran under the Sasanians». In: E. Yarshater. The Cambridge History of Iran Vol. III - The Seleucid, Parthian and Sasanid Periods. Cambridge: Imprensa da Universidade de Cambrígia. ISBN 9780521200929
- Justi, Ferdinand (1895). «Werepraghna 24». Iranisches Namenbuch. Marburgo: N. G. Elwertsche Verlagsbuchhandlung
- Kia, Mehrdad (2016). The Persian Empire: A Historical Encyclopedia [2 volumes]. Santa Bárbara: ABC-CLIO. ISBN 978-1610693912
- Martindale, J. R.; A. H. M. Jones (1971). «Vararanes». The Prosopography of the Later Roman Empire, Vol. I AD 260-395. Cambridge e Nova Iorque: Cambridge University Press
- Moisés de Corene (1736). Historiae Armeniacae libri III. Londres: Caroli Ackers
- Rapp, Stephen H. Jr. (2014). The Sasanian World through Georgian Eyes: Caucasia and the Iranian Commonwealth in Late Antique Georgian Literature. Farnham: Ashgate Publishing, Ltd. ISBN 1472425529
- Shahbazi, A. Shapur (1988). «Bahrām I». Encyclopaedia Iranica, Vol. III, Fasc. 5. pp. 514–522
- Shahbazi, A. Shapur (2004). «Hormozd Kušānšāh». Encyclopædia Iranica
- Shahbazi, A. Shapur (2005). «Sasanian Dynasty». Enciclopédia Irânica Online
- Skjærvø, Prods Oktor (2011). «Kartir». Enciclopédia Irânica Vol. XV, Fasc. 6. Nova Iorque: Imprensa da Universidade de Colúmbia
- Vários autores (1988). «Bahrām». Enciclopédia Irânica Vol. III, Fasc. 5. Nova Iorque: Universidade de Colúmbia
- Weber, Ursula (2016). «Narseh». Enciclopédia Irânica. Nova Iorque: Imprensa da Universidade de Colúmbia
