Cabeçada

Cabeçada



Cabeçada na capoeiragem carioca do século XIX.
Informações gerais
Tradução literal Cabeçada
Outros nomes —
Arte marcial Capoeira
Local(is) de origem Brasil
Escopo Ataque direto
Cronologia das artes marciais • Lista de artes marciais • Projeto Artes Marciais

Cabeçada é um dos golpes na capoeira. Trata-se de um golpe comum utilizando a cabeça sobre o oponente,[1] considerado uma das técnicas fundamentais da capoeira tradicional.[2][3]

Apesar de simples de aplicar, a cabeçada é um dos golpes mais perigosos, frequentemente causadora de mortes.[4] No século XIX, era uma técnica letal da capoeira carioca. No jogo contemporâneo, as cabeçadas violentas geralmente são evitadas.

Na capoeira, há cabeçadas específicas, como o arpão de cabeça, o escorumelo e a cocada.

História

Uma luta de negros na América do Sul, 1874.

A única adição significativa à capoeira, além de seu núcleo de chutes oriundo do engolo, foi o uso da cabeçada, uma prática comum de origem africana nas Américas, conhecida como jogo de cabeçadas.[5] No século XIX, as cabeçadas eram a principal técnica dos capoeiras, conforme registros policiais.[6] Entre 1822 e 1824, o pintor alemão Johann Moritz Rugendas descreveu a capoeira como um jogo de cabeçadas:

Dois oponentes se enfrentam, cada um tentando atingir o peito do adversário com a cabeça e derrubá-lo. Eles dão mortais e fazem pausas antes de lançar o ataque. Às vezes, se posicionam como bodes, investindo com a cabeça um contra o outro. O jogo frequentemente se transforma em uma briga violenta quando facas são sacadas e o sangue é derramado.[7]

Na capoeira carioca, a cabeçada era uma técnica letal. Um visitante inglês que esteve no Rio de Janeiro em 1826 escreveu sobre essa técnica mortal:

Eles não precisam de punhal, ferro de gaiola ou qualquer outra arma. Em lugar de tudo isso, usam apenas a cabeça; e com ela investem contra o peito da vítima como touros. Vi um oficial que foi assassinado dessa forma e jogado por cima do muro em seu jardim, onde a família o encontrou pela manhã: a parte superior do corpo havia sido achatada como se o instrumento da morte tivesse sido um malho.[6]

Técnicas letais de cabeçada também foram utilizadas na Bahia no século XIX:

Na noite de 22 de fevereiro de 1883, o soldado José Raimundo de Souza, de serviço na Baixa dos Sapateiros, tentou prender o estivador Celestino, autor de uma grande confusão naquela rua, e recebeu dele uma ‘cabeçada’ que causou sua morte quase instantânea.[8]

Embora as cabeçadas fossem proeminentes na capoeira de rua por sua eficácia, seu uso era relativamente raro no ambiente do jogo.[5] Na capoeira moderna, as cabeçadas são mais utilizadas como tática defensiva para manter um oponente perigosamente próximo à distância, do que como técnica principal.[5]

Técnica

Cabeçada no jogo de capoeira.

Para aplicar uma cabeçada, o capoeirista abaixa o corpo e se lança em direção ao oponente, atingindo-o com a testa. A cabeçada pode ser desferida em várias regiões do corpo. Os alvos preferenciais são: [4][9]

Sempre que houver uma abertura na defesa, a possibilidade da cabeçada é iminente. Nessa técnica, o atacante se aproxima rapidamente, deslizando a cabeça pelo peito do oponente, geralmente mirando o queixo, o nariz ou a testa no momento do impacto.[1] É importante enfatizar que essa técnica jamais deve ser executada por completo em situação de jogo, devido às suas consequências sérias.[1]

Segundo o mestre Pastinha, a cabeçada sob o maxilar, de baixo para cima, é muito perigosa e pode ser aplicada quando o oponente está muito próximo.[9] Segundo o mestre Bimba, "sua aplicação requer muita malícia".[10]

Aplicação

Segundo o mestre Pastinha, a cabeçada é um golpe de malícia que pode ser aplicado no peito ou no rosto, com uma rápida rotação do corpo quando o oponente acredita que o atacante está recuando.[9]

Capoeiristas usam diversas artimanhas para executar cabeçadas. Por exemplo, na ginga, podem inclinar o corpo para o lado como se estivessem se esquivando, mas na verdade se preparam para aplicar uma cabeçada se houver espaço suficiente.[4] O capoeirista também pode deixar cair objetos e, ao abaixar-se para pegá-los, aplicar a cabeçada, especialmente quando enfrenta um oponente inexperiente.[4] Além disso, se um capoeirista estiver sendo contido por dois homens, pode se libertar abaixando o corpo e aplicando uma cabeçada.[4]

Variações

Na capoeira carioca, as cabeçadas eram tão importantes que recebiam nomes diferentes dependendo da forma como eram aplicadas. Por exemplo, a caveira no espelho, significando "crânio no espelho", era uma cabeçada frontal em pé no rosto, enquanto a cocada era uma cabeçada ascendente por baixo do queixo.[6]

Cocada

Caricatura da capoeira carioca do Rio, usando a cabeçada cocada. Arte de Calixto Cordeiro

A cabeçada cocada é um movimento simples, mas eficaz. Para executá-lo, o atacante se aproxima do oponente e subitamente se abaixa, acertando o oponente com a cabeça por baixo do queixo, no peito, no estômago ou até mesmo no rosto.[11] Esse golpe é semelhante ao Rabo de arraia em suas consequências, podendo ser bastante desorientador e até assustador para quem o recebe quando bem executado.[11]

Arpão de cabeça

O arpão de cabeça é uma cabeçada violenta, na qual o atacante utiliza todo o peso do corpo.[12] Os braços são inicialmente cruzados em frente ao rosto do jogador para protegê-lo de um possível golpe de joelho. No momento do impacto, os braços são então abertos, aumentando a força do movimento dirigido ao peito ou estômago do adversário.[12]

Defesas

Uma defesa possível contra a cabeçada é jogar o corpo para trás e golpear a parte de trás da cabeça do atacante com a mão.[13] Outra opção é descer rapidamente assim que se percebe a intenção do atacante e chutá-lo com o pé de baixo para cima.[13]

Referências

  1. 1 2 3 Capoeira 2007, pp. 133.
  2. ↑ Pastinha 1988, pp. 38.
  3. ↑ «Capoeira Cabeçada». www.lalaue.com. Consultado em 11 de junho de 2025
  4. 1 2 3 4 5 Da Costa 1961, pp. 46.
  5. 1 2 3 Desch-Obi 2008, p. 209.
  6. 1 2 3 Desch-Obi 2008, p. 175. Erro de citação: Código <ref> inválido; o nome "FOOTNOTEDesch-Obi2008175" é definido mais de uma vez com conteúdos diferentes
  7. ↑ Talmon-Chvaicer 2008, p. 8.
  8. ↑ Paulo Coêlho Araújo e Ana Rosa Jaqueira, Os Golpes e Movimentos da Capoeira nas Caricaturas de Calixto Cordeiro
  9. 1 2 3 Pastinha 1988, pp. 72–74.
  10. ↑ Mestre Damião, A verdadeira história da criação da Luta Regional Bahiana do mestre Bimba
  11. 1 2 Burlamaqui 1928, pp. 28.
  12. 1 2 Capoeira 2007, pp. 132.
  13. 1 2 Pastinha 1988, pp. 72-74.

Bibliografía