Castelo de Albufeira

Castelo de Albufeira
Vestígios de uma torre do castelo, na rua R. Joaquim Pedro Samora.
Informações gerais
TipoCastelo
Estilo dominanteGótico
Início da construçãoD. Afonso III

Fim da construção1250
RestauroDinis I de Portugal - (1319)
Pedro I de Portugal - (1363)
Fernando I de Portugal - (1378)
Manuel I de Portugal - (1504)?
Proprietário inicialReino de Portugal
Função inicialMilitar
Proprietário atualRepública Portuguesa
Função atualCultural
Património de Portugal
SIPA15571
Geografia
PaísPortugal Portugal
CidadePortugal Albufeira
Coordenadas🌍
Castelo de Albufeira está localizado em: Portugal Continental
Castelo de Albufeira
Geolocalização no mapa: Portugal Continental

O Castelo de Albufeira, de que restam ruínas, também referido como Castelo e cerca urbana de Albufeira, era um castelo islâmico almorávida, de planta poligonal, originalmente com nove torres situado na atual Freguesia de Albufeira e Olhos de Água, na cidade e no Município de Albufeira, no Distrito de Faro, Algarve, em Portugal.[1]

História

Antecedentes

O escritor Henrique Moreira, na descrição de Albufeira que publicou na revista O Algarve Illustrado em 1880, menciona a teoria de que o castelo poderia já existir durante a ocupação visigoda do Algarve: «o castello, conhecido pelos musulmanos com o nome de Alboheira, pertence a epocha muito remota. As investigações archeologicas não lhe determinaram o berço. Tem uma physionomia que se presta á lenda, mas está velada pela noite do passado. Era o Baltum dos romanos? é uma hypothese. [...] Não resta duvida que o castello fora ocupado pelos godos, porque o affirmam as moedas encontradas em muitas excavações».[2]

Período islâmico e reconquista

Uma das teorias para o nome da povoação, durante a época islâmica, é de Al-Buhera, que pode ser traduzido como castelo do mar, devido à sua situação litoral, ou a presença de uma lagoa que existia nas áreas mais baixas.[3] Os muçulmanos dotaram Albufeira de um forte sistema defensivo, tendo sido um dos castelos que mais tempo ficou sob o seu domínio.[3] Além de proteger a povoação em si, o castelo também tinha um importante papel como parte da estratégia de defesa da faixa costeira.[4] No interior do castelo residiam as camadas mais elevadas da população e a guarnição militar.[4] A Torre do Relógio poderá ter feito parte do conjunto defensivo islâmico de Albufeira.[4]

Em 1189, durante o reinado de D. Sancho I, o Castelo de Albufeira foi conquistado por uma armada de cruzados dinamarqueses e alemães, como parte de uma campanha militar, durante a qual também foram tomados os castelos de Alvor e Silves.[5] Porém, logo nos dois anos seguintes os islâmicos, sobre o comando almóada, conseguiram retomar o controlo sobre a região.[6]

Durante o reinado de D. Afonso III, renovaram-se as campanhas militares cristãs no Algarve, tendo Albufeira sido um dos pontos mais difíceis de conquistar, quando outras partes da região já estavam sob o domínio português.[3] Só foi definitivamente tomada em 1249, em conjunto com Faro, Porches e Silves, concluindo o processo da reconquista em território nacional.[7] Foi entregue à Ordem de Avis em 1250,[8] tendo a carta de doação sido passada ao mestre da ordem, Martins Fernandes, elevando a povoação à categoria de vila.[2]

Porém, segundo Henrique Moreira, a posse da vila foi disputada pelo rei D. Afonso X, que também a concedeu à ordem alguns anos mais tarde, provavelmente nos finais de 1257.[2] Este conflito durou até 1267, quando o monarca castelhano abandonou as suas intenções de controlar o Algarve, tendo sido definitivamente integrado nos domínios portugueses.[2]

As primeiras obras de restauro do castelo após a reconquista foram feitas em 1276.[9]

Séculos XIV a XVII

Voltou a ser alvo de trabalhos de remodelação em 1319, 1363, 1378 e 1401.[9] Em 1 de Junho de 1504, a carta de doação do castelo de Albufeira foi renovada por D. Manuel.[2]

No século XVI, o sistema defensivo de Albufeira foi reforçado com um baluarte e dois meios baluartes na frente marítima.[10] Em termos de armamento, contavam uma peça de artilharia em bronze e outra em ferro, ambas de calibre 12.[10] No período da Guerra da Restauração, o castelo foi alvo de obras de reconstrução, passando a ser considerada como uma praça de guerra, da qual também faziam parte os Fortes da Baleeira e de São João, e tendo como dependências os fortes de Pêra, Registo, Valongo e Quarteira.[10]

O castelo foi retratado num desenho de 1617 do engenheiro militar Alexandre Massai.[9]

Gravura de Albufeira em 1813, sendo visíveis as ruínas de muralhas e das torres do castelo.
Fotografia de Albufeira, publicada na revista Algarve Illustrado em 1880. No centro ainda é vísível uma torre.

Do século XVIII aos nossos dias

O castelo de Albufeira foi muito atingido pelo Sismo de 1755, tendo sido destruídos os dois baluartes marítimos, três torres e parte das muralhas.[9] Uma das baterias perdurou até 1881, quando caiu devido ao desabamento da falésia em que se encontrava.[9]

Durante a Guerra Civil Portuguesa, Albufeira foi um bastião dos liberais,[11] motivo pelo qual foi atacada em 1833 pelas forças miguelistas de José Joaquim de Sousa Reis, mais conhecido como o Remexido.[12] Depois dos guerrilheiros terem queimado a maior parte das casas abastadas da vila, os liberais refugiaram-se no castelo, mas acabaram por se render devido à falta de munições. Porém, pouco depois surgiu um barco liberal que começou a atirar contra os miguelistas, e estes, pensando que tinham sido traídos, massacraram os prisioneiros. Os registos da época são muito variáveis, tendo o número de mortos oscilado entre os 27 e 74,[12] enquanto que o jornalista José Manuel Vieira de Barros aponta um número muito superior, de 170 vítimas.[11]

Em 1858, a revista Ilustração Luso-Brasileira refere que a vila «acha-se edificada sobre uma rocha sobranceira ao mar, parte em sitio plano, parte no declive para a praia. Aquella é fortificada, e dominada por um velho castello, de que eram alcaides-móres os condes de Valle de Reis, depois marqueses de Loulé.»[13]

Henrique Moreira refere as ruínas do castelo e de baterias navais, como elas surgiam em 1880: «temos diante de nós, projectadas na carta, duas curvas sensivelmente deseguaes, ficando as concavidades voltadas para o oceano. Reparando no sitio em que as curvas se encontram, veremos o angulo substituido pela projecçào de uma pequena bahia, limitada por dois cabos salientes, guarnecidos de baterias arruinadas. [...] Ahi debruça-se, em pittorescas rochas, a villa de Albufeira. Na parte culminante desenha-se, sobre o azul do ceo, a negra parede do castello valetudinario. [...] Apenas umas sombrias muralhas, em attitude de genuflexão, mutiladas em muitos sitios, entaladas entre as habitações urbanas, apodrecidas e esfarrapadas pela sanha dos elementos destruidores, cobertas com os andrajos de miseravel mendiga, cheias de ulceras de todo o genero, com os ossos quasi descarnados, torturadas pelo rheumatismo inexoravel que ataca a velhice dos colossos de pedra, esmagando as casas com os seus largos encontros, debruçando-se sobre os edificios, deixando entrever a agonia das ruinas, gemendo e despedaçando-se com uma severidade que participa do passado, tendo a seus pés o ataude, que, de dia para dia, lhe vae recebendo os restos putridos.»[2] Menciona igualmente a presença de ruínas do castelo perto da Capela da Misericórdia: «Esta doação á ordem de Aviz produziu um additamento architectonico. E o muro interior que deita para a rua da Misericórdia. Como unico vestigio antigo da realeza patria merece analyse. E um muro simplicissimo. Tem pouca espessura e pequena elevação. Remata com a capella da Misericórdia, modesto monumento gothico ainda conservado de pé. No muro, proximo á capella, foi construida uma porta. E baixa e estreita e termina em ligeira curvatura. Por cima d’esta porta existem as armas de Albufeira. As armas são formadas por um pequeno escudo de campo unido, tendo no centro um bufo em attitude de vôo, com a cabeça orgulhosamente levantada, e sobranceira ao escudo a cruz da ordem de Aviz. A heraldica delineava o vôo como hieroglyfico de vigilancia nas expedições militares. O escudo e a cruz são de dimensões eguaes. O todo é comprehendido n'um rectangulo contornado por uma bordadura. O estylo manuelino parece haver dirigido o cinzel, que, delineou a bordadura, o que determina a epocha. É, portanto, provavel, que a construcção do muro e porta datem do reinado de D. Manuel.».[2]

Em 1881 parte da falésia que sustentava a Bateria de Albufeira ruiu, levando ao quase total desaparecimento daquela estrutura defensiva.[10]

O jornal Diário Popular de 16 de Dezembro de 1950 refere que «antes de 1834, Albufeira tinha juiz de fora, governador militar, com quartéis, onde chamam Vila a Dentro, e neste lugar ainda há restos dos muros do seu antigo castelo».[14]

Entre 2005 e 2006, os vestígios do antigo castelo foram abrangidos por um programa de levantamento do património arqueológico existente no concelho.[15]

Características

De acordo com a planta setecentista de Alexandre Massai, o castelo era composto por uma cintura de muralhas de forma poligonal, que acompanhavam as curvas de nível, e cercavam uma área no cume de um cerro junto ao oceano, que então era parcialmente protegido por braços de mar nos lados nascente e setentrional.[9] Possuía pelo menos nove torres, todas adossadas, e três portas: a de Santa Ana, a nascente; a da Praia, no lado setentrional; e a da Praça, no sentido poente.[9] Uma das portas, a que tinha menos condições de defesa naturais, tinha uma configuração em cotovelo.[9] A Porta da Praia, também conhecida como Porta do Mar, estava situada na moderna rua Joaquim Pedro Samora.[16] Neste local subsistem as ruínas de uma torre, que são provavelmente os principais indícios sobreviventes do Castelo de Albufeira.[16] A Porta de Santa Ana, no passado conhecida como Porta de Sant'Ana, recebeu o seu nome de uma capela situada nas proximidades, e que foi destruída pelo sismo de 1755.[17] Os vestígios tanto na Porta do Mar como na Porta de Santana permitem constatar que a estrutura foi construída em pedra, com uma argamassa em terra e cal.[9]

O complexo do castelo incluía igualmente uma outra estrutura defensiva, conhecida como Bateria de Albufeira, e que se situava no topo da falésia,[18] na Rua da Bateria.[10] Desta sobreviveu apenas uma parte de um compartimento subterrâneo.[10] Ao longo deste arruamento corria um lanço da muralha, tendo sido igualmente descobertos os vestígios de uma cisterna, presumivelmente da era islâmica, no local onde depois foi construído um estabelecimento de restauração.[19]

Um outro possível vestígio da antiga fortificação islâmica poderá ser a torre do relógio.[4]

Ver também

Referências

  1. ↑ FERNANDES, Paulo (2002). «Castelo de Albufeira / Castelo e cerca urbana de Albufeira». Sistema de Informação para o Património Arquitectónico. Instituto Público do Património Cultural. Consultado em 31 de dezembro de 2023
  2. 1 2 3 4 5 6 7 MOREIRA, Henrique (15 de Outubro de 1880). «Albufeira» (PDF). O Algarve Illustrado. Ano 1 (10). Faro. p. 36-37. Consultado em 30 de Abril de 2026 – via Hemeroteca Digital do Algarve
  3. 1 2 3 «História». Câmara Municipal de Albufeira. Consultado em 5 de Maio de 2026
  4. 1 2 3 4 «Praça da República reabilitada e com vestígios arqueológicos preservados». Câmara Municipal de Albufeira. 19 de Junho de 2017. Consultado em 5 de Maio de 2026
  5. ↑ CAPELO et al, 1994:31
  6. ↑ CAPELO et al, 1994:32
  7. ↑ CAPELO et al, 1994:37
  8. ↑ MADEIRA, José António (13 de Junho de 1968). «A estância marítima de Albufeira» (PDF). Correio do Sul. Ano L (2609). Faro. p. 2. Consultado em 29 de Abril de 2026 – via Hemeroteca Digital do Algarve
  9. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 «Castelo de Albufeira». Portal do Arqueólogo. Instituto Público do Património Cultural. Consultado em 28 de Abril de 2026
  10. 1 2 3 4 5 6 «Albufeira - Rua da Bateria». Portal do Arqueólogo. Instituto Público do Património Cultural. Consultado em 4 de Maio de 2026
  11. 1 2 BARROS, José Manuel Vieira de (16 de Agosto de 1964). «O Algarve e o seu turismo» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. Ano 77 (1840). Lisboa. p. 223. Consultado em 3 de Maio de 2026 – via Hemeroteca Municipal de Lisboa
  12. 1 2 SANTOS, Honorato (15 de Agosto de 1942). «Investigando no Passado Algarvio» (PDF). Voz do Sul. Ano XXVII (1148). Silves. p. 4. Consultado em 29 de Abril de 2026 – via Hemeroteca Digital do Algarve
  13. ↑ «A villa de Albufeira» (PDF). Illustração Luso-Brasileira. Volume II (34). Lisboa. 21 de Agosto de 1858. p. 271-272. Consultado em 2 de Maio de 2026 – via Hemeroteca Municipal de Lisboa
  14. ↑ «A acção municipal na vila de Albufeira tem sido notável» (PDF). Diário Popular. Ano IX (2949). Lisboa. 16 de Dezembro de 1950. p. 5. Consultado em 3 de Maio de 2026 – via Hemeroteca Digital de Lisboa
  15. ↑ «Prospeção (2005/2006)». Portal do Arqueólogo. Instituto Público do Património Cultural. Consultado em 28 de Abril de 2026
  16. 1 2 «Muralha do Castelo». Câmara Municipal de Albufeira. Consultado em 28 de Abril de 2026
  17. ↑ «Porta de Sant'Ana». Câmara Municipal de Albufeira. Consultado em 28 de Abril de 2026
  18. ↑ «Bateria de Albufeira». Câmara Municipal de Albufeira. Consultado em 28 de Abril de 2026
  19. ↑ «Albufeira - Restaurante A Ruína». Portal do Arqueólogo. Instituto Público do Património Cultural. Consultado em 4 de Maio de 2026

Bibliografia

  • CAPELO, Rui Grilo; MONTEIRO, Augusto José; NUNES, João Paulo; et al. (1994). RODRIGUES, António Simões, ed. História de Portugal em Datas. Lisboa: Círculo de Leitores. 480 páginas. ISBN 972-42-1004-9 

Ligações externas