Enredo

O enredo ou a trama, na ficção narrativa, é a cadeia de eventos onde cada acontecimento afeta o próximo através do princípio de causa e efeito.[1] Os eventos causais de um enredo podem ser pensados ​​como uma série de eventos ligados pelo conector "portanto". Os enredos podem variar do mais simples aos de estrutura complexa e entrelaçada, com cada parte dela às vezes referida como subenredo ou subtrama. [2]

Em síntese, pode-se dizer que o enredo é o esqueleto da narrativa, aquilo que dá sustentação à história, o desenrolar dos acontecimentos. É portanto não a soma, mas o resultado das relações de interdependência entre a sucessão e a transformação de situações e fatos narrados e a maneira como são dispostos para o leitor ou espectador pelo discurso que narra. Sendo assim, o enredo desenvolve-se numa obra em prosa e é indissolúvel a sua relação com a narrativa.

Definição

O romancista inglês do início do século XX, E. M. Forster, descreveu o enredo como a relação de causa e efeito entre eventos em uma história. De acordo com Forster, "O rei morreu, e então a rainha morreu é uma história, enquanto o rei morreu, e portanto a rainha morreu de tristeza, é um enredo".[3][4][5]

Teri Shaffer Yamada, Ph.D., da CSULB concorda que um enredo não inclui cenas memoráveis ​​dentro de uma história que não se relacionam diretamente com outros eventos, mas apenas os "eventos importantes que movem a ação em uma narrativa".[6] Por exemplo, no filme Titanic de 1997, quando Rose sobe no parapeito da frente do navio e abre as mãos como se estivesse voando é uma cena memorável, mas não influencia diretamente outros eventos, por isso pode não ser considerada como parte do enredo.

Fabula e syuzhet

A teoria literária do formalismo russo no início do século 20 dividiu a narrativa em dois elementos: a fabula (фа́була) e o syuzhet (сюже́т), ou a "matéria-prima" e a "forma como ela é organizada". Aqui, uma fabula são os eventos no mundo ficcional, enquanto um syuzhet é uma perspectiva desses eventos. Os seguidores formalistas eventualmente traduziram a fabula/syuzhet para o conceito de história/enredo. Esta definição é geralmente usada em narratologia, em paralelo com a definição de Forster. A fabula (história) é o que aconteceu em ordem cronológica. Em contraste, o syuzhet (enredo) significa uma sequência única de discurso que foi ordenada pelo autor (implícito). Ou seja, o syuzhet pode consistir em pegar os eventos da história em ordem não cronológica; por exemplo, fabula é ⟨a1, a2, a3, a4, a5, ..., an⟩, syuzhet é ⟨a5, a1, a3⟩.

O formalista russo Viktor Shklovsky via o syuzhet como a fabula desfamiliarizada. Desfamiliarização ou "tornar estranho", um termo que Shklovsky cunhou e popularizou, derruba formas familiares de apresentar uma história, diminui a percepção do leitor e faz com que a história pareça pouco familiar.[7] Shklovsky cita Tristram Shandy de Laurence Sterne como um exemplo de uma história que foi desfamiliarizada.[8] Sterne usa deslocamentos temporais, digressões e rupturas causais (por exemplo, colocando os efeitos antes de suas causas) para diminuir a capacidade do leitor de remontar a história (familiar). Como resultado, o syuzhet "estranha" a fabula.

Exemplos

O enredo pode ser organizado de diversas maneiras. Observe um exemplo da maneira mais comum no texto "Bezerro sem mãe" de Rachel de Queiroz:

(1) Foi numa fazenda de gado, no tempo do ano em que as vacas dão cria. Cada vaca toda satisfeita com o seu bezerro. (2) Mas dois deles andavam tristes de dar pena: (3) uma vaca que tinha perdido o seu bezerro e um bezerro que ficou sem mãe.

A vaquinha até parecia estar chorando, com os peitos cheios de leite, sem filtro para mamar. E o bezerro sem mãe gemia, morrendo de fome e abandonado.

Não adiantava juntar os dois, porque a vaca não aceitava. Ela sentia pelo cheiro que o bezerrinho órfão não era filho dela, e o empurrava para longe.

Aí o vaqueiro se lembrou do couro do bezerro morto, que estava secado ao sol. Enrolou naquele couro o bezerrinho sem mãe e levou o bichinho disfarçado para junto da vaca sem filho.

Ora, foi uma beleza! A vaca deu uma lambida no couro, sentiu o cheiro do filho e deixou que o outro mamasse à vontade. (4) E por três dias foi aquela mascarada. Mas no quarto dia, a vaca, de repente, meteu o focinho no couro e puxou fora o disfarce. Lambeu o bezerrinho direto, como se dissesse: “Agora você já está adotado.”

(5) E ficaram os dois no maior amor, como filho e mãe de verdade.

  1. Situação inicial – os personagens e espaço são apresentados.
  2. Quebra da situação inicial – um acontecimento modifica a situação apresentada.
  3. Conflito – Surge uma situação a ser resolvida, que quebra a estabilidade de personagens e acontecimentos.
  4. Clímax – ponto de maior tensão na narrativa.
  5. Desfecho – resolução do conflito.[9][10]

Uma história ordena os eventos do começo ao fim em uma sequência de tempo.

Considere os seguintes eventos no conto de fada europeu Cinderela:

  • O príncipe procura Cinderela fazendo com que as mulheres coloquem o sapatinho de cristal
    • As irmãs da Cinderela experimentam o sapato em si mesmas, mas ele não cabe nelas
  • O sapato se encaixa no pé da Cinderela e o príncipe finalmente a encontra

O primeiro evento está causalmente relacionado ao terceiro evento, enquanto o segundo evento, embora descritivo, não impacta diretamente o resultado. Como resultado, de acordo com Ansen Dibell, o enredo pode ser descrito como o primeiro evento "e portanto" o último evento, enquanto a história pode ser descrita pelos três eventos em ordem.[1]

Ver também

Referências

  1. 1 2 Ansen Dibell, Ph.D. (15 de julho de 1999). Plot. Col: Elements of Fiction Writing. [S.l.]: Writer's Digest Books. pp. 5 f. ISBN 978-0-89879-946-0. O enredo é construído de eventos significativos em uma determinada história – significativos porque têm consequências importantes. Tomar banho não é necessariamente enredo... Vamos chamá-los de incidentes... Enredo são as coisas que os personagens fazem, sentem, pensam ou dizem, que fazem a diferença para o que vem depois.
  2. ↑ Dicionário Priberam. subenredo
  3. ↑ Prince, Gerald (1 de dezembro de 2003). A Dictionary of Narratology Revised ed. [S.l.]: University of Nebraska Press. p. 73. ISBN 978-0-8032-8776-1
  4. ↑ Wales, Katie (19 de maio de 2011). A Dictionary of Stylistics. Col: Longman Linguistics 3 ed. [S.l.]: Routledge. p. 320. ISBN 978-1-4082-3115-9
  5. ↑ Forster, E.M. Aspects of the Novel. Mariner Books. (1956) ISBN 978-0156091800
  6. ↑ Teri Shaffer Yamada, Ph.D. «ELEMENTS OF FICTION». California State University. Consultado em 20 de dezembro de 2014. Cópia arquivada em 20 de dezembro de 2014
  7. ↑ Victor Shklovsky, "Art as Technique," in Russian Formalist Criticism: Four Essays, 2nd ed., trans. Lee T. Lemon and Marion J. Reis (Lincoln, NE: University of Nebraska Press, 2012), 3-24.
  8. ↑ Shklovsky, "Sterne's Tristram Shandy: Stylistic Commentary" in Russian Formalist Criticism, 25-57.
  9. ↑ MESQUITA, Samira Wahid de. O enredo. 4. ed. São Paulo: Ática, 2006
  10. ↑ Aiex, Anoar; Moises, Massaud; Paes, Jose Paulo (setembro de 1983). «Pequeno Dicionario de Literatura Brasileira». Hispania. 66 (3). 448 páginas. ISSN 0018-2133. doi:10.2307/342351