Friedrich Weissmann

Fritz Weissmann
Nome completoFriedrich Weissmann
Nascimento
24 de agosto de 1913 (112 anos)

Morte
2003 de julho de 13 (-12 anos)

NacionalidadeAustro-brasileiro
CônjugeBeki Avaiusini (1939–2001)
Filho(a)(s)Martha Weissmann Seabra Monteiro Salles
Bruno Weissmann
Leandro Weissmann
OcupaçãoEmpresário, industrial

Fritz Weissmann (nome completo Friedrich Weissmann; Bregenz, Vorarlberg, 24 de agosto de 1913 — Rio de Janeiro, 13 de julho de 2003) foi um empresário e industrial austro-brasileiro, fundador da Ciferal (Comércio e Indústria de Ferro e Alumínio), uma das mais importantes fabricantes brasileiras de carrocerias de ônibus do século XX. É reconhecido pela imprensa especializada como o "pai do ônibus de alumínio no Brasil".[1]

Origem e família

Fritz Weissmann nasceu em Bregenz, capital do Vorarlberg, em 24 de agosto de 1913, conforme a Geburts-Urkunde n.º 280, Band I, Seite 75, emitida pelo Pfarramt Bregenz-Vorkloster em 16 de dezembro de 1952.[2] Era filho de Karl Weissmann (Feldkirchen, Kärnten, 12 de dezembro de 1886 — Rio de Janeiro, 4 de dezembro de 1932) e de Hedwig Zuber (Knittelfeld, Estíria, 23 de setembro de 1889).

Karl Weissmann foi funcionário das Ferrovias Federais Austríacas (k.k. Österreichische Staatsbahnen) por mais de dezesseis anos. Admitido em 1908 como Lackierer (envernizador industrial) nas oficinas de Knittelfeld, progrediu na carreira até alcançar o posto de Werkmeister — Mestre das Ferrovias —, conforme atestado emitido pelo Prefeito de Bregenz em 14 de setembro de 1921.[3] Suas atividades abrangeram as diretorias ferroviárias de Villach, Knittelfeld e Bregenz. Após emigrar ao Brasil em 1921, continuou a receber pensão das ferrovias austríacas, paga pela Bundesbahndirektion Innsbruck, com correspondência endereçada a Itararé, São Paulo, em 1924.[4]

Karl Weissmann faleceu no Rio de Janeiro em 4 de dezembro de 1932, aos 46 anos, de endocardite infecciosa e colapso cardíaco, sendo sepultado no Cemitério São João Baptista.[5] A viuvez de Edwige foi reconhecida foi reconhecida formalmente pelo Consulado Geral da Áustria no Rio de Janeiro em 9 de dezembro de 1932.[6]

Fritz tinha três irmãos: Franz Josef Weissmann (Knittelfeld, 15 de setembro de 1911 — Rio de Janeiro, 18 de julho de 2005), que se tornaria um dos mais importantes escultores brasileiros do século XX e um dos fundadores do Movimento Neoconcreto; Karl Weissmann (filho), psicólogo radicado em Belo Horizonte, que manteve intercâmbio intelectual com Sigmund Freud e é reconhecido como introdutor da hipnose e da psicanálise em Minas Gerais. e um terceiro irmão, Stefan Weissmann, nascido em Linz em 16 de setembro de 1912, cujo destino permanece desconhecido pela família.

A herança técnica do pai ferroviário manifestou-se de formas distintas nos filhos: em Fritz, como domínio de estruturas metálicas aplicado à indústria de transportes; em Franz, como linguagem escultórica que utilizava alumínio, ferro e aço como matéria-prima do Neoconcretismo.

Identidade austríaca e o exílio forçado

Fritz Weissmann cresceu e formou sua identidade como cidadão austríaco. Com o Anschluss de março de 1938 — a anexação da Áustria pela Alemanha nazista —, os austríacos residentes no exterior passaram a ser submetidos à documentação do Terceiro Reich, independentemente de sua vontade. Fritz, como tantos compatriotas, viu sua identidade nacional confiscada por um regime que não escolheu e com o qual não compactuava.

A profundidade do vínculo de Fritz com suas origens austríacas manifesta-se em dois gestos documentados. O primeiro: em 1952, sete anos após o fim da guerra, a família solicitou ativamente a emissão da certidão de nascimento austríaca de Friedrich — o Pfarramt Bregenz-Vorkloster emitiu o documento em 16 de dezembro daquele ano. Não era um ato burocrático casual; era uma afirmação de identidade. O segundo: em 12 de dezembro de 1992, no aniversário de 106 anos de nascimento de seu pai Karl, Fritz catalogou, numerou e anotou à mão todos os documentos familiares austríacos que havia preservado por décadas — passaportes, atestados, registros ferroviários, correspondências. A nota manuscrita que deixou nessa ocasião é o testemunho silencioso de alguém que nunca rompeu o vínculo com Bregenz, com as ferrovias imperiais, com a Áustria que o formou.

Emigração, casamento e impossibilidade de retorno

Em outubro de 1921, a família Weissmann emigrou para o Brasil em contexto de grave instabilidade econômica no pós-Primeira Guerra Mundial na Áustria. Karl obteve do Prefeito de Bregenz, dias antes da partida, um Leumundszeugnis — atestado oficial de bons antecedentes — que certificava sua conduta ilibada, sua capacidade de trabalho e seus recursos suficientes para viver no Brasil. A família fixou-se inicialmente no interior do estado de São Paulo, transferindo-se posteriormente para o Rio de Janeiro.

Em 24 de maio de 1939, Fritz casou-se com Beki Avaiusini (Rio de Janeiro, 30 de janeiro de 1917 — Rio de Janeiro, 10 de novembro de 2001), filha de Samuel Giacomo Avaiusini e Victoria Amar Avaiusini, de família judaica.[7]

O casamento, celebrado no auge das perseguições nazistas na Europa, tinha implicações graves e irreversíveis. As Leis de Nuremberg de 1935, em vigor em toda a Áustria após o Anschluss, proibiam expressamente o casamento entre judeus e não judeus, classificando-o como Rassenschande — desonra racial. Para Fritz Weissmann, cujos documentos de identidade haviam sido substituídos pela papelada do Terceiro Reich após 1938, o matrimônio com uma mulher de família judaica tornava o retorno à Áustria juridicamente impossível e pessoalmente perigoso. O Brasil tornou-se, assim, não apenas destino de emigração econômica, mas terra definitiva — não por abandono da pátria de origem, mas por imposição de um regime que criminalizava o amor.

O casal teve três filhos — Martha Weissmann Seabra Monteiro Salles, Bruno Weissmann e Leandro Weissmann — e viveu até o fim de suas vidas no bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro.

Ciferal

A trajetória industrial de Fritz Weissmann começou ainda nos anos 1930, quando passou a trabalhar no setor de fabricação de carrocerias de ônibus no Rio de Janeiro. Trabalhou na CIRB e participou da fundação da fábrica de carrocerias Metropolitana em 1948, onde desenvolveu a tecnologia de uso do duralumínio — liga leve originária da indústria aeronáutica — como material estrutural para ônibus. Após uma viagem à Suíça para conhecer os avanços europeus no uso de perfis de alumínio na indústria automotiva, Weissmann trouxe ao Brasil a expertise e um técnico especializado, Rudolf Berchtold, para orientar a linha de produção.

Em outubro de 1955, fundou no bairro de Ramos, Rio de Janeiro, a Ciferal — Comércio e Indústria de Ferro e Alumínio.[8] A empresa rapidamente se destacou pela qualidade superior de suas carrocerias, que pesavam até três toneladas menos que as dos concorrentes, aumentando a durabilidade dos veículos e reduzindo o desgaste dos chassis. Em 1957, Weissmann expôs sua produção na pioneira I Exposição da Indústria Automobilística, realizada no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Em 1959, foi sua a iniciativa de fundação da FABUS — Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus —, da qual foi o primeiro presidente.[9]

A linha de modelos da Ciferal incluiu algumas das carrocerias mais icônicas da história do transporte brasileiro: o Papo Amarelo, a Flecha de Prata, o Líder, o revolucionário Dinossauro (1973) e o Trólebus Padron (1979). Em 1966, Weissmann convidou seu irmão Franz Weissmann — então artista plástico em ascensão — para desenvolver o projeto da carroceria Líder 2001, num encontro singular entre a engenharia industrial e o vocabulário formal do Neoconcretismo.

Há uma dimensão simbólica nessa trajetória: as obras em metal de seu irmão Franz — esculturas neoconcretistas que integravam espaço, luz e estrutura — utilizavam, por vezes, materiais provenientes da Ciferal. Antes de dedicar-se integralmente à escultura, Franz trabalhou na própria fábrica do irmão, onde o contato cotidiano com chapas, perfis e estruturas de alumínio e aço moldou diretamente sua linguagem plástica. O ateliê do futuro fundador do Neoconcretismo funcionou, por anos, dentro de uma fábrica de ônibus — talvez o mais improvável e fértil cruzamento entre a indústria e a arte na história cultural brasileira do século XX. O ofício de Karl Weissmann nas ferrovias imperiais austríacas encontrou, na geração seguinte, duas formas distintas de continuidade: a industrial, em Fritz; e a artística, em Franz.

O Programa Nacional do Trólebus e o fim da Ciferal

Nos anos 1970, a Ciferal tornou-se protagonista de um dos episódios mais ambiciosos — e mais frustrantes — da história do transporte coletivo brasileiro. O Programa Nacional do Trólebus, iniciativa do governo federal, previa o fornecimento de 3.862 ônibus elétricos a treze cidades brasileiras em cinco anos, numa revolução tecnológica que posicionaria o Brasil na vanguarda do transporte urbano sustentável. A Ciferal, com sua expertise em estruturas leves de alumínio, era a empresa mais capacitada do país para liderar esse projeto.

O pagamento do pedido inicial de cerca de 200 ônibus, contudo, tornou-se objeto de disputas prolongadas. Segundo relatos preservados pela família Weissmann, representantes do poder público condicionaram o repasse à Ciferal ao pagamento de propina de 20% sobre o valor contratado, vinculando o acerto financeiro à confirmação de novas encomendas. Fritz Weissmann recusou-se a pagar. O valor foi recebido anos depois, sem a devida correção monetária, em meio a uma inflação devastadora que corroeu integralmente o poder de compra do pagamento. A empresa, que havia investido pesadamente no desenvolvimento dos novos modelos elétricos sem receber a contrapartida devida, não resistiu ao impacto financeiro.

O programa nacional limitou-se a menos de 300 unidades entregues — uma fração ínfima do que havia sido planejado.[10] A corrupção alegada pela família não apenas destruiu uma empresa: interrompeu uma revolução tecnológica no transporte coletivo brasileiro. Fritz Weissmann encerrou as atividades da Ciferal mantendo a integridade que trouxera da Áustria. Os irmãos Weissmann — o industrial e o escultor — encerraram suas fábricas e seu ateliê no mesmo período, cada um à sua maneira, sem ceder aos compromissos que o contexto lhes impunha.

Logosofia

Fritz Weissmann foi adepto e apoiador da Logosofia, sistema filosófico e educacional fundado pelo argentino Carlos Bernardo González Pecotche (1901–1963), que propõe o desenvolvimento humano por meio do autoconhecimento consciente. Em expressão de seu compromisso com essa filosofia, doou um prédio à Fundação Logosófica, localizado no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, que passou a abrigar atividades educacionais e culturais da instituição na cidade.

Legado

Fritz Weissmann faleceu no Rio de Janeiro em 13 de julho de 2003, aos 89 anos, no Hospital Casa de Saúde São José, sendo sepultado no Cemitério Memorial do Carmo, em Caju.[11] Sua esposa Beki havia falecido dois anos antes, em novembro de 2001, no mesmo cemitério.

A trajetória de Fritz Weissmann — de Bregenz ao Rio de Janeiro, da tradição técnica ferroviária europeia à indústria nacional de transportes — representa um capítulo singular da imigração austro-brasileira do século XX. Sua contribuição ao transporte coletivo brasileiro, ao introduzir o alumínio como material estrutural de ônibus e ao fundar a FABUS, permanece como legado concreto na história industrial do país. A dimensão familiar de sua história — irmão de um dos maiores escultores brasileiros, casado com uma mulher de família judaica em pleno auge do nazismo, filho de um Werkmeister das ferrovias imperiais austríacas, cidadão austríaco que preservou seus documentos de origem até o fim da vida — oferece um retrato humano que ultrapassa a biografia empresarial.

Referências

  1. ↑ BARTHOLOMEU NETO, Paulo. «Mister alumínio: Fritz Weissmann é o decano dos encarroçadores do Brasil». Technibus, ano 5, edição 5, p. 42–43, janeiro de 1992.
  2. ↑ Geburts-Urkunde Nr. 280, Band I, Seite 75, Pfarramt Bregenz-Vorkloster, emitida em 16 de dezembro de 1952.
  3. ↑ Leumundszeugnis, Stadtrat Bregenz, 14 de setembro de 1921, assinado pelo Bürgermeister.
  4. ↑ Carta da Bundesbahndirektion Innsbruck, Zahl 9/400-I-24, de 25 de junho de 1924, endereçada a Karl Weissmann em Itararé, São Paulo.
  5. ↑ Certidão de Óbito de Karl Weissmann, livro 12, fls. 127, n.º 5826, Quarta Pretoria Cível, Distrito Federal, 1932.
  6. ↑ Documento do Consulado Geral da Áustria no Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1932.
  7. ↑ Certidão de Óbito de Beki Weissmann, livro 548-C, fls. 251, n.º 121234, Quinta Circunscrição do Registro Civil, Rio de Janeiro, 2001.
  8. ↑ Lexicar Brasil. «Ciferal». Disponível em: https://www.lexicarbrasil.com.br/ciferal/. Acesso em: maio de 2026.
  9. ↑ FABUS — Histórico. Disponível em: https://www.fabus.com.br/historico/. Acesso em: maio de 2026.
  10. ↑ Lexicar Brasil. «Ciferal». Disponível em: https://www.lexicarbrasil.com.br/ciferal/. Acesso em: maio de 2026.
  11. ↑ Certidão de Óbito de Fritz Weissmann, livro 583-C, fls. 24, n.º 131507, Quinta Circunscrição do Registro Civil, Rio de Janeiro, 2003.

Ligações externas

  • Franz Weissmann — irmão, escultor neoconcretista
  • Ciferal — empresa fundada por Fritz Weissmann
  • FABUS — associação fundada por Fritz Weissmann