Karl Weissmann
| Karl Weissmann | |
|---|---|
| Nome completo | Karl Weissmann |
| Nascimento | |
| Morte | |
| Nacionalidade | Austro-brasileiro |
| Ocupação | Psicanalista, hipnólogo, escritor |
Karl Weissmann (Knittelfeld, Estíria, 31 de agosto de 1910 — Rio de Janeiro, 25 de março de 1989) foi um psicanalista, hipnólogo e escritor austro-brasileiro, reconhecido como introdutor do hipnotismo científico no Brasil e pioneiro da psicanálise em Minas Gerais.[1] Foi o primeiro psicanalista do maior presídio da América do Sul da época, tornou-se uma das maiores celebridades da cultura popular brasileira nos anos 1950 como hipnotizador de palco, e manteve correspondência direta com Sigmund Freud, que lhe escreveu pessoalmente após receber seu primeiro livro.[2]
Origem e família
Karl Weissmann nasceu em Knittelfeld, na Estíria, em 31 de agosto de 1910, conforme seu passaporte austríaco, emitido pelo Consulado da Áustria no Rio de Janeiro.[3] Era filho de Karl Weissmann (pai) (Feldkirchen, Kärnten, 12 de dezembro de 1886 — Rio de Janeiro, 4 de dezembro de 1932), Werkmeister das Ferrovias Federais Austríacas (k.k. Österreichische Staatsbahnen), e de Hedwig Zuber (Knittelfeld, 23 de setembro de 1889 — Rio de Janeiro, 17 de novembro de 1943).[4]
Tinha três irmãos: Fritz Weissmann (Bregenz, 24 de agosto de 1913 — Rio de Janeiro, 13 de julho de 2003), fundador da Ciferal e pioneiro do ônibus de alumínio no Brasil; Franz Weissmann (Knittelfeld, 15 de setembro de 1911 — Rio de Janeiro, 18 de julho de 2005), escultor e um dos fundadores do Movimento Neoconcreto brasileiro; e Stefan Weissmann (Linz, 16 de setembro de 1912), cujo destino permanece desconhecido pela família.
O pai Karl Weissmann (pai) trabalhou nas Ferrovias Federais Austríacas por mais de dezesseis anos, progredindo de Lackierer (envernizador) a Werkmeister — Mestre das Ferrovias —, com passagens pelas diretorias ferroviárias de Villach, Knittelfeld e Bregenz. A formação técnica e intelectual que transmitiu aos filhos manifestou-se de formas distintas em cada um: em Fritz, como domínio industrial de estruturas metálicas; em Franz, como linguagem escultórica neoconcretista; e em Karl, como rigor científico aplicado à psicologia e à divulgação do pensamento de Freud no Brasil.
Emigração e chegada ao Brasil
Em outubro de 1921, a família Weissmann emigrou ao Brasil em contexto de grave instabilidade econômica no pós-Primeira Guerra Mundial na Áustria. Karl Weissmann pai obteve do Prefeito de Bregenz, dias antes da partida, um Leumundszeugnis — atestado oficial de bons antecedentes — que certificava sua conduta ilibada e seus recursos suficientes para viver no Brasil.[5] A família fixou-se inicialmente no interior do estado de São Paulo, transferindo-se posteriormente para o Rio de Janeiro.
Após a morte do pai em 1932, Karl Weissmann (filho) mudou-se para Belo Horizonte em 1931 — antes mesmo do falecimento paterno —, onde residiria pelas três décadas seguintes.[6] Conforme ele próprio relatou em entrevista, seus primeiros anos em Belo Horizonte foram marcados pela dificuldade econômica: «Não se podia pensar em viver de Psicanálise naquela época. [...] O grosso do meu sustento e da minha família vinha de aulas de inglês e alemão».[6] Foi nesse período que se consolidou como intelectual e referência para a compreensão de autores germânicos como Schopenhauer, Nietzsche e Freud.
A correspondência com Freud
Em 1937, Karl Weissmann publicou seu primeiro livro, O Dinheiro na Vida Erótica, obra que se tornaria um dos três livros de maior êxito do ano no Brasil. Um exemplar foi enviado ao próprio Sigmund Freud, que lhe respondeu com uma carta pessoal, datada de 21 de março de 1938 — apenas dez dias antes do Anschluss, a anexação da Áustria pela Alemanha nazista.[7] A carta, escrita em alemão gótico e assinada por Freud, permanece preservada no acervo da família Weissmann e representa um dos documentos mais singulares da história da psicanálise no Brasil.
A importância dessa correspondência vai além do reconhecimento intelectual. A carta foi escrita em 21 de março de 1938 — nove dias após o Anschluss, quando a Áustria já estava sob ocupação nazista e a Gestapo havia se instalado em Viena. O próprio Freud seria forçado ao exílio em Londres em junho daquele ano, após ter seus livros queimados publicamente pelo regime em 1933 e o Instituto Psicanalítico de Viena fechado e saqueado. A psicanálise era classificada pelo nacional-socialismo como «ciência degenerada» de influência judaico-bolchevique.
Para Karl Weissmann, manter correspondência com Freud nesse contexto — somado à sua origem austríaca, à família com vínculos ferroviários sindicais e ao exercício de uma ciência perseguida pelo regime — tornava o retorno à Áustria não apenas indesejável, mas genuinamente perigoso. O Brasil, para onde a família havia emigrado em 1921, tornou-se assim não apenas destino de vida, mas terra de refúgio definitivo.
Pioneirismo na criminologia psicanalítica
Karl Weissmann tornou-se o primeiro psicanalista a atuar no maior presídio da América do Sul da época, a Penitenciária de Neves, em Belo Horizonte.[8] Em seu trabalho com detentos, defendia que os atos infracionais eram decorrência de determinados problemas no desenvolvimento da libido — perspectiva pioneira que articulava psicanálise e criminologia num ambiente institucional, ainda nos anos 1940 e 1950.
Sua atuação na penitenciária foi noticiada pelo Correio da Manhã em 24 de março de 1953, sob a manchete «Psicanalista na penitenciária de Neves».[9]
O hipnotizador de palco
A partir de 1953, Karl Weissmann tornou-se uma das maiores celebridades da cultura popular brasileira. O ponto de partida foi uma conferência beneficente organizada pelos Diários Associados em Belo Horizonte, para arrecadação de fundos para a construção do Sanatório do Morro das Pedras. Weissmann, que já havia realizado conferências sobre neurose e criminalidade, propôs-se a apresentar «novos conceitos de Hipnose». A imprensa entrou em ação e o evento tornou-se, nas suas próprias palavras, «um inédito espetáculo».[6]
Desse improvável início, seguiram-se espetáculos em teatros de todo o Brasil, que lhe valeram a alcunha de «maior hipnotista do hemisfério ocidental».[6] Suas apresentações públicas — em teatros, rádio e televisão — hipnotizavam voluntários diante de plateias atônitas. Relatos da época descrevem experiências em que hipnotizados não sentiam dor mesmo submetidos a estímulos físicos intensos, demonstrando em público os princípios da sugestão que Karl Weissmann havia sistematizado em seus livros.
A fama conquistada em Minas Gerais foi determinante para sua mudança definitiva para o Rio de Janeiro em 1959, então capital do país, onde continuou sua carreira como psicanalista e hipnoterapeuta.[6]
Obras
Karl Weissmann foi autor prolífico, com obras que transitaram entre a psicanálise, a criminologia, a filosofia e a divulgação científica:
- O Dinheiro na Vida Erótica (1937) — seu primeiro livro, recebido por Sigmund Freud, que lhe respondeu com carta pessoal; foi um dos três livros de maior êxito no Brasil naquele ano
- A Conquista da Maturidade
- Masoquismo e Comunismo
- Vida de Schopenhauer (1980, Editora Itatiaia) — recebeu elogios de Monteiro Lobato, que o leu avidamente com sua família[10]
- O Hipnotismo: Psicologia, Técnica, Aplicação (1958; reed. 1978, Editora Itatiaia, Coleção Corpo e Alma, v. 5) — tratado sobre hipnotismo científico que permanece referência no campo até hoje[11]
Além dos livros, Weissmann publicou regularmente em revistas e jornais de grande circulação nacional, incluindo a revista O Cruzeiro, onde analisou fenômenos culturais brasileiros — como as sessões de umbanda — a partir da perspectiva psicanalítica.[6]
Legado
Karl Weissmann faleceu no Rio de Janeiro em 25 de março de 1989, aos 78 anos. Apesar da trajetória singular — psicanalista pioneiro, hipnólogo celebrado, correspondente de Freud e intelectual de amplo reconhecimento público —, permanece uma figura pouco estudada na história da psicanálise brasileira. Como observam os pesquisadores Rodrigo Afonso e Belinda Mandelbaum:
Citação: Salta aos olhos, desde o início da investigação relacionada a este autor, o surpreendente desconhecimento relacionado ao seu nome e sua obra no campo da história da psicanálise no Brasil, a despeito da fecundidade de seus trabalhos e da criatividade de suas ideias.[6]
Sua trajetória familiar é igualmente notável: filho de um Werkmeister das ferrovias imperiais austríacas que trouxe a família ao Brasil em 1921, irmão de Franz Weissmann — um dos maiores escultores brasileiros do século XX — e de Fritz Weissmann — fundador da Ciferal e pioneiro do ônibus de alumínio no Brasil —, Karl Weissmann representa uma das mais extraordinárias histórias da imigração austro-brasileira do século XX, na qual uma única família deu ao Brasil um industrial pioneiro, um escultor neoconcretista e um psicanalista do círculo de Freud.
Uma tese de doutorado dedicada integralmente à sua biografia foi defendida em 2022 no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, por Rodrigo Afonso Nogueira Santos, sob orientação de Belinda Mandelbaum — o trabalho acadêmico mais abrangente já realizado sobre sua vida e obra.[12]
Referências
- ↑ AFONSO, Rodrigo; MANDELBAUM, Belinda (2017). «A psicanálise e seus pioneiros no Brasil: notas sobre o "vigoroso psicanalista" Karl Weissmann». Analytica: Revista de Psicanálise, v. 6, n. 11, p. 34–68. ISSN 2316-5197.
- ↑ SANTOS, Rodrigo; MANDELBAUM, Belinda (2019). «Karl Weissmann e a psicanálise na Era Vargas». Memorandum: Memória e História em Psicologia, n. 36. Periódicos UFMG.
- ↑ Passaporte austríaco de Karl Weissmann, emitido pelo Consulado Geral da Áustria no Rio de Janeiro. Acervo familiar Weissmann.
- ↑ Certidão de Óbito de Hedwig Weissmann, n.º 2935, livro 538, Primeira Zona Civil, Segunda Circunscrição, Distrito Federal, Rio de Janeiro, 17 de novembro de 1943.
- ↑ Leumundszeugnis, Stadtrat Bregenz, 14 de setembro de 1921. Acervo familiar Weissmann.
- 1 2 3 4 5 6 7 AFONSO, Rodrigo; MANDELBAUM, Belinda (2017). Op. cit.
- ↑ Carta de Sigmund Freud a Karl Weissmann, 21 de março de 1938. Timbrada «Prof. Dr. Freud, Wien IX, Berggasse 19». Acervo familiar Weissmann.
- ↑ SKOOB. «O Hipnotismo — Karl Weissmann». Disponível em: https://www.skoob.com.br/o-hipnotismo-35410ed450752.html. Acesso em: maio de 2026.
- ↑ «Psicanalista na penitenciária de Neves». Correio da Manhã, 24 de março de 1953, p. 4.
- ↑ WEISSMANN, Karl (1980). Vida de Schopenhauer. Belo Horizonte: Itatiaia.
- ↑ WEISSMANN, Karl (1978). O Hipnotismo: Psicologia, Técnica, Aplicação. Belo Horizonte: Itatiaia, 324 p. (Coleção Corpo e Alma, v. 5).
- ↑ SANTOS, Rodrigo Afonso Nogueira (2022). Um psicanalista para os seus tempos: Karl Weissmann e a difusão da Psicanálise no Brasil. Tese de Doutorado. Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo.
Ligações externas
- Franz Weissmann — irmão, escultor neoconcretista
- Friedrich Weissmann — irmão, fundador da Ciferal
- «A psicanálise e seus pioneiros no Brasil: notas sobre o vigoroso psicanalista Karl Weissmann» — Analytica: Revista de Psicanálise (2017)
- Tese de doutorado sobre Karl Weissmann — USP (2022)