George March

George March (1788 — 1845) foi um comerciante e fazendeiro luso-britânico, colonizador do município de Teresópolis, na Região Serrana do estado do Rio de Janeiro. Sua trajetória é o marco inicial da ocupação europeizada e exclusão (apagamento) de Índios e Negros da Serra dos Órgãos no século XIX, onde estudos contemporâneos analisam sua figura sob a ótica do "mito fundacional" e do apagamento dessas populações pré-existentes desde o século XVI.[1]

A Fazenda-Modelo e o Veraneio

March implementou uma "fazenda-modelo" baseada na produção de hortigranjeiros, cereais e na criação de cavalos (coudelaria). Aproveitando o clima ameno, tornou-se o pioneiro do veraneio na serra, construindo casas ao redor de sua sede para alugar a outros súditos britânicos e membros da corte. Apesar da pressão inglesa contra o tráfico negreiro, March utilizou extensivamente a mão de obra de pessoas escravizadas em seus empreendimentos.[2]

A Fundação de Teresópolis por Negros e Índios

George March
Conhecido(a) porColonizador de Teresópolis no século XIX.
Nascimento
Morte
NacionalidadeInglês (Nascido em Portugal)
OcupaçãoComerciante e fazendeiro
NotasHistórico de Ocupação:
• Século XVI: Fundação por populações Indígenas e Negras (Quilombo da Serra).
• Século XIX: Colonização por Ingleses e Portugueses (Chegada de George March em 1818).

O começo do povoamento em Teresópolis, ocorreu em meados do século XVI por Indígenas Puris, muito antes da chegada dos portugueses e de George March. O progresso começou, quando um fluxo de escravos que fugiam das plantações de cana da Baixada Fluminense levou à formação do Quilombo da Serra, sendo primeiro povoado negro da região somando-se a aproximadamente mais de 30 mil pindoramas, hoje povos originários ou indígenas.[3]

CIDADE PARA INGLÊS VER: HISTÓRIA E IDENTIDADE EM TERESÓPOLIS

Em erro grave da história real, a Prefeitura de Teresópolis e órgãos de imprensa local como a televisão O Diário de Teresópolis, utilizam a história local sem a busca por documentos oficiais, o que leva a construir uma identidade que valoriza apenas a presença inglesa, que culminou na escravidão e etnocídio de milhares de indígenas na região do Paquequer, hoje Teresópolis. A imprensa local, as escolas, por vezes desconhecem e ignoram outras contribuições étnicas. Dados documentais destacam a presença de negros e pindoramas (povos originários/indígenas) séculos antes da chegada do homem branco a Teresópolis. [4]A manutenção de uma narrativa europeia, elimina a preservação histórica do passado através da comunicação oficial e gera implicações na formação e construção da identidade da cidade de Teresópolis.[5]

O recorte do passado de Teresópolis, RJ utilizado pela prefeitura da cidade em sua comunicação oficial e ignora dados relevantes e históricos da cidade colonizada. O conflito, inerente a qualquer configuração social, também se expressa na história de Teresópolis. [6]

Revisão Historiográfica e Crítica

Estudos recentes produzidos por pesquisadores da UERJ e da UFF (Rede Proprietas) analisam criticamente a narrativa centrada exclusivamente em George March.[7]

O Mito do Território Vazio

A historiografia tradicional (representada por Gilberto Ferrez e Osíris Rahal) é acusada de promover um "apagamento" das presenças indígena e negra. Pesquisas apontam que a região não era um "território vazio":

  • Resistência: A existência do Quilombo da Serra e de trilhas abertas por tropeiros escravizados antes da chegada de March demonstra uma ocupação prévia.
  • Patrimônio Fantasma: A sede da Fazenda March é classificada pela historiadora Marcia Motta como um "patrimônio fantasma", onde a história colonial europeia silenciou trajetórias de resistência local.[8]

A hitória fática da fundação da cidade de Teresópolis

Em um artigo produzido pela UERJ, denominado de "Apagamento e história - George March e o mito da fundação de Teresópolis", analisa criticamente as narrativas hegemônicas sobre a fundação de Teresópolis (RJ). Centradas na figura do colonizador inglês George March, o artigo revela o apagamento sistemático das presenças indígena e negra no processo de ocupação da Serra dos Órgãos.[9]

Documentos Históricos narram a presença de Índios e Negros em Teresópolis

O pesquisador Walter Benjamin recorre aos monumentos históricos, afim de descobrir por meio de registros como ocorreu a colonização da cidade. "Uma barbárie"- O estudo examina obras canônicas como Colonização de Teresópolis (Ferrez, 1970) e Imagens de Teresópolis (Rahal, 1984), demonstrando como a construção do mito fundacional europeizado silenciou trajetórias de resistências e como foi o Quilombo da Serra e as trilhas abertas por tropeiros escravizados. Metodologicamente, a análise documental e crítica historiográfica revela contradições entre o discurso do "território vazio" (presente em Alencar e memorialistas locais) e as evidências de ocupação pré-colonial. Logo, essa invisibilização sustenta políticas contemporâneas, como o projeto turístico "Serra Verde Imperial", que naturaliza a memória colonial.[10]

Mapeando o patrimônio histórico esquecido

A Fazenda George March sede ficava onde éestá localizado o bairro Alto. No ano de 1818, o inglês George March arrendou a fazenda de Sant’Anna do Paquequer e as quatro sesmarias em seu entorno, e rebatizou com seu nome a localidade, que ficava na Região Serrana fluminense, onde hoje estão as cidades de Teresópolis e Guapimirim. Com mão de obra escrava, ali se produziam legumes e cereais, e também funcionava uma coudelaria – espécie de haras. Onde era a sede da fazenda, hoje está o bairro do Alto, de Teresópolis conta os registros.[11]

Patrimônio Fantasma e a corrida para a preservação histórica

O lugar é também um exemplo do que a historiadora da Universidade Federal Fluminense (UFF) Marcia Motta denomina como patrimônio fantasma: locais que, apesar do enorme valor histórico, não foram tombados pelo patrimônio público e correm o risco de ter sua história esquecida.[12]

Para evitar que isso aconteça, a historiadora vem coordenando, ao lado de Marina Machado, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a criação de um mapa histórico de patrimônios fantasmas de cidades fluminenses.[13]

George March além da cidade de Teresópolis

Cidade de Niterói: Além da Fazenda George March, outro local já identificado pelo projeto e fica no bairro do Fonseca, em Niterói, Região Metropolitana do Rio. Na esquina da Alameda São Boaventura com a Rua São Januário, onde hoje funciona um grande supermercado, ainda é possível ver a estrutura em que anteriormente funcionou o Cinema São Jorge. “Inaugurado em 1954, com 200 lugares, era considerado o Maracanã dos cinemas, devido às enormes dimensões do imóvel. Foi bastante popular, programando sessões duplas e atendendo principalmente aos moradores do bairro” detalha a pesquisadora.[14]

Cidade de Itaboraí: Ainda na Região Metropolitana, Itaboraí, onde estão os distritos de São José e Cabuçu, os pesquisadores identificaram e estão analisando o Aldeamento de São Barnabé, que reunia índios temiminós, moromomins e goitacazes.

“Em 1583, essas terras foram confirmadas pela Corte Portuguesa para fins de aldeamento, embora, anos mais tarde, os jesuítas tenham transferido esses índios para a região de Cachoeiras de Macacu. Foi o único aldeamento do Rio de Janeiro a obter o status de freguesia (1759) e vila (1772), embora isso não tenha impedido seu declínio na segunda metade do século XIX”.[15]

A história e os muitos dilemas

Localizado no município de Paraty, no Sul Fluminense. “Apesar da fama do lugar e de sua arquitetura colonial, em grande parte tombada pelo patrimônio histórico, verificou-se ali, que a força que o turismo tem provocado um excesso de mercantilização em sua economia e impedido que investimentos em outros setores da economia sejam realizados.[16]

A Única preservação Urbana histórica do Brasil - São Gonçalo

Cidade de São Gonçalo: Cidade vizinha a Niterói, onde fica a Fazenda Colubandê, único exemplar da arquitetura colonial rural preservada em área urbana no Brasil. Parte da sesmaria doada a Gonçalo Gonçalves, seu engenho foi vendido ao cristão novo Ramirez Duarte de Oliveira, que mudou de nome a fim de fugir da Inquisição.[17] [18]

Ver também

Referências

  1. ↑ https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&id=210071
  2. ↑ https://www.rj.anpuh.org/download/download?ID_DOWNLOAD=2318
  3. ↑ https://literaturabrasileira.ufsc.br/lugares/?tipo=3&id=4766
  4. ↑ TENDLER, Silvio; MEIHY, José Carlos Sebe Bom; RAYMUNDO, Jefferson dos Santos; TENDLER, Ana Rosa; DINIZ, Lilia Souza; FREIHOF, Ruth; TAVARES, Diego (2023). Pindorama: dos povos originários à construção da nação de todos (E-book). [S.l.]: Caliban. Consultado em 22 de maio de 2024
  5. ↑ https://www.studocu.com/pt-br/document/universidade-federal-de-sao-joao-del-rei/memoria-e-historia/cidade-para-ingles-ver-historia-e-identidade-em-teresopolis-rj/152614705
  6. ↑ LIDDINGTON, Jill. O que é historia pública. In Rabêlo, J. e Rovai, M. Introdução à História Pública. Letra e Voz (2011)
  7. ↑ https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/15474/15474_8.PDF
  8. ↑ https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revolta/quilombo-da-serra-dos-orgaos/
  9. ↑ https://www.e-publicacoes.uerj.br/cdf/article/view/91052
  10. ↑ https://repositorio.ufpa.br/items/86f83f69-107c-4bda-804b-b2ee7b9aaace
  11. ↑ https://www.e-publicacoes.uerj.br/cdf/article/download/91052/56722/369757
  12. ↑ https://www.historia.uff.br/stricto/td/1611.pdf
  13. ↑ http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300918662_ARQUIVO_TextoANPUH2011.pdf
  14. ↑ https://mercoserra.org.br/blog/detalhe/origem-do-nome-teresopolis/
  15. ↑ https://ihgrj.org.br/publi/Bibliografia%20Fluminense%20Vol.1.pdf
  16. ↑ https://bibonline.unifeso.edu.br/acervo/47630/reserva
  17. ↑ https://www.correiobraziliense.com.br/cbradar/a-cidade-carioca-cercada-de-verde-que-virou-um-modelo-de-preservacao-ambiental/
  18. ↑ https://www.gov.br/iphan/pt-br/assuntos/noticias/fazenda-colubande-em-sao-goncalo-rj-e-restaurada