Hunky Dory
| Hunky Dory | ||||
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| Álbum de estúdio de David Bowie | ||||
| Lançamento | 17 de dezembro de 1971[a] | |||
| Gravação | 8 de junho – 6 de agosto de 1971 | |||
| Estúdio(s) | Trident (Londres) | |||
| Gênero(s) | ||||
| Duração | 41:50 | |||
| Idioma(s) | Inglês | |||
| Gravadora(s) | RCA | |||
| Produção | Ken Scott, David Bowie | |||
| Cronologia de David Bowie | ||||
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| Singles de Hunky Dory | ||||
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Hunky Dory é o quarto álbum de estúdio do músico inglês David Bowie, lançado no Reino Unido em 17 de dezembro de 1971 pela RCA Records. Após um período afastado das turnês e gravações, Bowie dedicou-se a compor novas canções, optando pelo piano em vez do violão, como em seus trabalhos anteriores. Bowie reuniu Mick Ronson (guitarra), Trevor Bolder (baixo) e Mick Woodmansey (bateria) e gravou o álbum em meados de 1971 no Trident Studios, em Londres. Rick Wakeman contribuiu com o piano pouco antes de se juntar ao Yes. Bowie coproduziu o álbum com Ken Scott, que havia sido o engenheiro de som de seus dois discos anteriores.
Em comparação com o hard rock guiado pela guitarra de The Man Who Sold the World, Bowie optou por um estilo pop rock e art pop mais caloroso e melódico, baseado no piano, em Hunky Dory. Suas preocupações líricas no disco variam da natureza compulsiva da reinvenção artística em "Changes" ao ocultismo e à filosofia nietzschiana em "Oh! You Pretty Things" e "Quicksand"; várias canções fazem referências culturais e literárias. Ele também se inspirou em sua turnê pelos Estados Unidos para escrever canções dedicadas a três ícones americanos: Andy Warhol, Bob Dylan e Lou Reed. A canção "Kooks" foi dedicada ao filho recém-nascido de Bowie, Duncan. A capa do álbum, fotografada em monocromático e posteriormente colorida, apresenta Bowie em uma pose inspirada em atrizes da Era de Ouro de Hollywood.
A RCA ofereceu pouca promoção para Hunky Dory e seu single principal, "Changes", receosa de que Bowie transformasse sua imagem em breve. Assim, apesar das críticas muito positivas da imprensa musical britânica e americana, o álbum inicialmente vendeu pouco e não entrou nas paradas. Após o sucesso comercial do álbum Ziggy Stardust de Bowie em 1972, Hunky Dory despertou um interesse renovado, com as vendas atingindo o terceiro lugar na parada de álbuns do Reino Unido. Retrospectivamente, Hunky Dory foi aclamado pela crítica como um dos melhores trabalhos de Bowie e figura em diversas listas dos melhores álbuns de todos os tempos. No contexto de sua carreira, Hunky Dory é considerado o álbum onde "Bowie começa a se tornar Bowie", descobrindo definitivamente sua voz e estilo.[1]
Antecedentes
Após David Bowie concluir seu terceiro álbum de estúdio, The Man Who Sold the World, em maio de 1970, ele se tornou menos ativo tanto em estúdio quanto nos palcos. Seu contrato com a editora musical Essex havia expirado e seu novo empresário, Tony Defries, enfrentava desafios contratuais anteriores.[2][3] Bowie também estava sem banda de apoio, já que os músicos de The Man Who Sold the World – incluindo o produtor e baixista Tony Visconti, o guitarrista Mick Ronson e o baterista Mick Woodmansey – saíram em agosto de 1970 devido a conflitos pessoais com o artista.[2][3] Depois de ouvir uma demo de "Holy Holy", gravada no outono de 1970, Defries assinou um contrato com o cantor para a Chrysalis, mas, a partir daí, limitou seu trabalho com Bowie para se concentrar em outros projetos. Bowie, que se dedicava à composição, recorreu a Bob Grace, sócio da Chrysalis, que adorou a demo de "Holy Holy" e, posteriormente, reservou um tempo nos estúdios da Radio Luxembourg em Londres para que Bowie gravasse suas demos.[2][4] "Holy Holy", gravada em novembro de 1970 e lançada como single em janeiro de 1971, foi um fracasso comercial.[5][6]
Todo o álbum Hunky Dory refletiu meu entusiasmo recém-descoberto por este novo continente que se abriu para mim. Essa foi a primeira vez que uma situação externa real me afetou de forma tão completa que mudou minha maneira de escrever e minha maneira de ver as coisas.[7]
— David Bowie falando sobre como a América influenciou o álbum, 1999
O álbum The Man Who Sold the World foi lançado nos Estados Unidos pela Mercury Records em novembro de 1970.[6] O álbum vendeu pouco, mas teve melhor desempenho, tanto em termos de crítica quanto de vendas, nos EUA do que no Reino Unido.[3] Foi tocado frequentemente em estações de rádio americanas e seu "conteúdo de rock pesado" aumentou o interesse em Bowie.[8] O sucesso de crítica do álbum levou a Mercury a enviar Bowie em uma turnê promocional de rádio pelos EUA em fevereiro de 1971.[9] A viagem o inspirou a escrever canções em homenagem a três ícones americanos: o artista Andy Warhol, o cantor e compositor Bob Dylan e a banda de rock Velvet Underground, mais especificamente seu vocalista Lou Reed.[7][10] Após a turnê, Bowie retornou ao seu apartamento em Haddon Hall, Beckenham, onde gravou muitas de suas demos do início dos anos 1970 e começou a compor.[11] De acordo com sua então esposa Angela, Bowie passou um tempo compondo músicas no piano em vez do violão, o que "infundiria o sabor do novo álbum".[3] No total, ele compôs mais de três dúzias de músicas lá, muitas das quais apareceriam em Hunky Dory e em seu álbum seguinte, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars.[12] A primeira música que Bowie escreveu para Hunky Dory foi "Oh! You Pretty Things" em janeiro de 1971. Depois de gravar sua demo na Rádio Luxemburgo, Bowie deu a fita para Grace, que a mostrou a Peter Noone, do Herman's Hermits. Noone decidiu gravar sua própria versão e lançá-la como seu single de estreia.[3][13]
Lançada em abril de 1971, a versão de Noone para "Oh! You Pretty Things" foi um sucesso comercial, alcançando o 12º lugar na parada de singles do Reino Unido. Foi a primeira vez que a maioria dos ouvintes ouviu falar de Bowie desde "Space Oddity" (1969).[14][9] Noone disse à NME: "Na minha opinião, David Bowie é o melhor compositor da Grã-Bretanha no momento... certamente o melhor desde Lennon e McCartney."[15] Após o sucesso do single, Defries tentou libertar Bowie de seu contrato com a Mercury,[2][3] que expiraria em junho de 1971. Defries sentia que a Mercury não havia feito justiça financeira a Bowie. Embora a Mercury pretendesse renová-lo em termos melhores, Defries forçou a gravadora a rescindir o contrato em maio, ameaçando entregar um álbum de baixa qualidade. Defries então pagou as dívidas de Bowie à Mercury por meio da Gem Productions, e a gravadora renunciou aos seus direitos autorais sobre David Bowie (1969) e The Man Who Sold the World.[3]
Composição e gravação
Após o fim de sua banda de curta duração, Arnold Corns, em fevereiro, Bowie retornou ao estúdio em maio de 1971 para gravar seu próximo álbum.[16] Ele trouxe de volta Ronson e Woodmansey e contratou Trevor Bolder, um ex-cabeleireiro e afinador de pianos, como baixista para substituir Visconti.[3][16] Após a contratação de Bolder, o trio se reuniu em Haddon Hall para ensaiar algumas das novas músicas de Bowie, como a canção "Andy Warhol".[3] Bowie e seu novo trio de apoio, que logo seria chamado de Spiders from Mars, tocaram pela primeira vez em 3 de junho no programa de rádio In Concert, do DJ John Peel, da BBC. O repertório incluiu apresentações de estreia de várias músicas que Bowie havia escrito recentemente, como "Queen Bitch", "Bombers", "Song for Bob Dylan" e "Andy Warhol". O título Hunky Dory também foi anunciado nesta sessão.[16][17]
Bowie e os futuros Spiders começaram oficialmente a trabalhar no novo álbum no Trident Studios em Londres em 8 de junho de 1971.[16] Ken Scott, que havia sido o engenheiro de som dos dois discos anteriores de Bowie, foi contratado para coproduzir ao lado dele.[1] Scott aceitou o cargo como uma forma de ganhar experiência, embora na época não acreditasse que Bowie se tornaria uma grande estrela.[18] Em sua estreia como produtor, Scott utilizou alguns dos sons acústicos de All Things Must Pass (1970), de George Harrison, um álbum que ele havia produzido.[3][19] Scott manteve o papel de co-produtor nos três discos seguintes de Bowie: Ziggy Stardust, Aladdin Sane e Pin Ups.[10] Bowie tocou demos para Scott e os dois escolheram quais seriam gravadas para o álbum.[19] Em 8 de junho, a banda gravou "Song for Bob Dylan",[16] embora, segundo Nicholas Pegg, essa versão tenha sido descartada e a versão lançada só tenha sido gravada em 23 de junho.[3] Scott lembrou mais tarde que a gravação foi muito rápida: "Quase tudo foi feito em uma única tomada."[16] Ao discutir os vocais de Bowie, Scott afirmou: "Ele era único. [Ele é] o único cantor com quem já trabalhei em que praticamente todas as tomadas foram perfeitas."[18] Bolder descreveu a gravação com Bowie pela primeira vez como uma "experiência angustiante": "Quando aquela luz vermelha acendeu no estúdio, foi tipo, 'Meu Deus, estamos no fundo do poço!'"[16] Como co-produtor, Bowie demonstrou um interesse ativo no som e nos arranjos do álbum, uma mudança radical em relação à sua atitude geralmente distante durante as sessões de The Man Who Sold the World.[2][3]

Rick Wakeman, renomado músico de estúdio e membro do Strawbs,[3] toca piano no álbum;[b][19] ele já havia tocado Mellotron em David Bowie (1969).[20] Em 1995, ele relembrou que se encontrou com Bowie no final de junho de 1971 em Haddon Hall, onde ouviu demos de "Changes" e "Life on Mars?" em "seu brilho bruto... a melhor seleção de músicas que já ouvi de uma só vez em toda a minha vida... Eu mal podia esperar para entrar no estúdio e gravá-las."[21] De acordo com Wakeman, as primeiras sessões começaram mal, pois a banda não havia aprendido as músicas. Ele lembrou que Bowie teve que interromper as sessões, repreendendo os músicos e dizendo para voltarem quando soubessem a música. Quando eles retornaram depois de uma semana, Wakeman pensou: "A banda estava ótima! Eles eram muito bons, e as faixas simplesmente fluíam."[3] Esta história foi contestada por outros membros da banda, incluindo Bolder, que disse ao biógrafo Kevin Cann: “[Isso é] um disparate. David nunca teria repreendido a banda no estúdio. Especialmente porque Mick e Woody já o tinham deixado uma vez, e todos estavam agora a dar-se bem. A banda não teria sobrevivido a isso – definitivamente não aconteceu.” Scott argumentou: “Definitivamente não me lembro disso, e não é algo que eu esqueceria. Eu definitivamente contestaria isso.”[3][21]
Em 9 de julho, com Wakeman na formação, Bowie e a banda gravaram duas versões de "Bombers" e "It Ain't Easy", esta última com vocais de apoio de Dana Gillespie. Cinco dias depois, o grupo gravou quatro versões de "Quicksand", a última das quais aparece no álbum final.[21] Em 18 de julho, o grupo passou o dia ensaiando e mixando. Outras sessões de mixagem foram realizadas entre 21 e 26 de julho para compilar um álbum promocional para a Gem Productions. A essa altura, as músicas "Oh! You Pretty Things", "Eight Line Poem", "Kooks", "Queen Bitch" e "Andy Warhol" já haviam sido gravadas; as mixagens de "Eight Line Poem" e "Kooks" no álbum promocional diferiam das versões finais em Hunky Dory.[21] "The Bewlay Brothers" e "Changes" foram gravadas em 30 de julho.[21][22] Em 6 de agosto, a banda gravou "Life on Mars?" e "Song for Bob Dylan", após o que o processo de gravação foi considerado concluído. Antes do término das sessões, Bowie perguntou a Wakeman se ele queria fazer parte dos Spiders from Mars. Wakeman recusou e juntou-se à banda de rock progressivo Yes.[21]
Estilo musical
Após o som hard rock de The Man Who Sold the World, Hunky Dory apresenta uma mudança estilística em direção ao art pop e ao pop rock melódico.[23] As canções são, em sua maioria, conduzidas pelo piano em vez da guitarra.[3] O biógrafo Marc Spitz acredita que o piano evoca uma sensação mais calorosa neste disco em comparação com seus dois predecessores.[12] Christopher Sandford afirma que "as canções [são] caracterizadas pela atmosfera exuberante estabelecida pela voz de Bowie e pelo piano" e, juntamente com Elton John e Phil Collins, ajudaram a criar música no "contínuo easy-listening".[24] Lior Phillips, da Consequence of Sound, escreveu que as canções são acessíveis, tanto musical quanto liricamente, permitindo que o ouvinte as disseque repetidamente.[25] O jornalista musical Peter Doggett concorda, considerando Hunky Dory como "um conjunto de canções pop atraentes e acessíveis, através das quais Bowie testou seus sentimentos sobre a natureza do estrelato e do poder".[26] Rick Quinn descreveu as canções na PopMatters como uma fusão de "pop britânico, obras orquestrais, art-rock, folk e baladas" que emergem para formar o glam rock.[27]
Robert Dimery, em seu livro 1001 Albums You Must Hear Before You Die, o chama de "uma caixa de brinquedos de peculiaridades acústicas, tributos a heróis e surrealismo".[28] Stephen Thomas Erlewine, da AllMusic, o descreve como "uma variedade caleidoscópica de estilos pop, unidos apenas pelo senso de visão de Bowie: uma mistura abrangente e cinematográfica de alta e baixa cultura, sexualidade ambígua, kitsch e classe".[29] Michael Gallucci, do Ultimate Classic Rock, observa que este é o primeiro disco de Bowie a incluir "uma mistura de pop, glam, art e folk envolta em uma postura ambissexual que viria a definir o artista".[1] James Perone descreve o álbum de forma semelhante como "uma mistura única de folk, pop, glam e rock progressivo" que distinguiu Bowie de outros músicos da época.[30] Peter Ormerod do The Guardian escreve que a música de Hunky Dory celebra “a incerteza, a falta de raízes, o caos interior, a diferença, a alteridade, a dúvida e a impermanência” e o faz com “beleza, estilo e carisma”.[31]
Lado um
A faixa de abertura, "Changes", é construída em torno de um riff de piano distinto.[32] A letra se concentra na natureza compulsiva da reinvenção artística e no distanciamento do mainstream do rock.[19] O biógrafo David Buckley escreve que "estranha fascinação" é uma frase que "incorpora uma busca contínua pelo novo e pelo bizarro".[19] Pegg resume a letra como Bowie "segurando um espelho diante de si" justamente quando está prestes a alcançar o estrelato.[33] Doggett observa que "Changes" é uma "declaração de propósito": como faixa de abertura, a música proporcionou um forte contraste com o som hard rock encontrado em seu antecessor. A música também era diferente de "Space Oddity" e de seu álbum de 1969, sendo, em vez disso, "pop puro, descaradamente melódico, alegremente comercial e maravilhosamente melodioso".[32]
"Oh! You Pretty Things" foi a primeira faixa escrita para o álbum.[14] O estilo do piano foi comparado ao de "Martha My Dear" dos Beatles.[19][34] A letra faz referência aos ensinamentos do ocultista Aleister Crowley e sua Golden Dawn e ao filósofo Friedrich Nietzsche, particularmente com os versos "o homo superior", "os dourados" e "o homo sapiens superou sua utilidade".[19] "Homo Superior" refere-se à teoria de Nietzsche sobre o Übermensch, ou "Super-homem".[14] A própria música oferece um contraste com os temas mais sombrios. Doggett descreve a performance vocal de Bowie como "bastante despojada, apresentada de forma tão austera... que [é] quase perturbadora".[35]
Concebida para soar como uma "continuação" da faixa anterior,[32] "Eight Line Poem" é descrita por Pegg como a canção mais "subestimada" do álbum.[36] Ela apresenta Bowie ao piano, suave e esporádico, enquanto canta, e uma linha de guitarra com influência country de Ronson.[37][36] Com exatamente oito versos,[32] a letra descreve um quarto onde um gato acabou de derrubar um móbile giratório e um cacto está em uma janela.[38] Doggett acredita que há uma metáfora entre o cacto e uma pradaria.[32] Na época do lançamento do álbum, Bowie descreveu a canção como a cidade que é "uma espécie de verruga de vida alta no lado obscuro da pradaria".[36]
"Life on Mars?" é descrita por Buckley como uma "balada cinematográfica arrebatadora".[19] Embora Bowie estivesse obcecado em se tornar Ziggy Stardust na época da gravação, a música não tem nenhuma ligação com Marte em si; o título era uma referência ao recente frenesi midiático da corrida entre os EUA e a União Soviética para chegar ao planeta vermelho.[32] A música é uma paródia de "My Way", do cantor Frank Sinatra, uma tradução para o inglês da canção francesa "Comme d'habitude", e usa a mesma sequência de acordes em seus compassos iniciais. As notas manuscritas na contracapa dizem "Inspirado por Frankie".[32][39] Como a maioria das músicas do álbum, "Life on Mars?" é conduzida principalmente pelo piano, mas apresenta um arranjo de cordas de Ronson – o seu primeiro[39] – que é descrito por Doggett como "gigantesco".[32] Os vocais de Bowie – gravados em uma única tomada – são interpretados com paixão durante o refrão e quase nasalados nos versos.[19][32] Ele menciona "a garota de cabelo castanho-avermelhado", cuja identidade foi debatida por comentaristas[c][39] e que, segundo Greene, "vai ao cinema como uma fuga da vida".[7]

Poucos dias após o nascimento de seu filho Duncan Zowie Haywood Jones, em 30 de maio de 1971, Bowie completou "Kooks" e a dedicou a ele. Apresentada por Bowie já em 3 de junho, a versão de Hunky Dory conta com um arranjo de cordas de Ronson e trompete tocado por Bolder.[40] "Kooks" é notavelmente mais leve do que as duas faixas entre as quais está sequenciada, mas, segundo Pegg, em última análise, "carrega uma sugestão da preocupação [do álbum] com a compulsão de ficcionalizar a vida, já que Bowie convida seu filho a 'permanecer em nossa história de amor'".[40] Doggett escreve que sua inclusão em Hunky Dory "garantiu seu apelo duradouro entre aqueles que estavam menos fascinados por suas explorações de política, psicologia e ocultismo em outras partes do álbum".[41] Nas notas manuscritas do encarte do LP, Bowie escreveu "Para o Pequeno Z".[37]
Segundo Pegg, "Quicksand" foi inspirada pela viagem de Bowie à América em fevereiro de 1971.[42] Doggett afirma que a canção "foi escrita sobre a falta de inspiração e como um meio de acessá-la". O escritor Colin Wilson escreveu em The Occult (1971) que o pensamento era uma forma de areia movediça que permitia à consciência manter o inconsciente fora de alcance, a partir do qual Doggett concluiu que " 'Quicksand' foi o apelo de Bowie para buscar dentro de si mesmo o caminho".[32] Em meados da década de 1970, Bowie descreveu a canção como "uma mistura de narrativa e surrealismo" e uma "precursora" da música de seu álbum Low, de 1977. Ao longo da faixa, Bowie faz inúmeras referências a Crowley e sua Golden Dawn, Winston Churchill, Heinrich Himmler e os "super-homens" de Friedrich Nietzsche.[32][42] "Quicksand" também evoca o espiritualismo através da menção de ensinamentos budistas como o bardo.[42] A faixa instrumental apresenta múltiplas camadas de guitarras acústicas sobrepostas,[19] o que foi feito por insistência de Scott.[42]
Lado dois
"Fill Your Heart", escrita por Biff Rose e Paul Williams, é a única faixa de Hunky Dory que não foi escrita por Bowie;[43] foi sua primeira gravação de cover em seis anos.[44] Ela substituiu "Bombers" como a faixa de abertura do lado B no final do desenvolvimento do álbum. "Fill Your Heart" é uma das faixas mais animadas do álbum,[43] e, de acordo com Doggett, é "praticamente idêntica" à versão original de Rose, embora mais "vibrante" e menos "swingada".[45] O arranjo conduzido pelo piano difere das performances ao vivo de Bowie da música em 1970, quando o violão predominava. Pegg escreve que a faixa fornece um "contraponto convincente" à "angústia" de "Quicksand" e aos "avisos cautelosos" de "Changes" e é mais lembrada pelo solo de saxofone de Bowie, o arranjo de cordas de Ronson e o solo de piano de Wakeman.[43]

A canção "Andy Warhol" é uma homenagem ao artista, produtor e diretor americano Andy Warhol,[19] que inspirou Bowie desde meados da década de 1960 e foi descrito por ele como "um dos líderes" da "mídia das ruas, mensagens das ruas".[46] Originalmente escrita para a amiga de Bowie, Dana Gillespie,[47] a canção é baseada em um riff tocado em dois violões que lembra muito a introdução de "Silent Song Through the Land", de Ron Davies.[48] A letra enfatiza a crença de Warhol de que a vida e a arte se confundem.[46] A abertura da canção apresenta Ken Scott dizendo "This is 'Andy Warhol', and it's take one", apenas para Bowie corrigir sua pronúncia de "Warhol".[12][48] Quando Bowie conheceu Warhol em setembro de 1971 e tocou a música para ele, Warhol a odiou e saiu da sala; Bowie recordou em 1997 que achou o encontro "fascinante" porque Warhol "não tinha nada a dizer, absolutamente nada".[48]
"Song for Bob Dylan" é uma canção em homenagem ao cantor e compositor Bob Dylan.[19] Foi descrita por Bowie na época como "como alguns veem BD", e seu título é uma paródia da homenagem de Dylan de 1962 ao cantor folk Woody Guthrie, "Song to Woody".[49] Ao longo da canção, Bowie se dirige a Dylan por seu nome verdadeiro, "Robert Zimmerman".[50] Pegg e Doggett acreditam que a canção destaca a luta de Bowie com a identidade, de seu nome verdadeiro, David Jones, para seu nome artístico, David Bowie, e, muito brevemente, para Ziggy Stardust.[49][50] A letra apresenta especificamente Dylan como não sendo mais uma figura heroica para a música rock e exige que ele retorne às suas raízes e venha em socorro dos infiéis.[19][49] De acordo com Doggett, Bowie inicialmente a escreveu para seu amigo George Underwood.[50] A música contém mudanças de acordes à la Dylan e o refrão deriva dos títulos de duas canções do Velvet Underground, "Here She Comes Now" e "There She Goes Again". Buckley escreve que a canção é "provavelmente a mais fraca" do álbum e Pegg a considera "pouco apreciada".[19][49]

A última música de tributo do álbum, "Queen Bitch", é amplamente inspirada na banda de rock Velvet Underground, especificamente em seu vocalista Lou Reed.[19] As notas manuscritas na contracapa dizem: "algum V.U. White Light devolvido com agradecimentos".[51] Ao contrário da maioria das faixas do álbum, "Queen Bitch" é conduzida principalmente pela guitarra em vez do piano,[51] e caracterizada como glam rock e protopunk.[52][53] O refrão canta sobre Bowie ostentando seu "cetim e tatuagens" como uma referência ao dançarino Lindsay Kemp. Pegg afirma: "Parte da genialidade de 'Queen Bitch' é que ela filtra a ironia de Marc Bolan e Kemp através da atitude malandra de Reed: esta é uma música que consegue fazer a expressão 'bipperty-bopperty hat' soar obscena e descolada."[51] Daryl Easlea da BBC Music escreve que o som glam rock da canção prenunciou a direção que Bowie tomou em Ziggy Stardust.[54]
[É] mais uma peça vagamente anedótica sobre meus sentimentos em relação a mim mesmo e ao meu irmão, ou ao meu outro doppelgänger. Eu nunca tive muita certeza de qual era a posição real de Terry na minha vida, se Terry era uma pessoa real ou se eu estava me referindo a outra parte de mim, e acho que 'Bewlay Brothers' era realmente sobre isso.[55]
— David Bowie descrevendo "The Bewlay Brothers", no documentário da BBC Golden Years
A faixa que encerra o álbum, "The Bewlay Brothers", foi uma adição tardia e a única faixa que não foi demo.[55] A instrumentação ecoa a música de The Man Who Sold the World, apresentando efeitos sonoros "sinistros" e o vocal de Bowie acompanhado pelo violão de Ronson.[19][55] A letra obscura da música causou confusão entre biógrafos e fãs de Bowie.[32] Pegg a descreve como "provavelmente a gravação mais enigmática, misteriosa, insondável e absolutamente assustadora de Bowie que existe",[55] e Buckley a considera "um dos momentos mais inquietantes de Bowie gravados, uma encapsulação de alguma qualidade distante e indefinível de terror expressionista".[19] Muitos críticos perceberam que a faixa tinha nuances homoeróticas; Outros acreditavam que se tratava do relacionamento de Bowie com seu meio-irmão esquizofrênico Terry Burns, o que Bowie confirmou em 1977.[55] Buckley não tem certeza se esse relato é ficcional ou real. Algumas das letras fazem referência a outras faixas de Hunky Dory, incluindo "Song for Bob Dylan", "Oh! You Pretty Things" e "Changes". Bowie também usa a palavra "camaleão" na música, que se tornou um termo frequentemente usado para descrevê-lo.[19][55]
Título e arte da capa
A fotografia da capa foi tirada por Brian Ward, que foi apresentado a Bowie por Bob Grace no estúdio de Ward na Heddon Street. Uma das primeiras ideias era que Bowie se vestisse de faraó, em parte inspirada pela fascinação da mídia pela nova exposição de Tutancâmon no Museu Britânico.[3] De acordo com Pegg, fotos de Bowie posando "como uma esfinge e em posição de lótus" foram tiradas – uma delas foi lançada como parte da reedição de Space Oddity em 1990 – mas a ideia acabou sendo abandonada. Bowie relembrou: "Não demos continuidade a isso, como se diz. Provavelmente foi uma boa ideia."[3] Bowie optou por uma imagem mais minimalista, refletindo a "preocupação do álbum com a tela prateada". Mais tarde, ele disse: "Eu gostava de bolsas Oxford, e há um par, de fato, na contracapa do álbum. [Eu estava tentando] o que eu presumia ser uma espécie de visual Evelyn Waugh Oxbridge."[3] A imagem final é um close-up de Bowie olhando para além da câmera enquanto puxa o cabelo para trás. Pegg escreve que sua pose foi influenciada pelas atrizes Lauren Bacall e Greta Garbo.[3] Originalmente fotografada em monocromático, a imagem foi colorida pelo ilustrador Terry Pastor, sócio do recém-inaugurado estúdio de design Main Artery, em Covent Garden, com George Underwood; Pastor mais tarde desenhou a capa e o encarte de Ziggy Stardust. Pegg escreve: "A decisão de Bowie de usar uma foto colorida sugere um cartaz de cinema colorido à mão da época do cinema mudo e, simultaneamente, as famosas serigrafias do Díptico Marilyn de Warhol."[3] Dimery escreve que Bowie levou um livro de fotos que continha várias impressões de Marlene Dietrich para a sessão de fotos.[28][56]
Embora Bowie normalmente esperasse até o último momento possível para nomear seus álbuns, o título "Hunky Dory" foi anunciado na sessão de John Peel. Grace teve a ideia a partir de um dono de pub em Esher. Ele contou a Peter e Leni Gillman, autores de Alias David Bowie, que o dono do pub tinha um vocabulário incomum, repleto de jargões da alta sociedade, como "prang", "whizzo" e "everything's hunky-dory". Grace contou a Bowie, que adorou. Pegg observa que havia uma música de 1957 da banda americana de doo-wop The Guytones, também intitulada "Hunky Dory", que pode ter influenciado a escolha do título.[3] Spitz afirma que "hunky-dory" é uma gíria inglesa que significa que tudo está bem no mundo.[12] A capa original do Reino Unido apresentava o nome de Bowie e o título do álbum; nos EUA, o título foi impresso em um adesivo e colocado na embalagem translúcida. Segundo Cann, as primeiras prensagens no Reino Unido foram laminadas, o que realçou a cor para criar um "acabamento superior"; essas prensagens são agora itens de colecionador. A contracapa apresentava anotações manuscritas de Bowie sobre cada música do álbum.[10] Também trazia o crédito "Produzido por Ken Scott (assistido pelo ator)" – o "ator" sendo o próprio Bowie, cuja "pretensão", nas palavras dos críticos da NME, Roy Carr e Charles Shaar Murray, era "pensar em si mesmo como um ator".[57]
Lançamento

Poucos meses depois de ter rescindido o contrato de Bowie com a Mercury, Defries apresentou o recém-gravado Hunky Dory a várias gravadoras nos EUA, incluindo a RCA Records de Nova Iorque. Defries disse à RCA que eles "não tinham nada desde os anos cinquenta", mas que poderiam "dominar os anos setenta" se contratassem Bowie. "Porque David Bowie vai refazer a década, assim como os Beatles fizeram nos anos sessenta."[58] Seu chefe, Dennis Katz, nunca tinha ouvido falar de Bowie, mas reconheceu o potencial das canções baseadas em piano que Defries tocou para ele e assinou com o artista um contrato de três discos em 9 de setembro de 1971; a RCA seria a gravadora de Bowie pelo resto da década.[59][60]
Hunky Dory foi lançado no Reino Unido em 17 de dezembro de 1971 pela RCA.[a][1][61][64] Nessa época, as sessões de gravação de Ziggy Stardust estavam em andamento.[61] O lançamento do álbum foi promovido pelo single "Changes" em 7 de janeiro de 1972.[37] O álbum recebeu pouca promoção da RCA devido à sua capa incomum e a um aviso de que Bowie mudaria sua imagem para o próximo álbum. Pegg escreve que houve desacordos sobre quanto dinheiro foi investido no álbum e se Bowie era um "artista de um sucesso só sem provas".[3] O gerente de marketing Geoff Hannington relembrou em 1986: "Logo percebemos que estávamos em uma situação em que o artista iria mudar como um camaleão de tempos em tempos."[61] Por causa disso, o álbum inicialmente vendeu pouco e não conseguiu entrar na parada de álbuns do Reino Unido.[65] Segundo Sandford, o álbum vendeu pouco menos de 5.000 cópias no primeiro trimestre.[66]
Foi somente após o sucesso estrondoso de Ziggy Stardust em meados de 1972 que Hunky Dory se tornou um sucesso comercial. Alcançou o terceiro lugar no Reino Unido (duas posições acima de Ziggy Stardust),[3][67] e permaneceu na parada por 69 semanas.[68] Hunky Dory também alcançou o 39º lugar no Kent Music Report na Austrália.[69] Gallucci escreve que, embora o álbum não tenha transformado Bowie em uma estrela, "o fez ser notado", e o sucesso de Ziggy Stardust ajudou Hunky Dory a conquistar um público maior.[1] A RCA lançou "Life on Mars?" como single em 22 de junho de 1973,[37] que também alcançou o terceiro lugar na Grã-Bretanha.[70] Um relançamento trouxe o álbum de volta à parada do Reino Unido em janeiro de 1981, onde permaneceu por 51 semanas.[68]
Recepção crítica
Recepção inicial
Hunky Dory foi recebido com críticas muito positivas de diversas publicações britânicas e americanas.[3][57] A Melody Maker o chamou de "a composição mais inventiva a ter aparecido em disco em um tempo considerável",[3] enquanto Danny Holloway, da NME, o descreveu como Bowie "em seu melhor momento".[71] Holloway acrescentou que "[Hunky Dory é] um sopro de ar fresco em comparação com o LP de rock mainstream usual de [1972]. É bem possível que este seja o álbum mais importante de um artista emergente em 1972, porque ele não está seguindo tendências – ele está criando-as".[71] Nos EUA, John Mendelsohn, da Rolling Stone, chamou o álbum de "o álbum mais envolvente musicalmente" de Bowie até então e elogiou sua composição, particularmente sua capacidade de transmitir ideias sem empregar "uma enxurrada de palavras aparentemente impenetráveis".[72] A Billboard deu ao álbum uma crítica positiva, elogiando-o como "uma estreia impactante para a RCA, repleta do tipo de apelo Top 40 e FM que deve levá-lo ao sucesso nas paradas. Material forte, de sua autoria, para programação inclui 'Changes', 'Oh! You Pretty Things' e 'Life on Mars?'".[73] No Los Angeles Times, Robert Hilburn acreditava que, em comparação com seus três primeiros álbuns, Hunky Dory garantia que Bowie merecia um lugar entre as "figuras mais importantes da música pop" da época. Ele ainda descreveu Bowie como um "grande talento", elogiando a instrumentação, as performances vocais e os temas do álbum.[74]
Diversos críticos elogiaram Bowie como artista. O The New York Times escreveu que, com Hunky Dory, Bowie se tornou "o homem intelectualmente mais brilhante a escolher o álbum de longa duração como seu meio de expressão", enquanto a revista Rock o chamou de "o artista mais singularmente talentoso fazendo música hoje. Ele tem o gênio para ser para os anos 70 o que Lennon, McCartney, Jagger e Dylan foram para os anos 60".[75] No The Village Voice, Robert Christgau aclamou Bowie como "um cantor-compositor com inteligência, imaginação e uma boa noção de como usar um console de gravação", e o álbum como "uma demonstração de força com mudanças rápidas, que é ao mesmo tempo cativante e profundamente sentida".[76]
Recepção retrospectiva
| Avaliações profissionais retrospectivas | |
|---|---|
| Avaliações da crítica | |
| Fonte | Avaliação |
| AllMusic | |
| Blender | |
| Chicago Tribune | |
| Christgau's Record Guide | A−[79] |
| Classic Rock | |
| Encyclopedia of Popular Music | |
| Pitchfork | 10/10[82] |
| Rolling Stone | |
| The Rolling Stone Album Guide | |
| Spin | |
| Spin Alternative Record Guide | 9/10[86] |
Hunky Dory continua a receber aclamação da crítica e é considerado um dos melhores trabalhos de Bowie. Muitos críticos elogiaram a composição, com um crítico da Blender chamando as canções de algumas das melhores que Bowie já escreveu.[77] Outros, incluindo Bryan Wawzenek, do Ultimate Classic Rock, elogiaram a ampla gama de gêneros presentes nas canções e sua capacidade de se misturarem ao longo do álbum.[87] Erlewine escreveu: "À primeira vista, [ter] uma gama tão ampla de estilos e sons tornaria um álbum incoerente, mas a composição aprimorada de Bowie e seu senso de estilo determinado fizeram de Hunky Dory uma referência para reinterpretar as tradições do pop em uma música pop fresca e pós-moderna".[29] Da mesma forma, Greg Kot, do Chicago Tribune, descreveu o álbum como "o primeiro vislumbre do gênio multifacetado de Bowie".[78]
Em uma pesquisa de leitores da Rolling Stone de 2013, Hunky Dory foi eleito o segundo melhor álbum de Bowie, atrás de Ziggy Stardust.[88] Douglas Wolk, da Pitchfork, analisou a remasterização do álbum para o box set de 2015 Five Years 1969–1973 e deu a ele uma nota 10 de 10, considerando as músicas "dispersas, mas esplêndidas" e achando que a composição de Bowie representou um "grande salto" em relação aos seus trabalhos anteriores.[82] Outro crítico da Pitchfork, Ryan Schrieber, afirmou: "O álbum não é de forma alguma seu lançamento mais coeso, mas continua sendo um dos mais encantadores e, sem dúvida, um dos melhores."[89] Após a morte de Bowie em 2016, Rob Sheffield da Rolling Stone listou-o como um dos álbuns essenciais de Bowie, escrevendo: "Hunky Dory foi o álbum onde ele reivindicou o ego mais alterado do rock & roll."[90]
Influência e legado
"Hunky Dory me deu uma onda fantástica. Acho que me proporcionou, pela primeira vez na minha vida, um público real – quero dizer, pessoas realmente vindo até mim e dizendo: 'Bom álbum, boas músicas'. Isso nunca tinha acontecido comigo antes."[91]
— David Bowie, 1999
Muitos biógrafos e críticos concordam que Hunky Dory marcou o início do sucesso artístico de Bowie. Pegg escreve: "Hunky Dory representa a primeira grande encruzilhada na carreira de Bowie. Foi seu último álbum, até Low, a ser apresentado puramente como um artefato sonoro, em vez de um veículo para o elemento visual dramático com o qual ele logo se consagraria como artista".[3] Buckley observa que 1971 foi um ano crucial para Bowie, o ano em que ele se tornou "uma espécie de agente provocador do art pop".[19] Numa época em que os músicos de rock se apegavam às tradições e aos padrões estabelecidos, Bowie buscava ser radicalmente diferente e desafiar a tradição, reinventando-se constantemente e, assim, criando novos padrões e convenções.[19] Buckley acrescenta: "Seu status quase de easy listening e sua sensibilidade musical convencional desviaram a atenção do fato de que, liricamente, este disco estabelece o modelo para a futura carreira de Bowie".[92] Spitz escreve que muitos artistas têm o seu disco "em que tudo se encaixou". "Para David Bowie, é Hunky Dory".[12] O biógrafo Paul Trynka afirma que o disco marcou um "novo começo" para o artista e que tem uma "frescura" que faltava a todos os álbuns de estúdio anteriores de Bowie, principalmente porque, ao fazer os seus álbuns anteriores, Bowie estava a trabalhar para satisfazer os executivos das gravadoras. Ao fazer Hunky Dory, Bowie estava a trabalhar para se satisfazer a si próprio, o que se reflete no disco.[18]
Daryl Easlea, da BBC Music, escreveu que o álbum marcou a descoberta da voz de Bowie após quase uma década "buscando inspiração estilística" e que ele "finalmente demonstrou seu enorme potencial ao público ouvinte".[54] Schrieber afirmou: "Hunky Dory marcou o verdadeiro início do que seria uma das carreiras mais bem-sucedidas da música rock, gerando milhões de fãs assustadoramente obcecados".[89] Da mesma forma, Michael Gallucci, do Ultimate Classic Rock, argumentou que Hunky Dory é "onde Bowie começa a se tornar Bowie", apresentando temas líricos e estilísticos que ele replicaria em lançamentos futuros. Ele conclui que todas as futuras personas de Bowie começam a encontrar suas vozes com Hunky Dory.[1] Emily Barker, da NME, chamou-o de "o álbum mais atemporal" de Bowie e escreveu: "foram seus incríveis dons de composição neste disco que nos convenceram de que ele era um talento predestinado".[93] O escritor Colin Larkin chamou-o de seu álbum mais "eclético" e serviu como preparação para as mudanças subsequentes na direção musical de Bowie.[94] Em 2016, Joe Lynch, da Billboard, argumentou que Hunky Dory forneceu o "modelo" para discos de indie pop e lo-fi pelos próximos 25 anos, citando Ariel Pink como uma artista influenciada pelo álbum.[53]
Muitos músicos reconheceram a influência do álbum. Em 1999, Dave Stewart, do Eurythmics, disse: "Hunky Dory – eu adoro o som dele. Eu ainda o uso como uma espécie de ponto de referência."[3] Em 2002, Boy George, do Culture Club, citou Hunky Dory como o disco que mudou sua vida, dizendo: "O álbum como um todo é tão incomum, tão diferente de tudo que você ouve no rádio. É tão completo, tudo se encaixa."[3] Em uma entrevista para a Mojo em 2007, KT Tunstall declarou Hunky Dory seu álbum favorito, dizendo: "É o único disco em que experimentei uma admiração total e arrebatadora por ele como um todo, porque essa sensação de estar perdida e ser levada para outro lugar é muito forte."[3] Em uma entrevista para a NME no ano seguinte, Guy Garvey, do Elbow, reconheceu Hunky Dory como o álbum que mais o influenciou.[3]
Classificações
Hunky Dory apareceu frequentemente em diversas listas dos melhores álbuns de todos os tempos, elaboradas por várias publicações. Em 1998, os leitores da revista Q o elegeram o 43º melhor álbum de todos os tempos;[95] em 2000, a mesma revista o colocou em 16º lugar em sua lista dos 100 Maiores Álbuns Britânicos de Todos os Tempos.[96] O álbum ficou em 16º e 23º lugar nas edições de 1998 e 2000 do livro All Time Top 1000 Albums, de Colin Larkin, respectivamente.[94][97] Em sua lista dos 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos, a Rolling Stone o classificou em 107º lugar em 2003,[98] em 108º lugar na lista revisada de 2012,[99] e em 88º lugar na lista revisada de 2020.[100] Em 2004, a Pitchfork classificou o álbum em 80º lugar na sua lista dos 100 Melhores Álbuns da Década de 1970, uma posição acima de Ziggy Stardust.[89] No mesmo ano, a VH1 colocou-o em 47º lugar na sua lista dos 100 melhores álbuns.[101] Em 2006, a revista Time escolheu-o como um dos 100 melhores álbuns de todos os tempos, com o jornalista Josh Tyrangiel a elogiar a "ambição terrena de Bowie de ser um poeta boémio com um estilo prodigioso".[102] Em 2010, a Consequence of Sound classificou o álbum em 18º lugar na sua lista dos 100 melhores álbuns de todos os tempos.[103] Em 2013, a NME classificou o álbum em terceiro lugar na sua lista dos 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos, atrás de Revolver dos Beatles e The Queen Is Dead do The Smiths.[93] Em 2015, a Ultimate Classic Rock incluiu-o na sua lista dos 100 melhores álbuns de rock dos anos 70.[104] Em 2021, a Spin classificou-o como o sexto melhor álbum de 1971.[105] Robert Dimery incluiu o álbum no seu livro de 2005, 1001 Albums You Must Hear Before You Die.[28]
Reedições
O álbum foi relançado diversas vezes. Após seu lançamento em CD em meados da década de 1980,[106] Hunky Dory foi relançado pela Rykodisc / EMI em 1990 com faixas bônus, incluindo a faixa descartada "Bombers".[107] Em 1999, o álbum original foi relançado em CD pela Virgin / EMI com som remasterizado digitalmente em 24 bits.[108] Esta edição foi relançada em 2014 pela Parlophone, que adquiriu o catálogo de Bowie pertencente à Virgin.[109] Em 2015, o álbum foi remasterizado para o box set Five Years (1969–1973).[110][111] Foi lançado em CD, vinil e formatos digitais, tanto como parte desta compilação quanto separadamente.[112] Em 2021, para celebrar o 50º aniversário do disco, a Parlophone anunciou uma reedição em vinil picture disc do álbum (remasterizado em 2015), que foi lançada em 7 de janeiro de 2022. O anúncio coincidiu com o lançamento digital de uma nova mixagem de "Changes" por Scott.[113] Em novembro de 2022, foi lançado um box set com vários discos focado em Hunky Dory, intitulado Divine Symmetry: The Journey to Hunky Dory. A coleção inclui demos caseiras, sessões de rádio da BBC, mixagens alternativas e outras gravações ao vivo e de estúdio de 1971. Também inclui a remasterização de 2015, bem como uma versão "alternativa" de Hunky Dory, composta por mixagens alternativas; esta última foi lançada separadamente em vinil em fevereiro de 2023.[114]
Faixas
Todas as faixas são de autoria de David Bowie, exceto "Fill Your Heart", escrita por Biff Rose e Paul Williams.[115]
| Lado A | ||||||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| N.º | Título | Duração | ||||||||
| 1. | "Changes" | 3:37 | ||||||||
| 2. | "Oh! You Pretty Things" | 3:12 | ||||||||
| 3. | "Eight Line Poem" | 2:55 | ||||||||
| 4. | "Life on Mars?" | 3:43 | ||||||||
| 5. | "Kooks" | 2:53 | ||||||||
| 6. | "Quicksand" | 5:08 | ||||||||
| Lado B | ||||||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| N.º | Título | Duração | ||||||||
| 7. | "Fill Your Heart" | 3:07 | ||||||||
| 8. | "Andy Warhol" | 3:56 | ||||||||
| 9. | "Song for Bob Dylan" | 4:12 | ||||||||
| 10. | "Queen Bitch" | 3:18 | ||||||||
| 11. | "The Bewlay Brothers" | 5:22 | ||||||||
Duração total: |
41:50 | |||||||||
Créditos
Créditos do álbum de acordo com as notas do encarte de Hunky Dory e o biógrafo Nicholas Pegg,[3][115] exceto onde indicado.
Músicos
- David Bowie – vocais, guitarra, saxofone alto e tenor, piano ("Oh! You Pretty Things",[116][117] "Eight Line Poem"[37])
- Mick Ronson – guitarra, vocais, Mellotron, arranjos, flauta doce ("Life on Mars?")[37]
- Trevor Bolder – baixo, trompete
- Mick Woodmansey – bateria
- Rick Wakeman – piano
- Ken Scott – sintetizador ARP ("Andy Warhol")[37]
Produção
- Ken Scott – produtor, engenheiro de gravação, engenheiro de mixagem
- David Bowie – produtor
- Brian Ward – fotografia
- Terry Pastor – design da capa
Notas
- 1 2 Algumas fontes indicam a data de lançamento como 17 de novembro de 1971 no Reino Unido e 4 de dezembro nos EUA.[3][61][62] De acordo com Chris O'Leary, a data nos EUA foi anterior à do Reino Unido, embora ele questione a data reportada pela Billboard de sábado, 4 de dezembro. Ele, no entanto, esclarece a data no Reino Unido como 17de dezembro.[63]
- ↑ O piano que Wakeman tocou foi o mesmo Bechstein de 1898 usado por Paul McCartney para "Hey Jude" dos Beatles (1968) e mais tarde pelo Queen para "Bohemian Rhapsody" (1975).[3]
- ↑ Muitos jornalistas e comentadores sugeriram que "a garota de cabelo castanho claro" fosse Hermione Farthingale, uma ex-namorada de Bowie. No entanto, Pegg discorda, escrevendo que não há evidências para apoiar essa afirmação e a própria Farthingale rejeitou essa teoria.[39]
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Ligações externas
- Hunky Dory no Discogs (lista de lançamentos)
- «Hunky Dory» (em inglês). Perfil do álbum no site de David Bowie.


