Joana Lopes

Joana Lopes
Nascimento11 de outubro de 1938
Maputo
Morte5 de fevereiro de 2026 (87 anos)
Lisboa
CidadaniaPortugal
Ocupaçãoengenheira de sistemas, antifascista
Empregador(a)IBM, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Joana Lopes Alves (Maputo, 11 de outubro de 1938 – Lisboa, 5 de fevereiro de 2026) foi uma lutadora antifascista contra a ditadura em Portugal e engenheira de sistemas portuguesa. Foi a primeira mulher a integrar o conselho executivo da IBM em Portugal.

Biografia

Maria Joana de Menezes Lopes nasceu em Lourenço Marques, atual Maputo, Moçambique, a 11 de outubro de 1938.[1]

Educação e carreira profissional

Joana Lopes frequentou o liceu e o primeiro ano da licenciatura em Matemática em Portugal.[2]

Aos 18 anos, mudou-se para Lovaina, na Bélgica, onde se licenciou e doutorou em Filosofia.[2]

Foi professora de Lógica e de outras cadeiras do Departamento de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, de 1965 a 1971.[2][3]

Posteriormente, tornou-se programadora informática, trabalhando como engenheira de sistemas da IBM em Portugal e na Bélgica.[4] Foi a primeira mulher a integrar o conselho executivo desta multinacional em Portugal.[2] Lecionou mestrados da Universidade Aberta.[3]

Atividade política

Durante a ditadura

Em Lovaina, no contexto do processo de independência da República Democrática do Congo (ex-Congo Belga), teve um primeiro contacto com a atividade política anticolonial, nomeadamente com os dirigentes do MPLA que residiam em Paris.[2]

Após regressar a Portugal em 1962, associou-se aos meios católicos progressistas, participando na revista O Tempo e o Modo e em publicações clandestinas contra a guerra colonial. Joana Lopes recorda a importância do copiógrafo a stencil para produzir panfletos durante a Crise Académica de 1962: produzidos durante a noite, saltitando de local em local, requeriam o esforço físico "de noites inteiras a dar à manivela!"[5]

Em 1964, foi membro fundador da Cooperativa Pragma, encerrada pela PIDE em 1967.[3]

Aderiu à Acção Católica, integrando a Junta Central,[2][6][4] entre 1966 e 1968.[3] Por ocasião da visita do Papa Paulo VI a Portugal e em parceria com José Manuel Galvão Teles, encarregou-se de entregar uma carta a um elemento da comitiva papal detalhando a situação política e social no país.[7]

Joana Lopes (como "Manuela Gomes") participa ainda no segundo ou terceiro exemplar dos Cadernos Socialistas (1967-1969), publicação com origem em Lovaina, com tiragem de 500-600 exemplares. Tencionando distribuir metade por Portugal, a maioria dos exemplares era distribuída no exílio político na Argélia, Bélgica, França, Itália e Suíça. Outros autores incluem Manuel Sertório, Manuel Lucena, António Frade, Sacuntala de Miranda, José Medina, José da Silva, Gabried David, entre outros. A colaboração de Oliveira Marques também estaria prometida.[5]

Em 1968, Joana Lopes enquadrou a primeira afirmação coletiva de católicos contra a guerra colonial, no último dia do ano, numa vigília que reuniu 150 pessoas na Igreja de São Domingos, durante a qual foi ouvida pela primeira vez a música Cantata da Paz, interpretada por Francisco Fanhais, com letra de Sophia de Mello Breyner Andresen e música de Francisco Fernandes.[2][8]

Foi ainda dirigente do Centro Nacional de Cultura, com José Manuel Galvão Teles em 1969.[4] Vice-presidente do Centro Nacional de Cultura em 1968-69, enfrentou o controlo da censura e da PIDE.[3]

Em 1969, participou na campanha da Comissão Democrática Eleitoral (CDE) para as eleições legislativas.[3]

Participou ainda na revista Perspectiva (1967-1972), que começou por ser um orgão da Associação de Estudantes Portugueses da Universidade de Lovaina. Vergílio Ferreira disse que era um antídoto "para a agrura do exílio com uma humanização em fraternidade e cultura" (p.441).[5] Os redatores oficiais incluiam Artur Mário dos Santos, Fernando Branco, João Martins, Jorge de Oliveira e Sousa, e Luís Sobral. Os colaboradores, na sua maioria residentes em Bruxelas, Lovaina, ou Paris, incluíam nomes de futuros "escritores, artistas, sociólogos, políticos, professores universitários, filósofos" como: Augusto Joaquim, José Luis da Conceição Joaquim, Teresa Maria Joaquim, Maria Gabriela Llansol, Carlos Bandeira de Lima, Casimiro Barrocas, Fernando Belo, Carlos Cardoso Gonçalves, Anabela da Conceição Lopes, Nuno Dias Ferreira, Bernardino do Carmo Gomes, Joaquim Alberto Lopes Simões, José Carlos Marques, Artur Martins, Branca Matos Silva, Luis Pedro Coelho, João Mendes, Regina Santos, Waldemar Santos, Maria Teresa Sousa, Manuel Vilaflor, José Carlos Gomes da Silva, Tito Cardoso e Cunha.[5] Vários dos membros, incluindo Joana Lopes, colaboraram com a Liga de Unidade e Acção Revolucionária (LUAR), ajudando na organização e dando apoio logístico.[2][3][5]

Mais tarde, no início dos anos 1970, entre 1972 e 1974, Joana Lopes integrou um grupo semiclandestino, na génese do Movimento de Esquerda Socialista (MES) e do PRP/Brigadas Revolucionárias.[2]

Pós-Abril de 1974

Em 1976, participou na lista de candidatos à Câmara Municipal de Lisboa nas primeiras eleições autárquicas de Portugal, através dos Grupos Dinamizadores de Unidade Popular (GDUPs), na sua última filiação partidária.[3] Posteriormente, apoiou o Bloco de Esquerda e a candidatura de Catarina Martins à Presidência da República em 2026.[2]

Joana Lopes continuou a ter uma participação ativa na vida cívica e política de Portugal,[9] aliando-se, nomeadamente, a movimentos que fizeram campanha pela despenalização do aborto e na direção da associação Não Apaguem a Memória!. Fundou a Iniciativa para a Auditoria Cidadã à Dívida, em reação ao plano da tróica, e foi promotora do movimento cívico para a despenalização da morte assistida.[2]

Em 2007, publicou o livro Entre as Brumas da Memória - Os Católicos Portugueses e a Ditadura pela editora Âmbar, onde registou as lutas clandestinas na ditadura.[2] No seguimento deste, iniciou um blogue Entre as Brumas da Memória, no qual escreveu até às últimas semanas de vida.[2] Das lutas clandestinas na ditadura aos temas da atualidade, Joana Lopes manteve uma intervenção pública.[4]

Morte e legado

Joana Lopes morreu a 5 de fevereiro de 2026, em Lisboa, aos 87 anos.[2][6]

O Bloco de Esquerda (incluindo José Manuel Pureza), o Centro Nacional de Cultura, os Antifascistas da Resistência (com biografia por Helena Pato), bem como vários autores da blogosfera expressaram o seu pesar. Na data da sua morte tinha mais de 10500 seguidores no facebook.[1]

O seu testemunho sobre o seu papel de retaguarda nas ações do PRP-BR é um dos 15 testemunhos de mulheres no livro de Isabel Lindim: Mulheres de Armas. Histórias das Brigadas Revolucionárias. As acções armadas, os riscos as motivações, publicado em 2012 pela Editora Objectiva.[10]

O seu testemunho sobre a imprensa clandestina foi recolhido por José Pacheco Pereira paro seu livro As armas de papel. Publicações periódicas clandestinas e do exílio (1963-1974), publicado pelo Círculo de Leitores.[5]

Livros publicados

  • Joana Lopes, Sistemas de Informação para a Gestão – Conceitos e Evolução, Universidade Aberta, 1997
  • Joana Lopes, Entre as Brumas da Memória - Os Católicos Portugueses e a Ditadura. Editora Âmbar, 2007

Referências

  1. 1 2 Joana Lopes. «Facebook»
  2. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 «Joana Lopes (1938-2026): ativista contra a ditadura e a austeridade». www.esquerda.net. 7 de fevereiro de 2026. Consultado em 7 de fevereiro de 2026
  3. 1 2 3 4 5 6 7 8 Antifascistas da Resistência. «JOANA LOPES (1938-2026)»
  4. 1 2 3 4 «Joana Lopes (1938-2026) – Centro Nacional de Cultura». Consultado em 7 de fevereiro de 2026
  5. 1 2 3 4 5 6 José Pacheco Pereira (2013) As armas de papel. Publicações periódicas clandestinas e do exílio (1963-1974). Círculo de Leitores.
  6. 1 2 «Joana Lopes (1938-2026) | e-cultura». www.e-cultura.pt. Consultado em 7 de fevereiro de 2026
  7. ↑ «Joana Lopes (1938-2026): ativista contra a ditadura e a austeridade». www.esquerda.net. 7 de fevereiro de 2026. Consultado em 7 de fevereiro de 2026
  8. ↑ «31.12.1968 e 01.01.1969: Uma vigília contra a Guerra Colonial». www.esquerda.net. 7 de fevereiro de 2026. Consultado em 7 de fevereiro de 2026
  9. ↑ «1 de Maio de 1974o». multimedia.expresso.pt. Consultado em 8 de fevereiro de 2026
  10. ↑ Almeida, São José Almeida, São José (27 de maio de 2012). «Quando em Portugal as mulheres pegaram em armas e puseram bombas». PÚBLICO. Consultado em 8 de fevereiro de 2026