Sacuntala de Miranda
| Sacuntala de Miranda | |
|---|---|
| Nascimento | 7 de novembro de 1934 Ponta Delgada |
| Morte | 30 de janeiro de 2008 (73 anos) Cascais |
| Cidadania | Portugal |
| Alma mater | |
| Ocupação | professora, ativista política, historiadora |
Sacuntala de Miranda (Ponta Delgada, 7 de novembro de 1934 — Cascais, 30 de janeiro de 2008) foi uma ativista política e historiadora que se destacou na oposição ao Estado Novo.[1][2][3][4][5]
Biografia
Juventude e formação
Sacuntala de Miranda nasceu em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, filha de Lúcio de Miranda, professor de matemática do Liceu Nacional de Ponta Delgada e escritor, natural de Goa, e de mãe micaelense.
Ainda criança partiu com os pais para a Índia, onde a família tencionava fixar-se. Gorado esse intento, a família regressou a Portugal em 1942, tendo vivido algum tempo no Funchal, regressando por fim a Ponta Delgada. Concluído o ensino secundário no Liceu de Ponta Delgada, matriculou-se no curso de Ciências Históricas Filosóficas da Faculdade de Letras de Lisboa.[2]
Concluiu a licenciatura em Ciências Históricas Filosóficas no ano de 1959 e foi autorizada a leccionar no Liceu Rainha D. Leonor as disciplinas de História, Filosofia e Organização Política e Administrativa da Nação.[4]
Em 1973, concluiu a licenciatura em Sociologia pela Universidade de Londres.[3]
Em 1988, conclui o doutoramento na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, orientada pelo professor A. H. Oliveira Marques, com uma tese intitulada O declínio da supremacia britânica em Portugal. 1890-1939, uma investigação sobre as relações económicas entre Portugal e a Inglaterra (1891-1939), tema que já havia iniciado em Londres sob a orientação do professor Eric Hobsbawm.
Ativismo político
Enquanto estudante universitária, iniciou uma militância nos meios políticos da oposição ao regime do Estado Novo e ao colonialismo. Activista nos movimentos estudantis, tornou-se amiga de vários militantes dos movimentos pró independência das colónias.
Ligada à Oposição Democrática, e detida pela PIDE em dezembro de 1953, pertenceu ao Movimento para a Paz, ao MUD Juvenil, de que foi dirigente, e mais tarde ao Partido Comunista Português, de que viria a afastar-se nos anos 60.
Em 1958 participou na campanha eleitoral do general Humberto Delgado.
Contudo, as pressões da PIDE junto do liceu Rainha D. Leonor para o seu afastamento e a solidariedade com o seu pai, exilado em Londres devido à sua posição acerca da integração de Goa na União Indiana, obrigou-a a optar pelo exílio em Londres.[4]
Exilada, desde logo se afirmou como destacada resistente à ditadura portuguesa, participando activamente nos movimentos de resistência e luta contra a ditadura em Portugal, na luta anti-colonial e na luta sindical, em particular a dos trabalhadores portugueses imigrados em Inglaterra.[3][2] Fez parte do núcleo de Londres do Movimento de Ação Revolucionária, com João Monjardino, Álvaro de Miranda, Sá Caetano, Leonor Matos e Hermínio Martins. Em 1964, o grupo terá publicado o boletim Unidade para os Portugueses em Londres com "informações úteis sobre os serviços sociais ingleses, os sindicatos e algumas notícias sobre Portugal, sobre o dia do Estudante e o julgamento de Beja".[6]
No prosseguimento da oposição ao Estado Novo, deixa Londres por um breve período, entre 1964 e 1965, instalando-se em Argel, então «sede» do movimento de resistência e luta contra a ditadura em Portugal e sede da Frente Patriótica de Libertação Nacional. Lá observa o clima de divergência entre exilados, particularmente entre o Partido Comunista Português e o Movimento de Ação Revolucionária (p.145).[6]
Colabora ainda com a revista Cadernos Socialistas (1967-1969), sedeada em Lovaina, Bélgica, que chegava a uma tiragem de 500-600 exemplares. Manuel Sertório, Manuel Lucena, António Frade, Joana Lopes, José Medina, José da Silva, Gabried David são alguns dos colaboradores. Oliveira Marques terá prometido colaboração.[6]
De volta a Londres, participa na Liga do Ensino e da Cultura Portuguesa. Com cerca de 300 sócios, a Liga organizava conferências e festas (com convidados como Adriano Correia de Oliveira, Francisco Fanhais, José Mário Branco, José Afonso, etc).[6] A Liga publica ainda o Boletim LECP, de agosto de 1969 a março de 1974. Para além de Sacuntala de Miranda, os ativistas incluem Claude Moreira, José Brandão, Alda Rosa, José Pinto Nogueira, Airinhas Caeiro, Jorge Pacheco, Cristina Reis, João Segurado, e José Laranjo. Estes ativistas tinham ligações com sindicatos britânicos e membros radicais do Partido Trabalhista.[6]
Carreira
Enquanto estudante universitária, trabalhou como redactora na revista Eva, foi regente de estudos no Colégio Moderno e deu aulas na Sala de Estudo André de Resende.
Forçada a exilar-se inicialmente em Londres, onde trabalhou então nos mais variados ramos até se empregar na biblioteca da Universidade de Londres.
Depois de um período em Argel, regressa a Londres em 1965, passando a trabalhar como professora do ensino secundário. Em 1967-1968 trabalhou como assistente de investigação em Sociologia na Universidade de Londres. Também foi assistente de investigação no Departamento de Sociologia da Universidade de Essex.[2]
Aproveitando a «primavera marcelista», retornou por um breve período a Portugal em 1970, empregando-se no Grupo de Estudos e Planeamento da Direcção Geral de Construções Escolares do Ministério das Obras Públicas.
Foi obrigada a regressar a Londres em 1971[3] e emprega-se como investigadora assistente num sindicato do sector dos transportes de Londres, o Transport and General Workers Union.
Em 1975, após a revolução de 25 de Abril de 1974 regressou definitivamente a Portugal e trabalhou na Secretaria de Estado da Emigração, durante os governos provisórios, considerando-se saneada com a queda do 5.º governo provisório, presidido por Vasco Gonçalves.
De seguida trabalhou durante três anos no Centro de Investigação Pedagógica da Fundação Calouste Gulbenkian. Mais tarde, foi ainda consultora da Open University inglesa sobre os sistemas educativos dos países periféricos.[2]
Em 1979 ingressou como assistente no Departamento de História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde, foi um dos fundadores do Departamento de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e foi professora do primeiro mestrado de História Contemporânea organizado em Portugal, em 1984. Por motivos de saúde aposentou-se em 1999.
Ao longo da sua carreira afirmou-se como uma notável historiadora de temas de história económica e de história política e da emigração, sendo a sua historiografia marcada pelas opções ideológicas de esquerda. Entre as suas obras destacam-se as duas teses, a de licenciatura, sobre a revolução de Setembro de 1836, pioneira nos estudos da política portuguesa do século XIX, e a de doutoramento, sobre a dependência económica portuguesa entre 1890 e 1939.[2] Também deu importantes contributos a história açoriana, nomeadamente com participação em colóquios na ilha de S. Miguel, de onde se destaca um ensaio referente ao «ciclo da laranja» entre 1780-1880, que é a mais completa visão de conjunto sobre este tema central da economia e sociedade micaelense nos séculos XVIII e XIX e estudos sobre a emigração e movimentos de revoltas populares.[2]
Em 2006 lançou na cidade da Ribeira Grande (Açores) o seu primeiro livro de poesia, intitulado O Sorriso de Satya.
Morte e legado
Faleceu a 30 de janeiro de 2008.
O seu nome é lembrado na toponímia da Ribeira Grande, com a Rua Sacuntala de Miranda.[7]
A Biblioteca Municipal da Ribeira Grande foi a instituição escolhida por Sacuntala de Miranda para doar a sua obra. O seu fundo particular inclui um total de 807 livros e 101 periódicos, abrangendo as áreas de educação, filosofia, física, história, literatura, poesia, política, sociologia e teatro, sendo parte dele em língua inglesa.[4]
Obras publicadas
Entre múltiplos artigos dispersos por periódicos, entre outras, é autora das seguintes monografias:
- A Revolução de Setembro de 1836 : geografia eleitoral. Lisboa, Livros Horizonte, 1982.
- O ciclo da laranja e os «gentleman farmers» da ilha de S. Miguel, 1780-1880. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1989.
- Portugal. O círculo vicioso da dependência (1890-1939). Lisboa, Teorema, 1991.
- Quando os sinos tocavam a rebate : notícia dos alevantes de 1869 na Ilha de S. Miguel. Lisboa, Ediçõe Salamandra, 1996.
- A emigração portuguesa e o Atlântico 1870-1930. Lisboa, Edições Salamandra, 1999.
- Memórias de um peão nos combates pela liberdade. Lisboa, Edições Salamandra, 2003.
- O Sorriso de Satya (com António Eduardo e Mário Miranda). Instituto Cultural de Ponta Delgada, Ponta Delgada, 2005 (ISBN: 972-9216-86-X).
Referências
- ↑ Sacuntala de Miranda, Memórias de um peão nos combates pela liberdade. Lisboa, Editora Salamandra, 2003.
- 1 2 3 4 5 6 7 Enciclopédia Açoriana: «Miranda, Sacuntala de».
- 1 2 3 4 Sacuntala de Miranda (1934-2008). Ler História, 54 (2008), pp. 201-204.
- 1 2 3 4 Memória Comum - Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos (1926-1974): «Sacuntala de Miranda».
- ↑ «Raízes» in Insulana. Órgão do Instituto Cultural de Ponta Delgada, n.º 64 (2008): : 25-104.
- 1 2 3 4 5 José Pacheco Pereira (2013) As armas de papel. Publicações periódicas clandestinas e do exílio (1963-1974). Círculo de Leitores.
- ↑ Código Postal: Rua Sacuntala de Miranda.