Largo do Arouche

Largo do Arouche
Largo do Arouche
Vista do largo, cujos floristas lhe renderam o epíteto de "Praça das Flores".
Largo do Arouche
Subprefeitura(s) Sé
Bairro(s) República
Coordenadas 🌍
Localização em mapa dinâmico

Largo do Arouche[1] é uma praça tradicional da região central da cidade de São Paulo, considerada patrimônio cultural da cidade.[2][3] É considerado um polo de diversidade, uma vez que é ocupado por grupos sociais LGBTQIAP+ desde a década de 1940, ocupação que resistiu à ditadura militar na luta pelo direito à diversidade sexual e de gênero.[4][5] Situa-se no distrito da República, próximo à estação República do metrô.[6][7]

O local também é conhecido como Praça das Flores ou Mercado de Flores e abriga diversos floristas que se instalaram após a retirada das bancas existentes na Praça da República pelo prefeito Armando de Arruda Pereira por volta de 1914. Durante os anos 1900 a praça abrigou a "Feira Livre do Arouche", a segunda da cidade, criada no contexto da crise do abastecimento de produtos hortifrutigranjeiros e encerrada em 1954.[8][9]

O nome atual remete ao tenente-general José Arouche de Toledo Rendon, reconhecido por ser o primeiro diretor da Faculdade de Direito de São Paulo e do Jardim Botânico. Durante a história, foi renomeada diversas vezes e já foi chamado de Largo do Ouvidor, Largo da Artilharia e Praça Alexandre Herculano.[10]

A praça tornou-se nacionalmente conhecida em razão da sitcom Sai de Baixo, produzida pela TV Globo. A série, exibida entre 1996 e 2002, retratava situações humorísticas que tinham lugar em um edifício fictício localizado no Largo do Arouche.[11][12]

História

O Largo é composto pelas ruas Jaguaribe, Amaral Gurgel, a avenida Duque de Caxias e o término da rua do Arouche. Em seu lado oposto passa a avenida Vieira de Carvalho, dados que constam na planta genérica da cidade de São Paulo.

O nome da praça é uma homenagem ao tenente-general José Arouche de Toledo Rendon, dono do terreno desde a demarcação da Cidade Nova, marcos formados a partir da transposição do vale do rio Anhangabaú, regiões hoje conhecidas como Santa Cecília, Praça da República e Vale do Anhangabaú. Arouche era proprietário de boa parte da zona central da cidade de São Paulo, hoje conhecida como Vila Buarque, uma área que abrangia o atual Largo do Arouche e a Praça da República.[13] Em 1881, a pedido do tenente, a Câmara de São Paulo cedeu à sua vontade de desterrar e aplainar a Praça então chamada de Legião para "disciplinar os milicianos por brigadas" e mudar seu nome para Praça dos Milicianos.[14]

Desde então o espaço quadrangular entre as ruas Jaguaribe e do Arouche, considerado a parte baixa, recebeu muitos nomes (Tanque do Arouche, Praça da Alegria, Praça da Legião), até finalmente em 1865 receber o nome de Campo do Arouche, que perdurou até 1910, quando pela Lei nº 1.312 mudou para "Praça Alexandre Herculano". Três anos depois, o art. 2° da Lei Municipal nº 1.741 reverteu "Largo do Arouche" como o nome definitivo de toda praça.

Em 1953 foi chamada "Mercado de Flores do Arouche" a partir de ato normativo exarado pela prefeitura municipal.[15] A parte alta, antiga praça da Artilharia, logo mudou seu nome para Largo do Arouche, como até hoje é conhecida.[14]

Reduto LGBTQIA+

A Praça é conhecida principalmente por sua abertura à comunidade LGBTQIA+, abrangendo boates, lojas, centros de convivência e pontos de encontro para reuniões e eventos.[16] De acordo com arquivos herdados dos antigos proprietários do bar Caneca de Prata, antes chamado Bar Pierrot, o Largo do Arouche começou a ser frequentado por executivos da cidade por volta dos anos 1940, que buscavam locais mais discretos para se relacionarem com homens. O bar é frequentado por pessoas LGBT+ e foi fundado em 1960, considerado por importantes veículos como símbolo da resistência em prol da diversidade.[17]

Esses locais não eram apenas palco de festividades e diversão. Além do Caneca de Prata, havia a balada Freedom, dentre outros lugares da boemia que se tornaram redutos durante a ditadura. Quando eram realizadas batidas policiais, em que pessoas LGBT eram presas por serem quem eram, esses bares eram locais políticos, que acolhiam esses indivíduos e os acobertavam até a saída dos agentes policiais do local.[18]

Na década de 1980 o Largo do Arouche foi palco de repressão à circulação de travestis que circulavam na região sob o argumento de "luta contra a AIDS". A ação, empreendida pela polícia, foi intitulada "Operação Tarântula", contexto em que um dos chefes da operação disse que a presença de travestis em São Paulo era indicativa do "fim do mundo".[17]

Em 2015, no dia 28 de junho foram instaladas sete bandeiras em homenagem ao Dia do Orgulho LGBT, que vão continuar no local.[19] Mais tarde, naquele ano, a Prefeitura de São Paulo, como parte das ações do Programa de Metas da Gestão, instalou o Centro de Cidadania LGBT na Rua do Arouche, que compõe a Praça.[20]

Revitalização

Sede da Academia Paulista de Letras.

Em maio de 2019 a Prefeitura de São Paulo iniciou obras de revitalização do Largo do Arouche. O novo projeto incluía a pavimentação e o nivelamento do piso, bem como a instalação de novos bancos, além de bebedouros e novos postes de iluminação. Estava prevista, também, a construção de quiosques e até de uma horta.[21] A mudança relevante preocupou o Ministério Público, que conseguiu paralisar a obra através do Poder Judiciário, apontando uma possível descaracterização do local. O projeto foi revisto e posteriormente as obras foram liberadas, ausentes os riscos de danos ambientais e urbanísticos. O Largo foi reaberto em março de 2020.[22]

Prédios históricos

O local abriga importantes esculturas de renomados artistas, tais como: A Menina e o Bezerro, obra do escultor carioca Luís Christophe, encomendada pelo prefeito Raimundo Duprat; Afonso d'Escragnolle Taunay, um dos maiores historiadores brasileiros, principalmente na história das bandeiras paulistas, uma obra concebida pela artista plástica Claude Dunin; "Amor Materno", escultura que traz uma cadela e seu filhote, em cena que costuma comover quem passa pelo largo, obra do francês Louis Eugéne Virion, adquirida na década de 1910.[9] As esculturas, que são parte do patrimônio histórico-cultural da Praça, passam por processos de intemperismo, natural das rochas mesmo nos monumentos históricos. Esse processo, somado a crescente poluição da atmosfera, principalmente em metrópoles como São Paulo, intensifica o processo de deterioração das esculturas.[23] A Academia Paulista de Letras tem sua sede no Largo do Arouche e homenageou o imortal Aureliano Leite, com um busto no largo inaugurado em 1979, dois anos após a morte do escritor, historiador e político. Obra do escultor Luís Morrone.[24]

O apartamento onde se passavam os episódios de Sai de Baixo ficava no largo do Arouche.[11][12]

Brechós

Além da resistência política e das festividades, o Largo também é reduto dos brechós, conhecidos por proporcionarem acesso à moda por preços mais baixos que as grandes lojas, reduzindo, ainda, o consumo de fast-fashion.[25]

Referências

  1. ↑ Costa, Rodrigo Inácio da. «Largo do Arouche». LEMAD - Laboratório de Ensino e Material Didático. Consultado em 30 de abril de 2017
  2. ↑ Amadio, Decio (2005). «Desenho urbano e bairros centrais de São Paulo». biblioteca digital da usp. Consultado em 30 de abril de 2017
  3. ↑ «Praça da República e Largo do Arouche podem ser tombados». Governo do Estado de São Paulo. 10 de abril de 2003. Consultado em 18 de maio de 2023
  4. ↑ Nakamuta, Adriana. Arte, Cidade e Patrimônio: futuro e memória nas poéticas contemporâneas. [S.l.]: Automática Edições. ISBN 9786589579052
  5. ↑ Silva Vicente, Tiago Augusto (2014). «Da segregação social à segregação espacial: a apropriação do espaço urbano pela população LGBT no Largo do Arouche». usp digital. Consultado em 30 de abril de 2014. Arquivado do original em 10 de setembro de 2017
  6. ↑ ABCdoABC, Portal do. «Largo do Arouche recebe nessa sexta-feira (17) a 5ª edição da Marcha do Orgulho Trans». www.abcdoabc.com.br. Consultado em 18 de maio de 2023
  7. ↑ «Arouche 100% gay: grupo luta para região de 'Sai de Baixo' continuar LGBT». www.uol.com.br. Consultado em 18 de maio de 2023
  8. ↑ Martins, Rodrigo. «Largo do Arouche agrada moradores com reforma e bancos esculpidos - Hoje São Paulo». hojesaopaulo.com.br. Consultado em 18 de maio de 2023
  9. 1 2 «Largo do Arouche». www.cidadedesaopaulo.com. Consultado em 30 de abril de 2017. Arquivado do original em 12 de maio de 2017
  10. ↑ «Prédios de São Paulo: Arouche». Estadão. Consultado em 18 de maio de 2023
  11. 1 2 «Família do Largo Arouche volta em "Sai de baixo - O Filme" neste mês». O Liberal. 19 de fevereiro de 2019. Consultado em 26 de setembro de 2019
  12. 1 2 FURTADO, Renato (7 de janeiro de 2019). «Sai de Baixo: A louca família do Largo do Arouche desembarca nas telonas no primeiro trailer do filme». AdoroCinema. Consultado em 26 de setembro de 2019
  13. ↑ «Praça da República e Largo do Arouche podem ser tombados | Governo do Estado de São Paulo». Governo do Estado de São Paulo. 10 de abril de 2003
  14. 1 2 Jorge, Clóvis de Athayde (1989). Consolação, uma reportagem histórica. [S.l.: s.n.]
  15. ↑ Minas, Estado de (31 de dezembro de 2016). «Doria quer Arouche com ares franceses». Estado de Minas. Consultado em 22 de maio de 2023
  16. ↑ Simões e França, Júlio Assis e Isadora Lins (2001). «Do "gueto" ao mercado» (PDF). Consultado em 30 de abril de 2017
  17. 1 2 «Arouche 100% gay: grupo luta para região de 'Sai de Baixo' continuar LGBT». www.uol.com.br. Consultado em 18 de maio de 2023
  18. ↑ «Para celebrar Carnaval, Museu da Diversidade promove caminhada em SP». Agência Brasil. 11 de fevereiro de 2023. Consultado em 18 de maio de 2023
  19. ↑ «Bandeiras LGBT instaladas no Largo do Arouche serão permanentes - São Paulo - Estadão». Estadão
  20. ↑ «Portal da Prefeitura da Cidade de São Paulo». www.prefeitura.sp.gov.br. Consultado em 30 de abril de 2017
  21. ↑ «Justiça libera obras de revitalização no Largo do Arouche, no Centro de SP». G1. 23 de outubro de 2019. Consultado em 18 de maio de 2023
  22. ↑ «Prefeitura de SP reabre largo do Arouche às vésperas de inauguração». GZH. 11 de março de 2020. Consultado em 18 de maio de 2023
  23. ↑ Eliane Aparecida Del Lama, Lauro Kazumi Dehira & Aranda Calió dos Reys. Visão geológica dos monumentos da cidade de São Paulo. [S.l.: s.n.]
  24. ↑ «Largo do Arouche - algumas considerações». Academia Paulista de Letras - APL. Consultado em 18 de maio de 2023
  25. ↑ «Moda barata, grifada e consciente: Largo do Arouche é polo de brechós em SP». www.uol.com.br. Consultado em 18 de maio de 2023

Ligações externas