O Adeus do Marujo
O Adeus do Marujo é um bordado produzido em 1910 pelo marinheiro João Cândido Felisberto, líder da Revolta da Chibata. A obra integra o acervo do Museu Municipal Tomé Portes del-Rei, em São João del-Rei, tendo sido doada à instituição por Antônio Manuel de Souza Guerra.[1]
A peça constitui uma das duas toalhas bordadas atribuídas a João Cândido durante seu período de prisão na Ilha das Cobras, após os acontecimentos de novembro de 1910.[1]
Contexto histórico
O bordado foi realizado no contexto da repressão à Revolta da Chibata, movimento protagonizado por marinheiros da Marinha do Brasil contra os castigos corporais e as condições de trabalho impostas à tripulação.[1]
Após a revolta, João Cândido foi preso com outros participantes, permanecendo encarcerado na Ilha das Cobras, onde produziu bordados que articulam elementos simbólicos relacionados à experiência do cárcere e à vivência marítima.[1]
Descrição
A obra consiste em uma toalha de rosto em tecido, possivelmente linho, bordada manualmente com linhas nas cores cinza e vermelho, utilizando a técnica de ponto-corrente.[1]
A composição apresenta grande complexidade iconográfica, reunindo elementos simbólicos e inscrições textuais. Entre eles destacam-se:
- iniciais “JCF” (João Cândido Felisberto);
- o título O Adeus do Marujo;
- a palavra “Liberdade”;
- a inscrição “ordem”;
- a data “XXII de novembro de MCMX” (22 de novembro de 1910);
- as iniciais “F. D. Martins”, possivelmente referência a Francisco Dias Martins.
No centro da composição, duas mãos entrelaçadas são atravessadas por uma âncora, ladeada por ramos vegetais. A cena é acompanhada por representações de mangas de uniforme naval — uma associada a oficialato e outra a marinheiro — sugerindo tensões hierárquicas no contexto da revolta.[1]
Técnica e estilo
O bordado é caracterizado como produção de arte espontânea, realizada por um autor não profissional, com traços simples e expressivos.[1]
A peça apresenta acabamento em renda de abrolhos e franjas, típico de trabalhos têxteis do período.[1]
Proveniência
O bordado foi oferecido por João Cândido a Antônio Manuel de Souza Guerra, conhecido como “Niquinho Guerra”, militar que atuava na guarda dos presos após a revolta.[1]
Posteriormente, a peça foi incorporada ao acervo do Museu Thomé Portes del-Rei, onde permanece preservada.
Conservação
A obra encontra-se em estado de conservação considerado regular, apresentando manchas de umidade e sinais de deterioração associados à ação de insetos.[1]
Intervenções posteriores incluíram costuras de reparo e a colocação em moldura com vidro, visando sua proteção.[1]
Importância
O Adeus do Marujo constitui um importante registro material da Revolta da Chibata, articulando elementos visuais e textuais que remetem diretamente ao episódio histórico e às tensões vividas pelos marinheiros.
A presença de datas, nomes e símbolos reforça seu caráter narrativo e documental, distinguindo-o de outras produções do mesmo conjunto.
Ver também
Referências
Bibliografia
- Reis, Roberto Batista (2014). Inventário dos Bordados de João Cândido Felisberto (Relatório). São João del-Rei: Prefeitura Municipal de São João del-Rei