Porto das Caixas

 Nota: Este artigo é sobre um filme. Para o bairro, veja Porto das Caixas (Itaboraí).
Porto das Caixas
Brasil
1962 •  p&b •  80 min 
Gênerodrama
DireçãoPaulo Cesar Saraceni
RoteiroPaulo Cesar Saraceni
HistóriaLúcio Cardoso
ElencoIrma Alvarez
Paulo Padilha
Reginaldo Faria
Margarida Rey
MúsicaAntônio Carlos Jobim
Direção de fotografiaMário Carneiro
Idiomaportuguês

Porto das Caixas é um filme brasileiro de 1962, do gênero drama, dirigido por Paulo Cesar Saraceni com roteiro baseado em argumento original de Lúcio Cardoso. Faz parte da primeira fase do movimento Cinema Novo e foi o primeiro longa-metragem de Saraceni. O filme é dedicado ao artista plástico Oswaldo Goeldi, influência visível na fotografia e concepção visual da obra.[1]

O argumento de Lúcio Cardoso foi inspirado no caso real do "crime da machadinha", ocorrido no Rio de Janeiro nos anos 1960, e transposto para o distrito de Porto das Caixas, no município de Itaboraí, estado do Rio de Janeiro.[2][3]

O filme integra a "trilogia da paixão" dirigida por Saraceni e baseada nas obras de Lúcio Cardoso, composta também por A Casa Assassinada (1971) e O Viajante (1998).[2]

Enredo

Em Porto das Caixas, uma pequena cidade decadente e abandonada no tempo, uma mulher (interpretada por Irma Alvarez) vive infeliz ao lado de um marido ferroviário bruto e ignorante (Paulo Padilha). Humilhada e maltratada, ela planeja assassiná-lo como única forma de escapar da opressão que vive.

Para conseguir executar seu plano, ela tenta seduzir diferentes homens da cidade — o dono do botequim (Reginaldo Faria), um barbeiro e um soldado — para convencê-los a matar seu marido. Todos se esquivam ou recusam ajudá-la no crime. Quando o amante (Reginaldo Faria) também se acovarda no momento decisivo, ela mesma comete o assassinato, matando o marido a machadadas enquanto ele dorme.

Após o crime, ela e o amante colocam o corpo nos trilhos do trem para simular um acidente. No desfecho, o amante, horrorizado com a frieza da mulher, se recusa a fugir com ela. Sozinha, ela parte em direção aos trilhos do trem, para um destino incerto, sem demonstrar culpa ou remorso.[4][3]

Elenco

Produção

Origem e roteiro

Paulo César Saraceni e Lúcio Cardoso foram apresentados pelo crítico e jornalista Otávio de Faria, fundador do Chaplin Club, considerado o primeiro cineclube do Brasil.[2] O argumento de Porto das Caixas foi escrito por Lúcio Cardoso em 1962, baseado em um crime real denominado "crime da machadinha" pela crônica policial da época. Cardoso transpôs a história da mulher que assassina o marido a machadadas do subúrbio carioca para o lugarejo que dá nome ao filme, situado no município de Itaboraí.[2][3]

O argumento original de Cardoso nunca foi publicado, permanecendo como manuscrito guardado na Casa Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, junto ao espólio literário do autor.[3] O texto se assemelhava a um texto dramático, com diálogos transcritos e indicações cênicas, incluindo sugestões de enquadramentos, movimentos de câmera e uso da luz. Paulo César Saraceni utilizou esse argumento como base para o roteiro e a realização do filme.[4]

Semelhanças temáticas foram apontadas entre o enredo de Porto das Caixas e o romance O Carteiro Sempre Bate Duas Vezes, do americano James M. Cain, que já havia sido adaptado para o cinema no italiano Ossessione (1943), de Luchino Visconti, e no americano O Destino Bate à Sua Porta (1946), de Tay Garnett.[5] No entanto, tal influência não é mencionada na literatura especializada, não sendo possível afirmar com certeza se essas similaridades resultam de inspiração direta ou constituem coincidências narrativas.[4][3]

Filmagem e estética

O filme foi produzido dentro da proposta do Cinema Novo, com orçamento baixo e filmado em locações reais no distrito de Porto das Caixas, em Itaboraí, a cerca de 60 quilômetros da capital do Rio de Janeiro. Seguindo o conceito de "ideia na cabeça e câmera na mão", Saraceni realizou um filme caracterizado pelo minimalismo e pelo ritmo lento.[3][2]

A fotografia em preto e branco de Mário Carneiro é considerada um marco na história do cinema brasileiro. Seu trabalho com a luz, com os contrastes e com as linhas de força do quadro foi de grande influência para outros diretores de fotografia do Cinema Novo.[2] A estética visual do filme presta homenagem ao artista plástico Oswaldo Goeldi, a quem o filme é dedicado. As cenas em interiores frequentemente mostram figuras e silhuetas em contra-luz e sombras densas que, contrastadas com áreas superexpostas, criam espaços vazios no quadro, lembrando o estilo das gravuras de Goeldi.[2]

O filme trata de temas como decadência social, alienação e insurreição feminina. A narrativa valoriza mais a ambientação e o uso expressivo do espaço e da luz do que a ação, que é mínima. Os cenários são fundamentais para a compreensão da obra: além do casebre onde a protagonista vive com o marido, destacam-se a fábrica desativada, as ruínas de um convento tomado pela vegetação, o parque de diversões vazio e a feira onde ela compra o machado. Esses espaços reforçam a sensação de isolamento, abandono e decadência.[2] A figura do trem é quase onipresente no filme e está associada à ideia de morte, surgindo sempre que a morte é evocada pela protagonista, como a prenunciar o assassinato que ocorrerá mais tarde.[2]

Recepção e legado

Porto das Caixas foi exibido na Semana da Crítica do Festival de Cannes de 1963, sendo o primeiro filme do Cinema Novo a participar desta mostra.[6] No Brasil, o filme só foi lançado comercialmente meses depois, recebendo elogios da crítica especializada.

O crítico Jean-Claude Bernardet destacou o deslocamento temático de Porto das Caixas em relação ao que o Cinema Novo considerava os assuntos mais urgentes a se tratar, geralmente ambientados em favelas ou no Nordeste. Ele também comentou a riqueza expressiva da cenografia do filme, que tornava o espaço tão personagem do drama quanto as figuras humanas.[2]

Em seu livro "Brasil em Tempo de Cinema" (1967), Bernardet observou que o filme não foi bem recebido nem pelo grande público nem pela maioria da intelectualidade, que se mostrou desconfortável com o modo como a política era tratada. Para ele, o grande tema do filme é a alienação, prefigurando o cinema posteriormente ambientado no subúrbio carioca.[2]

Paulo Emílio Salles Gomes, em resenha de 1962, chamou a protagonista de "aquela Bovary que o contexto do subdesenvolvimento torna feroz" e afirmou que "aquela fascinante e atroz Capitu suburbana é o primeiro grande personagem feminino nascido no cinema brasileiro".[3]

O filme foi inovador ao apresentar uma protagonista feminina que rompe com padrões sociais e morais, recusando-se a aceitar passivamente sua condição de opressão. Ao contrário das convenções cinematográficas da época, especialmente as hollywoodianas, o crime cometido pela personagem não é punido no final. Paulo César Saraceni considerava a obra um "grito de revolta do povo brasileiro e principalmente da mulher", destacando seu aspecto feminista, realizado "antes mesmo da revolução feminista". Para o diretor, o filme tratava da "miséria da mulher na nossa sociedade machista de 1962".[3]

Trilha sonora

A trilha sonora foi composta por Antônio Carlos Jobim. O manuscrito autógrafo do compositor, datado de 1961 e conservado no arquivo digital do Instituto Antonio Carlos Jobim[7], é a principal fonte escrita sobre a obra: trata-se de 20 páginas em papel pautado contendo grades reduzidas dos temas, excertos de materiais de arranjo, sugestões de títulos para as faixas, nomes de personagens, minutagens e possibilidades de instrumentação.[8]

A trilha é constituída por 26 faixas e aproximadamente 35 minutos de música, o que corresponde a cerca de 46% da duração total do filme. A instrumentação é camerística, restrita a quatro timbres: piano (Antonio Carlos Jobim), flauta (Bebeto), contrabaixo acústico (Tião Neto) e violoncelo (Nydia Soledade Otero).[8]

Jobim estruturou a trilha em torno de dois temas principais, que reaparecem em 21 das 26 faixas em diferentes arranjos e durações. O Tema 1, de caráter lírico e melancólico, é o elemento musical mais presente no filme, não se associando a nenhum personagem ou situação específicos. O Tema 2, designado pelo compositor no manuscrito como Valsa Sensual Envolvente, é caracterizado por linha melódica descendente e cromática e harmonia ambígua, aparecendo preferencialmente em cenas que envolvem a protagonista. Os demais temas — denominados Letreiro, Efeito Musical Margarida e um tema assoviado — têm presença mais restrita. O Efeito Musical Margarida é o único tema que funciona como leitmotif, associando-se sistematicamente à personagem da feirante (Margarida Rey) e às situações em que a morte é evocada na narrativa.[8]

Segundo a análise de Poletto e Silva, a trilha opera predominantemente pela lógica da anempatia: a música mantém caráter indiferente e repetitivo diante dos acontecimentos dramáticos, reforçando o distanciamento emocional que caracteriza a poética do filme.[8]

Após a realização do filme, Jobim reaproveitou materiais da trilha em duas peças: o Tema 1 se tornou Derradeira Primavera, transformada em canção com letra de Vinícius de Moraes e lançada em LP por Elza Laranjeira no ano seguinte, e o Tema 2 (Valsa Sensual Envolvente) foi lançado como Valsa de Porto das Caixas no LP The Wonderful World of Antonio Carlos Jobim de 1965.[8]

A trilha rendeu a Jobim o prêmio de Melhor Composição no Festival de Cinema da Bahia (1962) e no Prêmio Saci (1964).[8]

Referências

  1. ↑ Arthuso, Raul (25 de janeiro de 2016). «O ritmo dos contrastes». Revista Cinética. ISSN 1983-0343. Consultado em 19 de abril de 2026
  2. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 «Porto das Caixas». Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural. 2026. ISBN 978-85-7979-060-7. Consultado em 19 de abril de 2026
  3. 1 2 3 4 5 6 7 8 Sampaio, Aila Maria Leite (junho de 2017). «Porto das caixas e o destino de lilith nas narrativas literária e fílmica». Revista de Humanidades. 32 (1): 28-39. ISSN 2318-0714. doi:10.5020/23180714.2017.32.1.28-39
  4. 1 2 3 Freire, Reinaldo Cardenuto (junho de 2006). «O texto, o filme e a releitura: textualidades e refigurações narrativas em Porto das Caixas» (PDF). Rio de Janeiro: PUC-Rio. ALCEU. 6 (12): 57-71. Consultado em 19 de abril de 2026
  5. ↑ Oricchio, Luiz Zanin (26 de agosto de 2013). «"O Destino Bate à Sua Porta", de Bob Rafelson, agora em Blu-Ray». Hoje em Dia. Ediminas. Consultado em 19 de abril de 2026
  6. ↑ Figueiró, Belisa (2023). «Cannes 1964: marco do engajamento dos críticos franceses ao Cinema Novo». Significação. 50: 1-19. doi:10.11606/issn.2316-7114.sig.2023.194358
  7. ↑ Jobim, Antonio Carlos (1961). «Porto das Caixas». Instituto Antonio Carlos Jobim. Consultado em 19 de abril de 2026
  8. 1 2 3 4 5 6 Poletto, Fabio Guilherme; Silva, Marllon Eduardo Martins (2022). «A música de Antonio Carlos Jobim para o filme Porto das Caixas». Opus. 28: 1-22. doi:10.20504/opus2022.28.20