Shamir
O Shamir (do hebraico: שמיר) é um objeto ou criatura lendária na literatura rabínica e no Talmud, sendo descrito como o instrumento fundamental utilizado pelo Rei Salomão para a edificação do Primeiro Templo de Jerusalém.[1] Segundo a tradição judaica, a necessidade do Shamir surgiu devido à proibição bíblica, detalhada em 1 Reis 6:, de utilizar ferramentas de ferro — o metal associado à guerra e ao encurtamento da vida — na construção do altar e do santuário sagrado. Para contornar essa restrição e conseguir cortar as pedras mais duras e gravar os nomes das tribos no peitoral do Sumo Sacerdote, Salomão recorreu a meios sobrenaturais para localizar esta substância que possuía o poder de fender o diamante apenas pelo toque ou aproximação, conforme registado pelo mitólogo[2].[3] A narrativa mais detalhada sobre a origem e a captura do Shamir encontra-se no Talmud Babilónico, especificamente no Tratado Gittin (68a-68b), onde se relata que Salomão consultou os seus sábios e estes o encaminharam para os demónios (Shedim), que sabiam onde o Shamir estava.[4]
Através de uma estratégia elaborada pelo seu general Benaia, Salomão conseguiu capturar e subjugar Asmodeus (Ashmedai), o Rei dos Demónios, utilizando uma corrente gravada com o Nome Divino. Asmodeus revelou que o Shamir não pertencia ao seu reino, mas fora confiado pelo Anjo do Mar ao Galo Silvestre (ou Grou), que utilizava o poder de corte da criatura para rachar rochas em montanhas desoladas e ali plantar sementes para criar vegetação, mantendo-o sob juramento de proteção[5][6]
As descrições físicas do Shamir apresentam-no como um verme minúsculo, do tamanho de um grão de cevada, criado de forma milagrosa no crepúsculo do sexto dia da Criação. No entanto, as suas propriedades únicas — como a capacidade de cortar materiais sem deixar resíduos e a necessidade de ser armazenado em recipientes de chumbo envolvidos em lã e farelo para não desintegrar o ambiente — levam a interpretações modernas e teóricas, como as de Sitchin Zecharia (1976), que especulam se a lenda não seria uma memória de uma substância radioativa ou de um dispositivo de laser primitivo.[7]
A tradição conclui que o Shamir perdeu a sua eficácia ou desapareceu completamente após a destruição do Primeiro Templo de Jerusalém, conforme registado na Mishná (Tratado Sotah 9:12), que afirma explicitamente: "Desde que o Templo foi destruído, o Shamir desapareceu".[8] Este evento marcou o fim de uma era onde o sagrado e o tecnológico se confundiam através do domínio sobre o mundo espiritual, com a morte de Salomão consolidando o desaparecimento destas maravilhas ancestrais.[9] Referenciado ao longo do Talmud e dos midrashim, o Shamir tinha a reputação de ter existido no tempo de Moisés como uma das dez maravilhas criadas na véspera do primeiro Shabbat, pouco antes de Deus terminar a criação.[a] Moisés teria utilizado o Shamir para gravar as pedras do peitoral sacerdotal do Sumo Sacerdote de Israel.[11]
Lenda
Segundo a Guemará o Shamir foi criado por Deus e utilizado pela primeira vez por Moisés.
Moisés sabia que Deus havia criado nos seis dias da criação um ser vivo, muito pequeno, do tamanho de um grão de cevada, que podia cortar qualquer material, inclusive a mais dura rocha, somente passando por cima do material. Por isso, quando precisou cortar uma pedra para utilizar no altar do culto a Altíssimo, utilizou o Shamir.
Deus não permitia a utilização de instrumentos de guerra, o metal por exemplo, para a preparação de qualquer peça que fizesse de seu espaço sagrado. Quando isso era requerido, o Shamir era utilizado.
O Shamir foi utilizado no corte das pedras que ornamentavam as vestes sacerdotais. Essas pedras representavam as 12 tribos e não poderiam ser entalhas ou ter marcas de rachadura.
Algumas interpretações dos escritos, indicam o Shamir com um ser vivo, outras como uma substância.
O Shamir era guardado dentro de uma caixa de chumbo, cheia de farelos de cevada e envolvido em seda.
Referências
- ↑ Hersh Goldwurm (1990). Talmud Bavli: the Gemara: the classic Vilna edition Volume 3, Part 6, Book 2. [S.l.: s.n.]
A Guemará retorna à história de como Salomão adquiriu o shamir... [Os servos de Salomão] procuraram até encontrarem o ninho de um galo silvestre que tinha filhotes,[...]
- ↑ Schwartz, Howard (2004). Tree of Souls: The Mythology of Judaism. [S.l.: s.n.]
- ↑ Schwartz, Howard (2004). Tree of Souls: The Mythology of Judaism. Oxford University Press. pp. 158–160.
- ↑ Talmud Babilónico, Tratado Gittin 68a-68b.
- ↑ Ginzberg, Louis (1909). The Legends of the Jews. [S.l.: s.n.]
- ↑ Ginzberg, Louis (1909). The Legends of the Jews. Jewish Publication Society. Capítulo: "Solomon and the Shamir".
- ↑ Sitchin, Zecharia (1976). The Earth Chronicles. Stein and Day.
- ↑ «Mishnah Sotah 9:12». Sefaria: Library of Jewish Texts. Consultado em 15 de março de 2026
- ↑ Neusner, Jacob (1988). The Mishnah: A New Translation. [S.l.]: Yale University Press. p. 464
- ↑ «Pirkei Avot 5:6». www.sefaria.org
- ↑ Ausubel, Nathan (1948). A Treasury of Jewish Folklore. [S.l.]: Crown Publishers. pp. 449, 594. ISBN 0-517-50293-3
- ↑ Dez coisas foram criadas na véspera do Sábado ao crepúsculo, e são elas: [1] a boca da terra, [2] a boca do poço, [3] a boca da jumenta, [4] o arco-íris, [5] o maná, [6] o cajado [de Moisés], [7] o shamir, [8] as letras, [9] a escrita, [10] e as tábuas. E alguns dizem: também os demónios, o túmulo de Moisés e o carneiro de Abraão, nosso pai. E alguns dizem: e também as tenazes, feitas com tenazes.[10]
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