Sitosterolemia

A sitosterolemia, também conhecida como fitosterolemia, é uma doença metabólica autossómica recessiva extremamente rara e subdiagnosticada, caracterizada pela acumulação patológica de esteróis vegetais (fitosteróis), como o sitosterol, o campesterol e o estigmasterol, bem como de estanóis e de colesterol no organismo. Em indivíduos saudáveis, o sistema digestivo possui mecanismos altamente seletivos que permitem a absorção de apenas uma fração mínima (menos de 5%) dos esteróis vegetais ingeridos através da dieta, enquanto o colesterol biliar e dietético é processado de forma mais eficiente; contudo, nos pacientes com sitosterolemia, esta barreira de seletividade falha drasticamente. A base molecular desta patologia reside em mutações nos genes ABCG5 ou ABCG8, que codificam as proteínas esterolinas 1 e 2, responsáveis pela formação de um transportador de efluxo heterodimérico localizado na membrana apical dos enterócitos e dos hepatócitos. A ausência de transportadores funcionais resulta numa hiperabsorção intestinal de esteróis e numa excreção biliar deficiente, levando a níveis plasmáticos de sitosterol que podem ser 30 a 100 vezes superiores aos valores normais, o que desencadeia uma cascata de complicações sistémicas graves.[1][2][3][4][5][6][7][8]

As manifestações clínicas da sitosterolemia são variadas e frequentemente mimetizam a hipercolesterolemia familiar, o que leva a erros de diagnóstico comuns em contextos clínicos. Um dos sinais patognomónicos mais visíveis é o aparecimento de xantomas tuberosos ou tendinosos, que são depósitos lipídicos na pele e nos tendões (especialmente no tendão de Aquiles e nos cotovelos), que podem surgir logo na primeira infância, mesmo quando os níveis de colesterol total parecem estar apenas moderadamente elevados. Além das manifestações cutâneas, a acumulação crónica de esteróis nos tecidos vasculares acelera o desenvolvimento de aterosclerose precoce, aumentando significativamente o risco de doença arterial coronária, enfarte agudo do miocárdio e morte súbita em indivíduos jovens. Um aspeto distintivo desta condição, que a diferencia de outras dislipidemias puras, é a presença frequente de anomalias hematológicas, incluindo macrocitopenia (plaquetas anormalmente grandes e em número reduzido) e a presença de estomatócitos, resultantes da incorporação de fitosteróis nas membranas dos eritrócitos e das plaquetas, o que pode causar episódios de hemólise ou tendências hemorrágicas.

O diagnóstico definitivo da sitosterolemia não pode ser realizado através de testes lipídicos de rotina, uma vez que a maioria dos laboratórios clínicos utiliza métodos que não distinguem o colesterol de outros esteróis vegetais, frequentemente agrupando-os todos sob a medida de «colesterol total». É necessária a utilização de técnicas avançadas como a cromatografia gasoso-líquida ou a espetrometria de massa para quantificar especificamente os níveis de sitosterol e campesterol no plasma, sendo o diagnóstico confirmado através de testes genéticos que identifiquem mutações patogénicas nos genes ABCG5 e ABCG8. O tratamento baseia-se numa estratégia rigorosa de duas frentes: a restrição dietética extrema de alimentos ricos em fitosteróis — como óleos vegetais, frutos secos, sementes, abacate e margarinas enriquecidas — e a intervenção farmacológica. O fármaco de eleição é a ezetimiba, que inibe a proteína NPC1L1 (Niemann-Pick C1-Like 1) no intestino, bloqueando a entrada de todos os esteróis; este medicamento é altamente eficaz na sitosterolemia, conseguindo reduzir os níveis de esteróis vegetais em mais de 50% e promovendo a regressão dos xantomas. Ao contrário de outras dislipidemias, as estatinas são geralmente ineficazes ou têm um papel muito limitado, tornando o diagnóstico correto vital para a sobrevivência do paciente a longo prazo.

Referências

  1. ↑ Mach, François; Koskinas, Konstantinos C; Roeters van Lennep, Jeanine E; Tokgözoğlu, Lale; Badimon, Lina; Baigent, Colin; Benn, Marianne; Binder, Christoph J; Catapano, Alberico L; De Backer, Guy G; Delgado, Victoria; Fabin, Natalia; Ference, Brian A; Graham, Ian M; Landmesser, Ulf (7 de novembro de 2025). «2025 Focused Update of the 2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias». European Heart Journal (em inglês). 46 (42): 4359–4378. ISSN 0195-668X. doi:10.1093/eurheartj/ehaf190
  2. ↑ «Sitosterolemia - Symptoms, Causes, Treatment | NORD» (em inglês). Consultado em 31 de março de 2026
  3. ↑ Farzam, Khashayar; Morgan, Ryan T. (2026). «Sitosterolemia (Phytosterolemia)». Treasure Island (FL): StatPearls Publishing. PMID 34283508
  4. ↑ Myrie, Semone B.; Steiner, Robert D.; Mymin, David (1993). Adam, Margaret P., ed. «Sitosterolemia». Seattle (WA): University of Washington, Seattle. PMID 23556150
  5. ↑ Williams, Kori; Segard, Allison; Graf, Gregory A. (5 de março de 2021). «Sitosterolemia: Twenty Years of Discovery of the Function of ABCG5ABCG8». International Journal of Molecular Sciences (em inglês). 22 (5). 2641 páginas. ISSN 1422-0067. PMC 7961684Acessível livremente. PMID 33807969. doi:10.3390/ijms22052641
  6. ↑ «Sitosterolemia em Portugal: caracterização de casos diagnosticados geneticamente no âmbito do Estudo Português de Hipercolesterolemia Familiar, 2007-2024» (PDF)
  7. ↑ Tada, Hayato; Nomura, Akihiro; Ogura, Masatsune; Ikewaki, Katsunori; Ishigaki, Yasushi; Inagaki, Kyoko; Tsukamoto, Kazuhisa; Dobashi, Kazushige; Nakamura, Kimitoshi; Hori, Mika; Matsuki, Kota; Yamashita, Shizuya; Yokoyama, Shinji; Kawashiri, Masa-aki; Harada-Shiba, Mariko (1 de agosto de 2021). «Diagnosis and Management of Sitosterolemia 2021». Journal of Atherosclerosis and Thrombosis (em inglês). 28 (8): 791–801. ISSN 1340-3478. doi:10.5551/jat.RV17052
  8. ↑ Bastida, Jose María; Girós, María Luisa; Benito, Rocío; Janusz, Kamila; Hernández-Rivas, Jesús María; González-Porras, José Ramón (17 de dezembro de 2019). «Sitosterolemia: Diagnosis, Metabolic and Hematological Abnormalities, Cardiovascular Disease and Management». Current Medicinal Chemistry (em inglês). 26 (37): 6766–6775. doi:10.2174/0929867325666180705145900