Ibrahim Eris
Ibrahim Eris | |
|---|---|
| 15.º Presidente do Banco Central do Brasil | |
| Período | 15 de março de 1990 até 17 de maio de 1991 |
| Presidente | Fernando Collor |
| Antecessor(a) | Wadico Waldir Bucchi |
| Sucessor(a) | Francisco Gros |
| Dados pessoais | |
| Nascimento | 7 de novembro de 1944 Bafra, Samsun |
| Morte | 8 de novembro de 2024 (80 anos) Turquia |
| Nacionalidade | brasileiro turco |
| Alma mater | Universidade de Ancara Universidade Vanderbilt |
| Profissão | economista |
Ibrahim Eris (tr. İbrahim Eriş; Bafra, Samsun, 7 de novembro de 1944 – Turquia, 8 de novembro de 2024) foi um economista turco naturalizado brasileiro. Formado em economia e estatística pela Middle East Technical University, e com doutorado pela Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, radicou-se no Brasil em 1973, quando assumiu posição de docente na Universidade de São Paulo (USP) e atuou como assessor especializado junto a instituições do mercado financeiro.[1][2] Exerceu a presidência do Banco Central do Brasil entre março de 1990 e maio de 1991, durante o governo Collor, como integrante da equipe econômica da ministra Zélia Cardoso de Mello. Constituiu-se em uma das figuras mais relevantes do governo Collor, tendo desempenhado papel decisivo na concepção do Plano Collor.[1][3][4]
Formação e início de carreira
Natural de Bafra, localizada na Turquia, Eris participou ativamente de organizações políticas de tendência marxista em seus anos de juventude.[5] Completou sua formação inicial em economia e estatística pela Universidade Técnica do Oriente Médio, uma das principais instituições de ensino superior da região.[2] Posteriormente deslocou-se aos Estados Unidos para cursar doutorado na Universidade Vanderbilt, localizada em Tennessee, completando o programa em 1966 após participação em cursos de economia e redação de tese, além de disciplinas no Departamento de Matemática da instituição.[2] Sua tese de doutorado versou sobre "equilíbrio geral com incerteza", abordagem teórica e matemática focada em microeconomia que buscava incorporar a questão da falência nos modelos de equilíbrio geral.[2][6] Trabalhou como professor da Universidade Rice, em Houston, Texas, por três anos após a conclusão de seu doutorado.[2] Fez transferência para a Universidade de São Paulo em 1973 como professor convidado.[2]
Em 1973, Eris estabeleceu residência permanente no Brasil, obtendo naturalização brasileira no mesmo ano.[2] Durante sua permanência na USP, participou ativamente da vida acadêmica, especializando-se em ensino de economia matemática para alunos de pós-graduação em grupos reduzidos, nos quais orientou economistas que posteriormente alcançariam destaque na área.[2] Desenvolveu atividades docentes na Universidade de São Paulo (USP) até 1979, ocasião em que recebeu convite para colaborar com o titular da pasta do Planejamento, Antônio Delfim Neto, no âmbito do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), onde atuou como vice-presidente.[2] Após seu distanciamento do governo em 1981, passou a fornecer consultoria especializada a várias empresas do setor financeiro. Constituiu empresa consultiva em sociedade com José Roberto Mendonça de Barros e com Luiz Carlos Mendonça de Barros.[2] Adquiriu participação na corretora Patente e participou de uma distribuidora, a qual alienou pouco antes de ser indicado pelo Senado para presidir o Banco Central.[1]
Presidência do Banco Central
Preparação do programa econômico
Participou da montagem da equipe econômica do candidato Fernando Collor, sendo convidado pela ministra Zélia Cardoso de Mello ainda no período pré-eleitoral para ajudar a formular as bases do futuro programa econômico.[2] Sob a liderança de Zélia, trabalhou na elaboração de várias propostas, incluindo reforma administrativa, privatização de empresas estatais, desburocratização e abertura econômica.[2] A equipe reuniu-se em local centralizado durante o período de transição governamental, após a vitória eleitoral em dezembro de 1989 e antes da posse em março de 1990, permitindo discussões prolongadas e ajustes nas medidas que seriam implementadas.[2] Entre os temas discutidos figuravam reorganização do Executivo federal, legislação sobre privatizações, redução de alíquotas tarifárias, eliminação de restrições às importações, revogação da Lei de Informática e reformas que buscavam aumentar a eficiência do mercado financeiro.[2]
Nomeação e aprovação no Senado
Já no mês de janeiro de 1990, Eris passou a integrar o corpo de técnicos econômicos do presidente eleito Fernando Collor. Sua indicação foi analisada pela Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, obtendo votos contrários dos parlamentares Nélson Wedekin, oriundo do PDT catarinense, e Jamil Haddad, filiado ao PSB fluminense. Assim como o senador Jutaí Magalhães, integrante do PSDB baiano, os dois parlamentares alegaram uma norma elaborada pelo senador Itamar Franco, que exigia o distanciamento das atividades financeiras por no mínimo quatro anos daqueles que viessem a conduzir a instituição central do sistema bancário brasileiro. Apesar dessa restrição, a sessão plenária do Senado aprovou sua nomeação.[1] Os integrantes da diretoria do Banco Central incluíam Antônio Cláudio Sochaczewski, Luís Eduardo Assis e Gustavo Loyola, todos empossados em 15 de março de 1990.[1][7]
Plano Collor
Eris tomou parte ativa na concepção do programa de ajuste econômico denominado Plano Collor, divulgado no dia imediatamente posterior à posse presidencial. O plano determinava o bloqueio dos valores depositados em contas bancárias de cidadãos brasileiros, abrangendo também a caderneta de poupança, limitado a NCz$ 50 mil por conta; estabelecia o encerramento de órgãos e entidades estatais; aumentava o IPI; elevava a carga tributária sobre rendimentos da agricultura e extinguia subsídios para exportação; congelava preços e remunerações; permitia flutuação do câmbio em consonância com dinâmicas de mercado; promovia privatização de empresas estatais; e reduzia gradualmente os alíquotas incidentes sobre importações.[1][2] O limite de bloqueio foi estabelecido após análise de dados que revelava que 90% das cadernetas de poupança estariam situadas abaixo daquele patamar, sendo alcançado mediante debates intensos entre os integrantes da equipe quanto ao valor mais adequado.[2]
O plano objetivava contrapor-se simultânea e complementarmente à quantidade de moeda em circulação e à velocidade de sua circulação na economia, reduzindo drasticamente a liquidez do sistema financeiro.[2] Além disso, a equipe buscava promover a modernização do sistema financeiro, expandindo sua eficiência operacional e as oportunidades de financiamento de longo prazo mediante reorganização estrutural.[2] Houve também a extinção dos fundos ao portador, instrumentos financeiros de identidade anônima que facilitavam práticas correlatas à corrupção, tornando seu combate mais viável posterior ao Plano Collor.[2]
Significativa fração dos decretos, resoluções e portarias emitidas pela ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, teve sua redação no Banco Central, indicando o protagonismo de Eris na formulação das diretrizes econômicas da administração Collor.[1]
Política econômica e recessão
No mês de maio de 1990, o Banco Central encerrou as contas remuneradas conforme dinâmica do overnight. Naquele período, o órgão instituiu um mecanismo que possibilitaria a participação de cidadãos brasileiros na conversão de empresas estatais ao setor privado.[1]
O primeiro choque com o presidente Collor derivou da promulgação da Resolução nº 1.706, que introduzia um IOF incidindo sobre financiamentos de consumo, créditos pessoais, pagamentos com cartão de débito e transmissão de domínio. Reputada inconstitucional, foi abolida imediatamente após sua entrada em vigor. Collor igualmente contestou o Decreto-Lei nº 99.251, publicado no Diário Oficial da União sem prévia análise do ministro da Justiça, Bernardo Cabral.[1]
Para Eris, o caminho único para enfrentar a inflação sem intensificar a contração econômica era adotar a negociação autônoma de remunerações e renunciar à indexação de valores, adotando flexibilização econômica que permitisse redução de déficit público mediante controles monetários e cambiais desvinculados de indexadores automáticos.[2] Na metade de 1990, a recessão apresentava-se com clareza: a taxa de desocupação aproximava-se dos níveis vistos em 1982–1983 e a retração na demanda em diversos ramos económicos atingia 20%.[1] Eris admitiu o problema e alertou para o risco de aprofundamento da contração econômica caso empresários mantivessem margens de lucro elevadas e o Congresso derrubasse vetos presidenciais a legislação de reajustes salariais.[2]
Plano Collor II e saída
Quando se editou o Plano Collor II, a partir do começo de 1991, Eris prometeu redução imediata dos preços e continuou defendendo a manutenção das medidas anteriormente tomadas, considerando-as bem-sucedidas apesar das elevadas taxas inflacionárias então verificadas.[2] O novo plano englobou o congelamento de preços, medida que Eris desaprovava, mas explicou como consequência necessária do esgotamento das ferramentas de política monetária que, se mantidas, conduziria a explosão das taxas de juros.[1][2] Suas declarações públicas indicando que fora o último a concordar com o congelamento de preços, acerca do qual mantinha visão crítica severa, provocaram o segundo desentendimento sério entre Collor e Eris, que o presidente considerou inaceitável pela exposição dessa discordância ao público.[1][2] O novo plano almejava redesenhar o sistema financeiro visando criação de instrumentos de financiamento de longo prazo na economia, sendo incumbência de Eris participar de complexa negociação com estados e municípios visando rolagem de dívidas estaduais e municipais e saneamento de bancos públicos estaduais, objetivo que contudo não foi alcançado.[2]
Em março de 1991, circularam rumores de que Eris estaria compartilhando informações confidenciais. Solicitou sua exoneração, mas reconsiderou após diálogo com Collor e Zélia. No mês de abril, o chefe do Ministério Público, Aurélio Virgílio Veiga Rios, solicitou ao Poder Judiciário que condenasse Eris a compensar o Banco Central pelos danos causados pela operação cambial de 2,5 milhões de dólares ao câmbio oficial para a libertação do publicitário Roberto Medina, sequestrado.[1]
Em maio a juíza Selene Maria de Almeida decretou prisão para Eris, porquanto o Banco Central mantinha bloqueados os bens dos proprietários da Corretora Argos fluminense, cuja liquidação fora determinada em dezembro de 1990, embora o Banco Central já houvesse sustado tal liquidação sem, contudo, suspender a indisponibilidade de bens dos proprietários.[2] A intervenção da ministra Zélia, que orientou à Procuradoria da Fazenda para uma solução jurídica apropriada, resultou na suspensão da ordem de captura.
Com a saída de Zélia da pasta da Economia e a entrada de Marcílio Marques Moreira, Eris solicitou sua saída permanente do cargo. Ao deixá-lo, informou que regressaria ao mercado financeiro para recuperar o patrimônio não acumulado durante sua atuação à frente do Banco Central. Francisco Gros, que havia dirigido a instituição no intervalo de fevereiro a maio de 1987, o sucedeu.[1]
Após o governo
Em julho de 1991, Eris retomou sua colaboração ao governo Collor, participando de grupo de técnicos encarregado de formular proposta de transformação do sistema tributário e fiscal, sendo seu encargo examinar a incidência de tributos nas microempresas e empresas de médio porte.[1][2]
Na sessão de 29 de setembro de 1992, o plenário da Câmara dos Deputados aprovou o prosseguimento do processo de impeachment de Collor. Eris depôs perante a Polícia Federal na condição de testemunha, informando que Paulo César Farias, financista da campanha presidencial, havia comparecido às reuniões antecedentes ao Plano Collor I e sabia previamente das ações de congelamento de fundos brasileiros. Posteriormente, em comunicado à mídia, retratou aquelas declarações.[1]
Durante 1993, Eris associou-se a Luís Paulo Rosemberg, David Gotlib e Emir Kapez para fundar uma empresa dedicada à gestão de patrimônios significativos: a Linear DTVM, sob controle de Eris e Kapez, teve seu nome alterado para apenas Linear.[1]
Ao longo dos anos 1990, expressou-se frequentemente sobre questões de política econômica. Em 1993, criticou a administração econômica do governo Itamar Franco por não empreender esforços decisivos na implementação de uma ampla reforma constitucional. Em 1995, julgou que o governo havia cometido erros ao sobrevalizar o real enquanto diminuía tarifas de importação, para depois aumentá-las substancialmente em 70%, causando incertezas nos mercados. Em 1997, propôs a desvalorização cambial e sustentou que a liberalização da taxa de câmbio representava o caminho para restabelecer a confiança na gestão econômica.[1]
Morte
Morreu em 8 de novembro de 2024, na Turquia. A causa da morte não foi revelada.[8]
Vida pessoal
Contraiu matrimônio com Cláudia Cunha Campos, com quem gerou um filho.[1]
Referências
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- ↑ 'É preciso dar um voto de confiança ao Banco Central'. O Estado de S. Paulo, 28 de outubro de 2012
- ↑ "IMF"ye gitmek utandırıcıdır ama şu anda durum farklı". Radikal, 2 de fevereiro de 2009 (em turco)
- ↑ Os jogadores Arquivado em 11 de agosto de 2015, no Wayback Machine.. Exame, 3 de agosto de 1997
- ↑ Especial - Um modelo alternativo de crescimento[ligação inativa]. Fundação Getúlio Vargas, 3 de setembro de 2004
- ↑ Ibrahim Eris (03/1990 - 05/1991). Exame, 24 de novembro de 2010
- ↑ Sabino, Alex (8 de novembro de 2024). «Morre Ibrahim Eris, presidente do Banco Central que foi um dos pais do Plano Collor». Folha de S.Paulo. Consultado em 8 de novembro de 2024
Bibliografia
- Cruz, Ednílson (2001). ERIS, Ibrahim. Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. [S.l.]: FGV/CPDOC
- Ibrahim Eris. Col: Coleção História Contada do Banco Central do Brasil. 16. Brasília: Banco Central do Brasil. 2019
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Sucedido por Francisco Roberto André Gros |