Lunda Norte

Lunda Norte
Localidade de Angola Angola
(Província)


Localização da Lunda Norte em Angola
Dados gerais
Fundada em 4 de julho de 1978 (47 anos)
Gentílico norte-lundense
lunda-nortenho
Província Lunda Norte
Município(s) Cambulo, Capenda Camulemba, Caungula, Chitato, Cuango, Cuílo, Lubalo, Lucapa, Lóvua e Xá-Muteba
Características geográficas
Área 103 760 km²
População 972 183[1] hab. (2018)
Altitude 700 m até 1400 m
Clima Tropical húmido
Temperatura 27ºC

Dados adicionais
Prefixo telefónico +244
Sítio Ministério da Administração do Território - Lunda Norte
Projecto Angola  • Portal de Angola

Lunda Norte é uma das 18 províncias de Angola, localizada no nordeste do país. A capital é a cidade de Dundo-Chitato, no município de Chitato.

A província conta com uma população de 972 183 habitantes, segundo as projeções populacionais de 2018 elaboradas pelo Instituto Nacional de Estatística, numa área territorial de 103 760 km².[1][2]

É constituída pelos municípios de Cambulo, Capenda Camulemba, Caungula, Chitato, Cuango, Cuílo, Lubalo, Lucapa, Lóvua e Xá-Muteba, subdivididos em 26 comunas.

História

Até meados do primeiro milênio da era cristã a região da província era, provavelmente, povoada por povos pigmeus, que nos dias atuais habitam mais ao norte, no Congo-Quinxassa. Esses habitantes foram deslocados por diversas tribos bantas que, em sua migração ao sul, ocuparam quase a totalidade de Angola.

A medida que os bantos foram se afastando uns dos outros, novos dialectos passaram a existir, dando início a sub-definições étnicas, sendo que as principais a surgir na região foram os povos chócues e ganguelas

Formação política

A escultura Pensador (ou Samanhonga), fotografada em 1936, ícone da cultura lunda-chócue

A região leste de Angola, compreendida entre Lunda Norte e o norte do Cuando-Cubango, assim como parte da República Democrática do Congo e Zâmbia, foi unificada, em 1590, sob a égide do rei Muanta Gandi, que formou o reino Lunda, um poderoso Estado pré-colonial que tinha inicialmente sede em Mussumba, atualmente no sul do Congo.[3] O reino Lunda acabou por empurrar para o norte o reino Macoco e para o oeste o reino de Jaga-Cassange, que tinham influência nos territórios atuais da província.[4]

O Estado Lunda acabou por tornar-se, no século XVII, o Império Lunda (1º império), que por fim esfacelou-se em vários Estados confederados em virtude de inúmeras guerras pelo trono da rainha Lueji A'Nkonde. O seu principal ente confederado substituto foi Reino Lunda-Chócue, que tinha sede em Luena e zona importante em Saurimo.[5] A divisão dos lundas fez com que nas terras de Lunda Norte se constituíssem o Estado Confederado Lunda-Capenda, com sede na Capenda Camulemba, e o Estado Confederado Lunda-Muteba, com sede em Xá-Muteba. O próprio Reino Lunda-Chócue costurou a formação de um 2º Império Lunda, em meados do século XIX.[6]

As potências colonias, Bélgica, Grã-Bretanha e Portugal, não aceitaram a formação dessa nova unidade imperial, fazendo diversas incursões militares na região, até que, como resultado da Conferência de Berlim, procederam a divisão definitiva dos lundas, extinguindo-se Lunda-Capenda e Lunda-Muteba.[6]

Colonização e guerras

O ano de 1912 é marcado pelo retorno do interesse colonial na região, após dois geólogos da empresa Forminière encontrarem diamantes no ribeiro Mussalala. Neste mesmo ano foi formada a Companhia de Pesquisas Mineiras de Angola, na qual as primeiras explorações mineiras foram localizadas através do rio Chicapa e, também, seus afluentes. Funda-se o acampamento base em Dundo-Chitato.[7]

Em 1917 a Diamang passa a operar na mineração de diamantes na região de Lunda Norte, assumindo o acampamento de Dundo-Chitato, construindo muitas infraestruturas neste, tornando-o uma cidade operária.[7]

No final da década de 1960 a guerra atinge Lunda Norte, com a abertura da "Frente Leste" e da "Rota Agostinho Neto" pelo MPLA, expulsando os portugueses da maioria do território.[8] A partir de 1973 a UNITA passou a pressionar fortemente as posições de seus inimigos em terras lundenses, com o MPLA conseguindo empurrar a guerra para longe no início de 1976, já na Operação Carlota. A FNLA, porém, consegue permanecer nas bordas congolesas da província representando certa ameaça de 1967 até o início da década de 1980.[9]

Formação da província

No dia 4 de julho de 1978, pelo decreto-lei nº. 84/78, a província do Lunda Norte foi oficialmente criada pelo governo angolano, a partir da separação da província de Lunda Sul.[7] A capital foi estabelecida provisoriamente em Lucapa, enquanto que uma nova capital seria construída na região do Mulepi, plano que foi posteriormente abortado.[10]

No ano de 1997, a capital de facto da província passou a ser o Dundo-Chitato, por possuir uma estrutura administrativa melhor que a cidade de Lucapa. A transferência foi ratificada como definitivo no ano de 2000. Para albergar essa nova realidade, como capital provincial, o governo iniciou, no final da década de 2000, o projeto "Centralidade do Dundo" ou "Novo Dundo", para melhoria das infraestruturas da cidade do Dundo-Chitato como centro administrativo e de governo de Lunda Norte.[7]

Geografia

Fragmento florestal da província, no município de Cambulo, em 2005.

Para fins estatísticos, a província norte-lundense está localizada no leste do país, embora geograficamente disponha-se mais ao nordeste de Angola. Toda sua faixa territorial noroeste, norte, nordeste e leste faz fronteira com o Congo-Quinxassa. Ao sudeste e sul, sua fronteira dá-se com a província de Lunda Sul, e ao sudoeste e oeste sua fronteira dá-se com Malanje. A faixa sudoeste que divide com Malanje é, inclusive, a histórica região da Baixa de Cassange, enquanto que entre os rios Loange e Cassai eram terras historicamente de domínio Lunda.

Ecologia, flora e fauna

Ao norte e leste da província domina o "mosaico floresta-savana do sul da bacia do Congo",[11] uma ecorregião composta de florestas, savanas e pastagens.[12] Já ao oeste e sudoeste, a paisagem é dominada pela ecorregião das "florestas de miombo angolanas",[11] com flora de savana de folha larga decídua úmida e floresta com domínio de miombo, além de pastagens abertas.[13]

Clima

Segundo a classificação climática de Köppen-Geiger predomina, na maior parte da província, o clima tropical de savana (Aw/As) com uma temperatura média de 27ºC por ano e o regime de chuvas pode ser até torrencial. A média das chuvas é de 1.400 mm, sendo que a quantidade máxima é de 1.500 mm e a mínima de 1.200 mm. Na faixa sudeste de Lunda Norte predomina o clima subtropical úmido (Cwa).[5]

Demografia

A população de Lunda Norte é constituída maioritariamente pelos chócues, coexistindo com porções de grupos etnolinguísticos congos e ambundos.[14] Em função das guerras na fronteira, um grande contingente de refugiados quinxassa-congoleses — majoritariamente das etnias lunda, bena-lulua[15] e pende,[16] e em menor número de congos do norte — migrou para terras norte-lundenses.[17][18] Grupos minoritários incluem imbangalas,[16] com outras frações étnicas não bantas relevantes de luso-angolanos e ango-brasileiros.[19]

Hidrografia

Importantes rios cortam terras norte-lundenses, com destaque para o Cassai, o Luachimo, o Chiumbe-Luateche e o Cuango. Outros rios relevantes são o Luangue, o Chicapa, o Lui, o Cuílo, o Luembe, o Lóvua, o Lubalo, o Cacuilo e o Cuengo (os quatro últimos com nascente na província). Todos os rios citados são tributários do Cassai que, por sua vez, é um dos maiores tributários da bacia do Congo.[20]

Relevo

A média relativa a nível do mar na província é de cerca de 900m, sendo que cerca de 1100m no interior e de 700m nas fronteiras. Em alguns locais, como o centro da província, a altitude pode alcançar cerca de 1200m — nas serras da Sucumuna, do Muhondo e de Capenda-Cuilo, todas extensões do grande Planalto da Lunda, que domina o relevo provincial.[21][22] Do nordeste para o sudeste a altitude pode diminuir até 700m, porém chega a cerca de 1000m no Monte Muriá.[5] Ao sudoeste o destaque é a Serra de Tala Mungongo (ou Planalto do Malanje), enquanto que ao noroeste as extensões do Planalto do Cuango.[23]

Economia

O ano 1912 marca a descoberta de diamantes pela empresa Forminière no ribeiro Mussalala. No mesmo ano foi formada a Companhia de Pesquisas Mineiras de Angola, que comecou a explorar o rio Chicapa e afluentes, fundando-se o acampamento base em Dundo-Chitato. Em 1917 a companhia mineradora Diamang assume o acampamento, construindo novas infraestruturas, tornando o assentamento numa cidade operária.[7]

A Lunda Norte chegou a registrar, no ano de 1971, um recorde 2.413.021 quilates de diamantes extraídos pela empresa privada multinacional Diamang, substituída em 1981 pela estatal angolana Endiama.

Agropecuária e extrativismo

Mina de Chitotolo, em 2001.

Na lavoura temporária, destacam-se no Lunda Norte as produções de arroz, mandioca, milho, amendoim, batata doce, feijão cutelinho e abacaxi ananás; já a lavoura permanente encontra excedentes na produção de goiabas, mamões, mangas e abacates.

Na pecuária de corte e leite, a província possui um grande rebanho de bovinos, havendo também criações de caprinos e suínos, além de criação de galináceos (para carne e ovos); em outro aspecto os muitos rios de Lunda Norte dão a possibilidade da extração de um enorme excedente pesqueiro.

Indústria e mineração

A província da Lunda Norte possui uma importantíssima indústria mineira, com a extração de diamantes e ouro,[19] com destaque para as operações na mina de diamantes Luó, na mina de diamantes Lucapa e nas minas de Cachimo e Cambulo.

O parque industrial de Lunda Norte está concentrado na cidade do Dundo-Chitato, e nos municípios de Cuango e Lucapa, onde registra-se manufatura de alimentos, bebidas, roupas, produção agroindustrial e construção civil, sendo que sta última dispõe de uma imensa massa salarial, concentrada basicamente na capital provincial, e; também na capital há a produção elétrica a partir da Central Hidroelétrica de Luachimo, no rio Luachimo.

Comércio e serviços

O setor de comércio e serviços concentra-se na capital, Dundo-Chitato, que sedia centros atacadistas e de abastecimento tanto para a província de Lunda Norte quanto para o Congo-Quinxassa.

Infraestrutura

Transportes

A malha rodoviária da província é composta por dois troncos principais: a rodovia EN-180, norte-sul, que liga Dundo-Chitato ao Saurimo, e; a EN-230, oeste-leste, que dá acesso à Malanje. Existem ainda as rodovias EN-223/EN-225 (oste-leste), EN-165 (norte-sul), EN-170 (norte-sul), EN-175 (norte-sul), EN-190 (norte-sul) e a R706/EN-180, que liga a capital à Mwasuakenge, no Congo-Quinxassa.

Educação

Sector que sentiu um forte efeito da guerra, grande parte de sua estrutura (escolas, universidades), foram destruídas. Com isso, o número de escolas na região ainda é pequeno em relação ao número de habitantes. Há um esforço do governo para tentar recuperar ou construir as escolas e universidades da região. A região possui uma escola técnica denominada Instituto Médio Politécnico 28 de Agosto do Dundo e a Universidade Lueji A'Nkonde, ambas na capital, Dundo-Chitato.

Segundo o Ministério de Administração do Território da Lunda Norte a actual situação da região é de um grande número de crianças ainda fora do sistema escolar (28.000), o número de salas é insuficiente para a demanda, a quantidade e qualidade dos professores ainda é insuficiente, o que causa a queda na qualidade do ensino da região, por fim, a maior parte da população activa tem o nível de escolaridade muito baixo, também precisando retornar a escola para recuperar a escolaridade.

Política e governo

O governador da província é um cargo indicado pelo Presidente da República de Angola.

A lista de comissários/governadores que lideraram a província desde de 1978 é a seguinte:

Ordem Nome Início Término Notas
1 João Ernesto dos Santos 1978 1983
2 Silvério Gelim Paim 1983 1986
3 Norberto dos Santos 1986 1991
4 José Manuel Sakulombo 1991 1992
5 Francisco Moisés Nele 1992 1997
6 Manuel Francisco Gomes Maiato 1997 2008
7 Ernesto Mwangala 2008 2024
8 FILOMENA ELIZABETE CHITULA MIZA AIRES 2024 ACTUALIDADE

Referências

  1. 1 2 Schmitt, Aurelio. Município de Angola: Censo 2014 e Estimativa de 2018. Revista Conexão Emancipacionista. 3 de fevereiro de 2018.
  2. ↑ «Governo de Angola - INE - Resultados Definitivos Recenseamento da População (2014) - Page - 89» (PDF). Consultado em 18 de setembro de 2016. Arquivado do original (PDF) em 6 de maio de 2016
  3. ↑ Lunda. Medicare Club Angola. 2018.
  4. ↑ O Reino da Lunda. Portal Geledés. 28 de outubro de 2016.
  5. 1 2 3 Lunda Norte. Welcome to Angola. 2018.
  6. 1 2 Reino Unido da Lunda Tchokwe. Federação dos Estados Livres da África . 2011
  7. 1 2 3 4 5 É preciso projectar uma Lunda Norte sem diamantes – Francisco da Rosa. Portal Angop. 5 de julho de 2021.
  8. ↑ MPLA/ Rota Agostinho Neto. Associação 25 de Abril. 2020.
  9. ↑ Feliciano Paulo Agostinho (Setembro de 2011). Guerra em Angola: As heranças da luta de libertação e a Guerra Civil (PDF). Lisboa: Academia Militar
  10. ↑ História. Governo da Lunda Norte. 2015.
  11. 1 2 Angola Vegetation. Perry-Castañeda Library Map Collection. University of Texas, 1973.
  12. ↑ White, Frank (1983). The vegetation of Africa: a descriptive memoir to accompany the Unesco/AETFAT/UNSO vegetation map of Africa. [S.l.]: UNESCO. ISBN 9789231019555
  13. ↑ World Wildlife Fund, ed. (2001). «Angolan Miombo woodlands». WildWorld Ecoregion Profile. [S.l.]: National Geographic Society. Cópia arquivada em 8 de março de 2010
  14. ↑ Angola ethnic groups. Perry-Castañeda Library Map Collection. University of Texas, 1973.
  15. ↑ Losing control in Kasaï. Africa Confidential. 21 de julho de 2017.
  16. 1 2 Betts, Alexander. Survival Migration: Failed Governance and the Crisis of Displacement. Cornell University Press. Agosto de 2013. p. 94. ISBN-13: 978-0801477775.
  17. ↑ Acnur e parceiros dão apoio mental a refugiados em Angola. ONU News. 26 de julho de 2019.
  18. ↑ Agência da ONU cria espaço seguros para meninas refugiadas em Angola. ONU News. 17 de janeiro de 2018.
  19. 1 2 Jover, Estefanía.; Pintos, Anthony Lopes.; Marchand, Alexandra. (setembro de 2012). Angola: Private Sector Country Profile. (PDF). Reino Unido: Printech Europe/Banco Africano de Desenvolvimento
  20. ↑ Britannica, The Editors of Encyclopaedia. "Kasai River". Encyclopedia Britannica, 15 Mar. 2016. Accessed 21 November 2021.
  21. ↑ Marks, Shula E.. "Southern Africa". Encyclopedia Britannica, 30 Sep. 2020. Accessed 19 January 2022.
  22. ↑ Pereira Neto, Francisco António, Estudo da Sismicidade Natural de Angola e Desencadeada no Médio Kwanza (Dissertação de Mestrado). Brasília: Universidade de Brasília. 2014. pg. 19.
  23. ↑ Diniz, A. Castanheira.; Aguiar, F. de Barros.. Zonagem Agro-Ecológica de Angola: estudo cobrindo 200 000 Km2 do território. Lisboa - Porto: Instituto da Cooperação Portuguesa; Fundação Portugal-África; Fundo da EFTA para o Desenvolvimento Industrial em Portugal. 1998.

Bibliografia

  • MANASSA, João Baptista Abreu. Lunda - História e Sociedade, ed. Mayamba, Luanda, 2011.