Soneto 100
| Soneto 100 |
|---|
Where art thou, muse, that thou forget’st so long |
| –William Shakespeare |
Soneto 100 é um de uma série de 154 sonetos de Shakespeare. Com este, ele inicia uma série de 4 sonetos sobre um período em que o poeta não conseguiu escrever sobre a amada, e convoca sua inspiração para voltar a compor versos sobre a amada.
Análise
Como os demais sonetos de William Shakespeare, este foi todo construído no ritmo de pentâmetro iâmbico, no formato de soneto inglês, com 3 quartetos e um dístico, e rima em ABAB CDCD EFEF GG.
Sinopse
Neste soneto, o poeta procura a musa, e nela tenta retomar sua inspiração poética, para que possa voltar a compor os poemas para sua amada.[1]
Ao longo deste poema, o autor fala com sua musa e a repreende por tê-lo abandonado em sua capacidade de escrever o suficiente sobre sua amada. Pede à musa que volte e lhe permita escrever como antes. Ele ainda espera imortalizar este jovem para que a faca do tempo nunca o toque.[2]
Traduções
Tradução de Milton Lins
O tradutor apresentou o soneto em dodecassílabo, perseguindo o hexâmetro iâmbico, não o fazendo, no entanto, em alguns versos. O esquema rímico segue o do autor, como um soneto inglês: ABAB CDCD EFEF GG.
Musa, onde estás, com teu tão longo esquecimento,
Para falar do que te faz prodigiosa?
Desgastas tua fúria em odes sem sustento,
Pressionas tua força, a fim de vê-la airosa?
Musa inútil, regressa, e rápido resgata,
Em número suave, o tempo que gastaste;
No ouvido escuta o mal que a tua voz acata,
E dá à tua pena um súpero contraste.
Desperta, musa queda, e estuda a minha face
De amor, se o Tempo tem gestões nela gravadas;
Se não tem, sê um fauno, então que abandonasse,
Fizesse despojar o Tempo em debandadas.
Dá fama ao meu amor, antes que o Tempo acabe;
Vetando-lhe o poder que à curva foice cabe.[3]
Tradução de José Arantes Junior
Este tradutor seguiu o esquema rímico do autor no soneto: ABAB CDCD EFEF GG, como um soneto inglês. Mas não o seguiu no ritmo nem na métrica, preferindo dar-lhe um aspecto plástico, com 36 caracteres em cada verso, que lhe mostram a forma, quando utilizada uma fonte monoespaçada, como o fez em todos os seus sonetos traduzidos. E, como os outros, deu-lhe um título.
Decadência com alegria
[4][5]
Onde andas, pois esqueces tão rápido
As falas que te dão poder confirmado?
Gastando teu furor sem valor prático
Para que novos temas sejam aclarados?
Volta, musa, e redima o teu conceito[nota 1]
Com teus versos e tempo gasto em vão,
Canta a tua posição de raro respeito
E dê, à tua pena, tua boa explanação;[nota 1]
Levanta para a avaliação do meu amor
E se o tempo pôs rugas na fisionomia,
Satiriza a tua decadência com primor
E despreza teus estragos com alegria;
Dá-me fama mais do que o tempo gasto
E prepara a foice para segar o pasto.
Tradução de Paulo Camelo
O tradutor procurou seguir o ritmo de pentâmetro iâmbico usado pelo poeta inglês, atendo-se ao ritmo holístico, mantendo também o esquema rímico utillizado pelo autor.
Onde estás, musa, que te esqueces tanto
em dizer tudo que te dá poder
e ficas furiosa – sabes quanto –
em coisas fúteis a mais não querer?
Musa esquecida, volta e te redime
em ter gastado o tempo, e apenas canta
um canto lindo, um poetar sublime,
em argumento e habilidade tanta!
E vê, musa tranqüila, o doce rosto
em que o amor gravou alguma ruga,
esquece o que foi dito de mau gosto
e dá desprezo ao que esse tempo aluga.
Aceita o meu amor, que bate à porta,
e evita a foice e sua faca torta. [6]
Tradução de Ivo Barroso
O tradutor tenta manter o ritmo de pentâmetro iâmbico ao soneto, como o fez o autor, não o conseguindo em seu todo, mas mantendo a métrica decassílaba. O esquema rímico é o do soneto inglês: ABAB CDCD EFEF GG.
Onde estás, Musa, que esqueceste há tanto
De falar do vigor que te bendiz;
Ardor esbanjas em inútil canto
E te apagas, luzindo assuntos vis.
Volta, Musa esquecida, e que redimas
Com versos gráceis o perdido alento.
Cantes a quem se apraz com tuas rimas
E infunde à tua pena arte e talento.
De pé, Musa indolente, e ruga indina
Vê se o Tempo imprimiu à face amada;
Se houver, torna com sátira a rapina
Do Tempo em toda parte desprezada.
Dá fama ao meu amor e bem depressa,
Que a ação do Tempo e sua foice impeça.[7]
Tradução de Thereza Christina Motta
A tradutora procurou fazer uma tradução mais literal, sem se ater a ritmo, métrica ou rima.
Musa, onde estás, que há tanto tempo te esqueces
De dizer aquilo que te dá todo o teu poder?
Usaste teu furor em uma canção espúria,
Reduzindo a força para emprestar-lhes tua luz?
Volta, esquecida Musa, e redime logo
Em doces horas o tempo inutilmente despendido;
Canta para os ouvidos de quem te estima,
E dá, à tua pluma, talento e voz.
Levanta, leve Musa, vê na suave face do meu amor
Se o Tempo a marcou com alguma ruga:
Se há, ri da decadência,
E despreza os despojos do Tempo por toda a parte.
Dá a meu amor fama mais rápido do que o Tempo gasta a vida;
Para que, de sua foice, me afastes a encurvada lâmina.[8]
Notas
Referências
- 1 2 «Sonnet 100». Shakespeare's Sonnets. Consultado em 24 de outubro de 2025
- ↑ «Sonnet 100». Poemanalysis William Shakespeare. Consultado em 24 de outubro de 2025
- ↑ SHAKESPEARE, William - Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: FacForm, 2005. ISBN 978-85-98896-04-5
- ↑ Shakespeare, William - Sonetos completos de William Shakespeare. Tradução de José Arantes Júnior. - São Paulo: Ed. do Autor, 2007.
- ↑ José Arantes Júnior. «Sonetos completos de William Shakespeare» (PDF). Consultado em 24 de outubro de 2025
- ↑ Paulo Camelo. «Soneto 100 de William Shakespeare». Recanto das Letras. Consultado em 24 de outubro de 2025
- ↑ «50 Sonetos - William Shakespeare» (PDF). Consultado em 24 de outubro de 2025
- ↑ «Soneto 100». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 24 de outubro de 2025