Soneto 82

Soneto 82

I grant thou wert not married to my Muse,
And therefore mayst without attaint o’erlook
The dedicated words which writers use
Of their fair subject, blessing every book.
Thou art as fair in knowledge as in hue,
Finding thy worth a limit past my praise,
And therefore art enforced to seek anew
Some fresher stamp of the time-bettering days,
And do so love; yet when they have devised
What strained touches rhetoric can lend,
Thou, truly fair, wert truly sympathized
In true plain words, by thy true-telling friend;
And their gross painting might be better used
Where cheeks need blood; in thee it is abused.[1]

–William Shakespeare

Soneto 82 é um dos 154 sonetos de Shakespeare, e faz parte dos sonetos ao Belo Jovem.

Estrutura

Soneto inglês[2] produzido em versos decassílabos com ritmo de pentâmetro iâmbico, rimas ABAB CDCD EFEF GG. Apresentado pelo autor em monóstrofe.

Sinopse

Neste primeiro de dois sonetos interligados, o poeta aborda novamente o fato de que outros poetas escrevem em louvor à amada. A amada tem a liberdade de lê-los, mas seus poemas não a representam verdadeiramente.[1]

Shakespeare agora se volta para a questão do próprio estilo, abordando a exposição da amada a outros poetas cuja linguagem é mais elaborada e cerimoniosa. A simplicidade é defendida contra o ornamento, à medida que Shakespeare contrapõe o afeto sincero ao excesso retórico, argumentando que a verdade no amor se expressa com mais força quando resiste ao embelezamento e recusa a exibição competitiva.[3]

Traduções

Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta:[nota 1]

Não quero que desposes a minha Musa,
E, assim, deixes de ler
As palavras dedicadas que os escritores usam
Sobre seus belos objetos, abençoando seus livros.
Tu és tão bela em saber quanto em cor,
Colocando o teu valor além do meu louvor;
E assim te vês forçada a buscar de novo
Um olhar mais fresco que já passou.
Faze isso, amor; embora quando vejam
Que toques duros empresta a retórica,
Tu, minha bela, terias simpatizado
Com palavras simples por teu verdadeiro amigo;
E suas cores grosseiras deveriam ser mais bem usadas
Para enrubescer as faces, daquilo que sobra em ti.

Tradução de Paulo Camelo:[nota 2]

Não conheceste aquela de quem falo
e podes, sem temor, deixar de lado
essas dedicações, mas eu não calo
e louvo este teu ser abençoado.

És bela em sentimento, és bela em cor,
és mais que pode achar meu elogio,
entanto inda procuras o frescor
da primavera em estação de estio.

Assim tu fazes se, forçados, são
capazes de, em retórica, emprestar
louvor a ti, beleza em profusão,
que a mais singela letra há de exaltar.

Grotesco traço a te pintar não diz
dessa beleza; é traço de aprendiz.

Tradução de José Arantes Júnior:[nota 3]

O Poeta e a Musa

Sei que não casaste com a minha musa
Portanto podes, sem a vil degradação
Dedicar palavras que uma escrita usa
Com tema claro a avivar a tua edição;

A tua arte tem compreensão e nuanças
Teu trabalho ultrapassa o meu louvor,
E, enquanto arte, procura lembranças
Com nova visão do tempo de esplendor;

Que seja, ainda que tenham inventado
Alguns detalhes forçados de retórica,
O verdadeiro teor só será encontrado
Por amigo com suas linhas alegóricas;

Este pintar grosseiro tem melhor uso
Em feições rudes, em ti isto é abuso.

Tradução de Milton Lins:[nota 4]

Concordo que enjeitaste a minha musa,
E podes sem confisco tolerar
Palavras ternas (que este autor as usa),
Benzendo o livro, e seu encanto achar.

És claro no saber e na nuança,
Achando que valor retrai louvor;
Tentas por isso ter uma esperança
De algum novo sinal de mais valor.

Amigo, segue assim um bom conselho,
A retórica tem um toque antigo,
Tu foste sempre um verdadeiro espelho.
Em palavras reais, real amigo.

As tintas podem ser mais bem usadas
Por onde há sangue; em ti, desabusadas.

Notas

  1. ↑ Apresentada como um quatorzain monostrófico, sem obediência a métrica, ritmo ou rima.[4]
  2. ↑ Soneto inglês construído com versos decassílabos em pentâmetro iâmbico obedecento ao ritmo holístico.[5]
  3. ↑ Soneto inglês em que foi acrescido um título e que, não seguindo métrica nem ritmo, apresentou-se em formato simétrico ao usar fonte monoespaçada.[6]
  4. ↑ Soneto inglês construído com versos decassílabos onde predomina o pentâmetro iâmbico.[7]

Referências

  1. 1 2 Folger Shakespeare Library. «Sonnet 82». Shakespeare's Sonnets (em inglês). Consultado em 30 de março de 2026
  2. ↑ CAMPOS, Geir. Pequeno Dicionário de Arte Poética. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1960.
  3. ↑ «Sonnet 82 – Shakespeare». Shakespeare Italia (em inglês). Consultado em 30 de março de 2026
  4. ↑ «Soneto 82». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 30 de março de 2026
  5. ↑ «Soneto 82 de William Shakespeare». Consultado em 30 de março de 2026
  6. ↑ «Soneto 82» (PDF). Sonetos Completos de William Shakespeare. Consultado em 30 de março de 2026
  7. ↑ SHAKESPEARE, William - Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: FacForm, 2005. ISBN 978-85-98896-04-5