Soneto 70

Soneto 70

That thou art blam’d shall not be thy defect,
For slander’s mark was ever yet the fair;
The ornament of beauty is suspect,
A crow that flies in heaven’s sweetest air.
So thou be good, slander doth but approve
Thy worth the greater, being woo’d of time;
For canker vice the sweetest buds doth love,
And thou present’st a pure unstained prime.
Thou hast pass’d by the ambush of young days,
Either not assail’d, or victor being charg’d;
Yet this thy praise cannot be so thy praise,
To tie up envy evermore enlarg’d:
If some suspect of ill mask’d not thy show,
Then thou alone kingdoms of hearts shouldst owe.[1]

–William Shakespeare

Soneto 70 é um soneto que compõe os 154 sonetos escritos por William Shakespeare ao longo de sua vida. Faz parte da famosa sequência de sonetos do Belo Jovem de Shakespeare, do Soneto 1 ao Soneto 126, dedicados a um jovem e belo homem cuja identidade permanece desconhecida até hoje.[2]

Estrutura

Estruturalmente, é um soneto inglês ou shakespeariano[3], composto por 3 quartetos e um dístico, com rimas no esquema ABAB CDCD EFEF GG, construído com versos decassílabos em pentâmetro iâmbico.

Sinopse

O Soneto 70 explora temas como beleza, fofoca/calúnia e tentação. Apresenta ao leitor um contraste marcante em conteúdo com os sonetos anteriores, inclusive com o Soneto 69, que o precedeu.[2] Contradizendo ou complementando o soneto precedente, o poeta diz ao jovem que os ataques à sua reputação não significam que ele seja imperfeito, visto que a beleza sempre provoca tais ataques.[1] O poeta observa que a calúnia presta uma homenagem indireta e não intencional à inocência, ao charme e à beleza do jovem.[4]

Traduções

Em forma de quatorzain monostrófico, sem adesão forte a métrica ou ritmo e sem esquema rímico aparente, faz uma tradução próxima à literal.

Que tuas culpas não sejam teus defeitos,
Pois a marca da calúnia nunca é bela;
O adorno da beleza torna-se suspeito,
Um corvo a voar na brisa mais amena.
Se agires bem, a injúria nada faz senão
Engrandecer o teu valor com o tempo;
Os vermes refestelam-se nos doces botões,
E tua beleza se mostra imaculada.
Superaste a armadilha da juventude,
Sem assaltos, nem vitórias;
Embora o elogio não possa ser ofertado
Para impedir uma inveja ainda maior.
Se as suspeitas de erros não te mascararem,
Vencerás sozinha todos os corações.[5]

Tradução de Milton Lins

Soneto inglês em decassílabos, com ritmo de pentâmetro iâmbico na maioria dos versos,[nota 1] com rimas ABAB CDCD EFEF GG.

Não é defeito teu por ser culpado,
Marcado pela injúria dos teus pares;
O ornato da beleza é indigitado,
Um corvo que se libra ao céu, nos ares.

Se tu és bom, a injúria apenas prova
Um enorme valor em ódio antigo;
A praga que é do broto o amor aprova,
E tu não apresentas mal imigo.

Passaste bem os dias mais distantes,
Por perda ou ganho sendo distinguido;
Teus louvores não podem ser constantes,
Para ligar o ciúme, mais temido.

Se o sintoma do mal não faz veraz
Perderás o dever com os demais.[6]

Tradução de Paulo Camelo

Acompanhando o original em forma (soneto inglês), rimas ABAB CDCD EFEF GG, métrica (decassílabo em pentâmetro iâmbico), foi construído mantendo o ritmo holístico.

Não tenhas a calúnia por defeito
e entendas que é por conta da beleza
o tratamento, e saibas que é suspeito
um ato que denigre a realeza.

Uma calúnia assim apenas prova
o quanto essa beleza é cortejada.
O vício corrosivo não renova
em si, numa beleza imaculada.

Houve emboscada em tua juventude
e ali foste atacada sem, contudo,
haver sucesso em pérfida atitude;
o teu louvor se superava em tudo.

Um mal suspeito não te esconde o rosto
e em ti somente o belo está exposto.[7]

Tradução de José Arantes Júnior

Mantendo a forma e rimas de soneto inglês, preferiu um aspecto plástico visual geométrico, utilizando 36 caracteres por verso[nota 2], acrescentando-lhe um título.

A inveja e a evolução

Que tua censura não seja teu defeito,
Pois marca de calúnia só faz aclarar
O ornamento da beleza que é suspeito
Como corvo que voa em paradisíaco ar,

Sejas bom, fazem calúnia mas aprovam
O louvor é maior com o aval do tempo,
Em doces botões os vermes se renovam
E um tom de pureza é o teu argumento,

Passaste por emboscadas da juventude
Sem assaltos ou vitorioso se atacado,
Mas tua meta não tem tanta plenitude
Para que o invejoso seja interpelado,

Se não existissem algumas suspeições
Somente tu serias o rei dos corações.
[8][9]

Notas

  1. ↑ O pentâmetro iâmbico não é visto nos versos 6, 11, 13 e 14.
  2. ↑ a forma plástica geométrica aparece quando se utiliza fonte monoespaçada em sua construção.

Referências

  1. 1 2 «Sonnet 70». Folger Shakespeare Library (em inglês). Consultado em 22 de março de 2026
  2. 1 2 «Sonnet 70». Poem Analysis (em inglês). Consultado em 22 de março de 2026
  3. ↑ CAMPOS, Geir. Pequeno Dicionário de Arte Poética. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1960.
  4. ↑ «Sonnet 70». Cliff Notes (em inglês). Consultado em 22 de março de 2026
  5. ↑ «Soneto 70». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 22 de março de 2026
  6. ↑ SHAKESPEARE, William - Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: FacForm, 2005. ISBN 978-85-98896-04-5
  7. ↑ «Soneto 70 de William Shakespeare». Consultado em 22 de março de 2026
  8. ↑ José Arantes Júnior. «Soneto 70» (PDF). Sonetos completos de William Shakespeare. Consultado em 22 de março de 2026
  9. ↑ Arantes Júnior, José (2007). Sonetos Completos de William Shakespeare. São Paulo: Real Academia de Letras