Soneto 93

Soneto 93

So shall I live, supposing thou art true,
Like a deceivèd husband; so love’s face
May still seem love to me, though altered new;
Thy looks with me, thy heart in other place.
For there can live no hatred in thine eye;
Therefore in that I cannot know thy change.
In many’s looks, the false heart’s history
Is writ in moods and frowns and wrinkles strange.
But heaven in thy creation did decree
That in thy face sweet love should ever dwell;
Whate’er thy thoughts or thy heart’s workings be,
Thy looks should nothing thence but sweetness tell.
 How like Eve’s apple doth thy beauty grow,
 If thy sweet virtue answer not thy show.[1][2]

–William Shakespeare

Soneto 93 é um soneto pertencente à série de 154 sonetos de William Shakespeare, um dos muitos dedicados ao Belo jovem[nota 1].

Estrutura

Forma: Soneto inglês[3]
Esquema de rimas: ABAB CDCD EFEF GG
Métrica / ritmo: Versos decassílabos em pentâmetro iâmbico.

Sinopse

O poeta explora as implicações do verso final do Soneto 92. Ele percebe que seria fácil para a amada ser secretamente falsa, pois ela é invariavelmente bela e amorosa.[1] O poeta explora como seria estar vivendo uma vida em que o engano do jovem é desconhecido para ele, o poeta. Em vez de morrer no momento da descoberta da falsidade, o poeta agora vive "como um marido enganado".

Traduções

Assim vivo, supondo-te verdadeira,
Como um marido traído; assim a face do amor
Parecerá amorosa, embora, diversa, se altere –
Voltando a mim os olhos, e o coração, à outra parte.
Pois em teus olhos não pode haver ódio,
Assim nisso não percebo a tua mudança.
De muitas formas a história do falso coração
Se escreve em estranhas alterações de humor;
Mas os céus, ao criar-te, decretaram
Que em teu rosto o doce amor sempre vivesse;
Teu olhar não expressaria senão a doçura
Que passasse por tua mente ou teu coração.
Tal a maçã de Eva, aumenta tua beleza,
Se tua doce virtude não te responder em vão!

A aparência e a essência

Eu viverei acreditando-te verdadeira
Como marido iludido pelo dom do amor,
É amor, embora com mudanças ligeiras,
É o olhar e o coração com outro teor;

A aversão não sobrevive em teu olhar
Embora eu não possa ver esta mudança,
O olhar e o coração podem se mostrar
Escritos com nuanças e desconfianças;

Mas o céu ao te criar fez uma menção
Para que teu rosto inspirasse o amor,
E qualquer ideal ou labor do coração
Em teu olhar, acaba sugerindo louvor;

análogo à maçã de Eva, pela essência,
O íntimo responde, não sua aparência.

Tradução de Paulo Camelo[nota 4]

Eu vivo bem, supondo que és fiel
e assim me sinto, eu vivo o teu amor.
Teu coração só cumpre o seu papel,
que, embora transformado, é-me indolor.

Não vejo desamor em teu olhar,
mudança assim eu não conheço bem,
pois falso coração não tem pulsar,
está escrito em plagas mais além.

Na tua criação, abriu-se o céu
e disse desse amor que habita em ti.
Quaisquer teus pensamentos têm mais mel
que te revela o olhar, que assim senti.

Esta beleza, fruto proibido,
é virtuosa e doce, sem sentido.

Tradução de Milton Lins[nota 5]

Assim deveo eu viver, supondo-te prendado,
Qual marido enganado; o teu matiz, mutante,
Pode fingir amor, se bem já alterado;
Os teus olhos - comigo, o teu pensar - distante:

Pois que não pode haver rancor em teu olhar
Nem nele vou saber o quanto em ti mudou.
Às vezes nele vejo um falso despertar
Num humor, num franzir, na ruga que esboçou.

Quando te fez, o céu lavrou mais um decreto
Que em tua doce face o amor fosse habitar:
Em qualquer pensamento ou trâmite concreto
Teus olhos desde então só doces sabe dar.

Como a maçã em Eva, o belo em ti aumenta,
Se teu jeito de ser desdiz o que aparenta?

Notas

  1. ↑ Os sonetos dedicados ao Belo Jovem vão do Soneto 1 ao 126
  2. ↑ A tradutora usou a forma de quatorzain monostrófico, sem rimas, com métrica e ritmo variáveis, mostrando uma tradução tendendo à literal.[4]
  3. ↑ Com formato de soneto inglês e rimas correspondentes, trocou métrica e ritmo por aspecto plástico simétrico, usando 36 caracteres por verso em fonte monoespaçada. Acrescentou-lhe um título.[5]
  4. ↑ A tradução foi feita na forma de soneto inglês, com rimas características ABAB CDCD EFEF GG, todo em versos decassílabos em pentâmetro iâmbico, obedecendo ao ritmo holístico.[6]
  5. ↑ Soneto inglês na forma e no esquema rímico, construído com versos dodecassílabos alexandrinos.[7]

Referências

  1. 1 2 Folger Shakespeare Library. «Sonnet 93». Shakespeare's Sonnets (em inglês). Consultado em 9 de abril de 2026
  2. ↑ «So shall I live, supposing thou art true (Sonnet 93)». Poets.org (em inglês). Consultado em 9 de abril de 2026
  3. ↑ CAMPOS, Geir. Pequeno Dicionário de Arte Poética. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1960.
  4. ↑ «Soneto 93». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 9 de abril de 2026
  5. ↑ «Soneto 93» (PDF). Sonetos completos de William Shakespeare. Consultado em 9 de abril de 2026
  6. ↑ «Soneto 93 de William Shakespeare». Consultado em 9 de abril de 2026
  7. ↑ SHAKESPEARE, William - Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: FacForm, 2005. ISBN 978-85-98896-04-5