Soneto 80

Soneto 80

O, how I faint when I of you do write,
Knowing a better spirit doth use your name,
And in the praise thereof spends all his might,
To make me tongue-tied speaking of your fame.
But since your worth, wide as the ocean is,
The humble as the proudest sail doth bear,
My saucy bark, inferior far to his,
On your broad main doth willfully appear.
Your shallowest help will hold me up afloat
Whilst he upon your soundless deep doth ride,
Or, being wracked, I am a worthless boat,
He of tall building and of goodly pride.
 Then, if he thrive and I be cast away,
 The worst was this: my love was my decay.
[1]

–William Shakespeare

Soneto 80 é um soneto entre os 154 sonetos de William Shakespeare, e faz parte da série ao Belo Jovem.

Estrutura

Soneto inglês[2], com esquema de rimas ABAB CDCD EFEF GG, versos decassílabos por pentâmetro iâmbico. Sendo um soneto inglês, com 3 quartetos e um dístico, o poeta optou por o apresentar em monóstrofe.

Sinopse

O Soneto 80 faz parte de uma pequena série dentro da sequência de sonetos ao Belo Jovem, que aborda a influência de um poeta rival. Esse poeta, ou por vezes poetas, sem nome, desafia, ao menos mental ou filosoficamente, a pretensão do eu lírico sobre a juventude.[3] O poeta admite sua inferioridade em relação àquele que agora escreve sobre a amada, retratando os dois poetas como navios navegando no oceano do valor da amada — o poeta rival como grande e esplêndido, e ele próprio como um pequeno barco que corre o risco de naufragar por amor.[1]

Traduções

Ó, como enfraqueço ao escrever sobre ti,
Sabendo que um espírito melhor usa teu nome,
E do elogio emprega toda a força
Para fazer-me calar, ao falar de tua fama.
Mas como teu valor, vasto como o oceano,
Humilde como a vela mais valente,
Meu latido, muito inferior ao dele,
Emerge sobre as tuas correntezas.
Teu menor auxílio me manterá emerso,
Enquanto ele cavalga tuas silentes profundezas;
Ou, náufrago, sou um barco inútil,
Ele, forte, alto e orgulhoso.
Então, se ele sobreviver e eu for dispensado,
Eis o pior: meu amor selou minha ruína.[nota 1]

Tradução de José Arantes Júnior

O humilde e o orgulhoso

Oh como desfaleço ao fazer teu poema
Sabendo que um melhor usa o teu nome,
Premiando-te com o poder dos fonemas
E, deste modo, a tua fama me consome;

Se o teu valor é vasto como o oceano
Humilde, como um orgulhoso velejador,
Conduzo meu barco com os meus planos
Para que ele apareça mais desafiador;

Em áreas baixas, me ajudas a flutuar,
Enquanto outro se poria a escarnecer,
Em naufrágio, sou barco a se avariar
Enquanto um outro iria se envaidecer;

Se, de mim, restar apenas a ausência,
O pior é um amor ter tido decadência.
[nota 2]

Tradução de Milton Lins

Ó que vertigem, quando eu lhe escrever,
Sabedor de que alguém seu nome chama,
Por isso o seu louvor gastou poder,
Minha língua, ao calar, lhe deu mais fama!

Porquanto o seu valor (um oceano),
Humilde qual a mais briosa vela,
Meu bravo barco, inferior no pano,
Sobre seu tombadilho, aflito, apela.

Com a modesta ajuda, eu venho à tona,
Enquanto ele procura a profundeza;
Ou, naufragado o barco, me abandona,
Ele – com alto porte e altiveza.

Se ele prospera e dita a minha sina,
Vem o pior – o amor, e vem ruína.[nota 3]

Tradução de Paulo Camelo

Não tenho forças pra falar de ti
se algum espírito superior
encontrar nome a enaltecer a si,
não me restando nada em teu louvor.

Mas teu valor é grande, igual ao mar
onde um navegador desfralda a vela
e a minha barca atreve-se a singrar
teu amplo mar mantendo-se singela.

A tua ajuda simples me sustenta
enquanto o navegar silencioso
em mar profundo e calmo me atormenta
ao vê-lo nobre, alto e orgulhoso.

Enquanto ele prospera, eu sou lançado
ao mar, e assim me sinto arruinado.[nota 4]

Notas

  1. ↑ A forma utilizada por Thereza Christina Motta para apresentar sua tradução foi um quatorzain monostrófico, com versos livres e sem rimas. Assim utilizando, sua tradução ficou próxima à literal.[4]
  2. ↑ O soneto inglês utilizado por José Arantes Júnior em sua tradução trocou o formato rítmico (decassílabos) por espacial (36 caracteres por verso, com a utilização de fonte monoespaçada). Manteve o esquema rímico e acrescentou um título.[5]
  3. ↑ Milton Lins apresentou sua tradução usando versos decassílabos com predominância de pentâmetro iâmbico em um soneto inglês com esquema rímico ABAB CDCD EFEF GG. [6]
  4. ↑ Na sua tradução, Paulo Camelo construiu um soneto inglês com versos decassílabos em pentâmetro iâmbico utilizando ritmo holístico. O esquema rímico é o mesmo: ABAB CDCD EFEF GG.[7]

Referências

  1. 1 2 Folger Shakespeare Library. «Sonnet 80». Shakespeare'sSonnets (em inglês). Consultado em 29 de março de 2026
  2. ↑ CAMPOS, Geir. Pequeno Dicionário de Arte Poética. Rio de Janeiro:Edições de Ouro, 1960.
  3. ↑ «Sonnet 80». Poem Analysis (em inglês). Consultado em 29 de março de 2026
  4. ↑ «Soneto 80». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 29 de março de 2026
  5. ↑ José Arantes Júnior. «Soneto 80» (PDF). Sonetos completos de William Shakespeare. Consultado em 29 de março de 2026
  6. ↑ SHAKESPEARE, William - Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: FacForm, 2005. ISBN 978-85-98896-04-5
  7. ↑ «Soneto 80 de William Shakespeare». Consultado em 29 de março de 2026