Soneto 118

Soneto 118

Like as to make our appetites more keen
With eager compounds we our palate urge;
As to prevent our maladies unseen
We sicken to shun sickness when we purge;
Even so, being full of your ne’er-cloying sweetness,
To bitter sauces did I frame my feeding;
And, sick of welfare, found a kind of meetness
To be diseased ere that there was true needing.
Thus policy in love, t’ anticipate
The ills that were not, grew to faults assured,
And brought to medicine a healthful state
Which, rank of goodness, would by ill be cured.
 But thence I learn, and find the lesson true:
 Drugs poison him that so fell sick of you.[1][2]

–William Shakespeare

Soneto 118 é um dos 154 Sonetos de Shakespeare, pertencente à série da Dama Negra.

Estrutura

Como os outros poemas dessa série, ele apresenta a estrutura de soneto inglês,[3] com versos decassílabos com ritmo de pentâmetro iâmbico.[nota 1]

Sinopse

Neste segundo soneto de autoacusação, o poeta usa analogias com a alimentação e com a purgação para justificar suas infidelidades.[2] Aborda as complexidades da relação do narrador com o Jovem e um erro importante que ele cometeu.[4]

Traduções

Para aguçar nossos apetites
Urgirmos o palato a provar de tudo;
Para prevenir moléstias desconhecidas
Adoecemos para afastar as doenças ao nos purificar.
Mesmo assim, prenhe de tua doçura inebriante,
Para amargar os molhos fiz a minha comida,
E, doente de bem-estar, encontrei um tipo de igualdade
Para adoecer onde houvesse necessidade.
Eis a política do amor, antecipar
Os males que não existem, alimentados pelas falhas,
E trazidos à medicina em condição saudável,
Que, igualada à bondade, seria curada pelo mal.
Mas, então, aprendi, e vejo a verdade na lição,
Os remédios envenenam quem adoeceu de ti.

Tradução de Paulo Camelo[nota 3]

Assim como é comum aguçar fome
usando sal no que já tem sabor,
se pra livrar do mal que nos consome
adoecemos antes por pavor,

para me saciar dessa doçura
inesgotável, eu pus amargor;
cansado de estar bem, achei loucura,
adoeci buscando teu amor.

E, para haver amor sem sentir dor,
antecipei os males, fiz besteira,
eu me tratei, até sem me indispor,
vi na bondade a minha cura inteira.

A verdadeira cura eu aprendi:
não há remédio nesse amor por ti.

Tradução de José Arantes Júnior[nota 4]

Tempero amargo para a felicidade

Para que o apetite marque a presença
Por vezes usamos condimentos ardidos,
Como para prevenir possíveis doenças
Sofremos para que o mal seja contido;

Com tua doçura sem nenhuma restrição
Fiz tempero amargo para a felicidade,
E, doente de prazer, fiz uma ligação
Para me afligir antes da necessidade;

A habilidade do amor, na antecipação
De males supostos, fez males seguros
E trouxe o medicamento ao limiar são
Para que o meu mal se cure no futuro;

Marcou verdadeira presença uma lição:
És um medicamento para minha aflição.

Tradução de Milton Lins[nota 5]

Como tal, aguçar os apetites vivos
Com componentes bons testar nosso sabor;
Para os males prever e não os ter ativos,
Adoecer e assim as doenças pospor;

E mesmo então fartando a fome insaciável,
Com molho amargo eu faço a minha refeição,
E, bem ou mal, encontro a espécie degustável
Para ficar doente aquém da digestão.

O mesmo com o amor, a fim de antecipar
Algum mal que escapou, crescido na fartura,
Trazer para as poções o estado salutar,
Na fila dos manás, do mal obter a cura.

Aprendi a lição: poções, venenos que
Matarão quem ficar doente de você.

Notas

  1. ↑ Há 3 exceções na série:
  2. ↑ Utilizando a forma de quatorzain monostrófico, a tradução procura a literalidade, sem se ater a métrica, ritmo nem rima.[5]
  3. ↑ Soneto inglês com versos decassílabos em pentâmetro iâmbico, ritmo holístico, rimas em ABAB CDCD EFEF GG.[6]
  4. ↑ Soneto inglês, com seu esquema rímico, usando formato simétrico (com fonte monoespaçada), e lhe acrescentando título.[7][8]
  5. ↑ Soneto inglês com esquema rímico característico em versos decassílabos alexandrinos.[9]

Referências

  1. ↑ «Like as, to make our appetite more keen (Sonnet 118)». Poets.org (em inglês). Consultado em 22 de abril de 2026
  2. 1 2 Folger Shakespeare Library. «Sonnet 118». Shakespeare's Sonnets (em inglês). Consultado em 22 de abril de 2026
  3. ↑ CAMPOS, Geir. Pequeno Dicionário de Arte Poética. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1960.
  4. ↑ «Sonnet 118». Poem Analysis (em inglês). Consultado em 22 de abril de 2026
  5. ↑ «Soneto 118». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 21 de abril de 2026
  6. ↑ «Soneto 118 de William Shakespeare». Consultado em 22 de abril de 2026
  7. ↑ Shakespeare, William - Sonetos completos de William Shakespeare. Tradução de José Arantes Júnior. - São Paulo: Ed. do Autor, 2007.
  8. ↑ José Arantes Júnior. «Soneto 118» (PDF). Sonetos completos de William Shakespeare. Consultado em 22 de abril de 2026
  9. ↑ SHAKESPEARE, William - Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: FacForm, 2005. ISBN 978-85-98896-04-5