Soneto 144
| Soneto 144 |
|---|
Two loves I have of comfort and despair, |
| –William Shakespeare |
Soneto 144 é um dos 154 sonetos de Shakespeare, pertencente à série chamada Dark Lady (Dama Negra), que vai do Soneto 127 ao Soneto 154.
Estrutura
Como os outros poemas dessa série, ele apresenta a estrutura de soneto inglês, com versos decassílabos com ritmo de pentâmetro iâmbico.[nota 1]
Sinopse
O soneto 144 consiste num dos poemas mais notórios da seqüência, por apresentar a conjunção (negativa para o eu-lírico) entre o que parece claramente ser o “belo jovem” e a “dama morena” – os dois amores nutridos pelo poeta de modos distintos.[2]
Ainda continuando a utilizar metáforas, o poeta cita uma relação triangular com a amante e o jovem, nesse soneto apresentada como uma alegoria de uma pessoa tentada por um anjo bom e um anjo mau.[3]
Este soneto é o único que se refere explicitamente tanto à Dama Negra quanto ao jovem, embora não os cite nominalmente. De forma atípica, o poeta se distancia do triângulo amoroso e tenta analisar a situação. Embora o soneto seja singular por apresentar a tentativa do poeta de ser objetivo em relação às outras duas figuras do relacionamento, estilisticamente é muito semelhante a outros em termos de estabelecer uma antítese entre dois elementos em conflito, o jovem ("conforto") e a mulher ("desespero"). Não há o humor do soneto anterior, mas usa um tom cínico e irônico, ainda mostrando uma incerteza sobre o relacionamento.[4]
Traduções
Thereza Christina Rocque da Motta apresenta uma estrutura monostrófica de quatorzain, sem se ater a métrica, ritmo nem rima, com uma tradução que se aproxima da tradução literal.
Tenho dois amores que me consolam e desesperam,
Que, como dois espíritos, me inflamam;
O anjo bom é um homem belo e justo,
O mau, uma mulher malintencionada.
Para arrastar-me ao inferno, meu lado feminino
Tenta meu anjo bom e companheiro,
Querendo de santo transformá-lo em demo,
Seduzindo sua pureza com a soberba.
E se meu anjo se tornar vil,
Suspeito, embora não consinta em dizê-lo;
Mas, sendo ambos meus, ambos meus amigos,
Creio que um anjo seja o inferno do outro.
Mesmo que eu nunca saiba e viva em dúvida,
Até que meu anjo mau se livre do meu anjo bom.[5]
Ivo Barroso apresentou sua tradução em monóstrofe com um esquema rímico presente no soneto inglês, em decassílabos, porém com ritmo mais livre e algumas rimas assonantes.
Dois amores — de paz e desespero —
Eu tenho que me inspiram noite e dia:
Meu anjo bom é um homem puro e vero;
O mau, uma mulher de tez sombria.
Para levar a tentação a cabo,
O feminino atrai meu anjo e vive
A querer transformá-lo num diabo,
Tentando-lhe a pureza com a lascívia.
Se há de meu anjo corromper-se em demo
Suspeito apenas, sem dizer que seja;
Mas longe ambos de mim, e amigos, temo
Que o anjo no fogo já do outro esteja.
Nunca sabê-lo, embora desconfie,
Até que o mau meu anjo contagie.[6]
Paulo Camelo procurou seguir estruturalmente o poema original, mantendo o soneto inglês (3 quartetos e um dístico), com esquema rímico ABAB CDCD EFEF GG, e versos decssílabos em pentâmetro iâmbico, acrescentando-lhe o ritmo holístico.
Amores de conforto e desespero,
eu tenho dois espíritos e mim:
um anjo bom, um homem sobranceiro,
e uma mulher de compleição ruim.
No meu pecar, minha alma feminina
insiste em afastar meu anjo bom,
a corromper, mudando a sua sina,
e a seduzir, lhe corrompendo o tom.
Se esse meu anjo se tornou demônio,
eu posso suspeitar sem ter certeza,
entanto isso me causa um pandemônio
ao conviver com anjo em minha mesa.
Isso jamais eu saberei, porém,
se o mau expulsa o bom, se lhe convém.[7]
José Arantes Júnior utilizou outra apresentação na sua tradução. Manteve a estrutura de soneto inglês e o esquema rímico original, mas não se deteve em métrica nem ritmo, preferindo uma visão plástica concreta, com os seus versos contendo 36 caracteres cada, que, utilizando fonte monoespaçada, lhe dão uma aparência geométrica, acrescentando-lhe um título.
O anjo bom e o anjo mau
[8]
Tenho dois amores: alívio e suspeito,
Como dois anjos que me dão sugestões,
O anjo bom simboliza o homem direito
E o mau é uma mulher com insinuações;
Para me corromper o demônio feminino
Tenta o anjo bom postado ao meu lado,
Para transformá-lo em anjo libertino,
Tentando-o com inusitados predicados;
Se meu anjo agora se faz vil inimigo
Não digo diretamente e nem confronto,
Se eles vêm de mim cada qual é amigo
Porém, um estará no inferno do outro;
Enquanto vivo a polêmica também vive,
Até que o anjo mau deixe o bom livre.
Notas
- ↑ Há 3 exceções na série:
- Soneto 99 - Não é estruturalmente um soneto, pois tem 15 versos, distribuídos em 1 quinteto, 2 quartetos e 1 dístico;
- Soneto 126 - Também não é um soneto, apresentando apenas 12 versos, distribuídos em 6 dísticos;
- Soneto 145 - Distingue-se dos outros, pois tem versos octossílabos, com ritmo de tetrâmetro iâmbico.
Referências
- ↑ «Sonnet 144: Two loves I have of comfort and despair». Poetry Foundation (em inglês). Consultado em 3 de março de 2026
- ↑ Gisele Dionísio da Silva (2005). «Os enigmas do amor: Recepção e tradução dos sonetos de Shakespeare na ponte Inglaterra-Brasil». Universidade Federal de Goiás. Consultado em 3 de março de 2026
- ↑ «Shakespeare's Sonnets». Sonnet 144. Folger Shakespeare Library (em inglês). Consultado em 3 de março de 2026
- ↑ «Shakespeare's Sonnets». Summary and Analysis Sonnet 144 (em inglês). Consultado em 3 de março de 2026
- ↑ «Soneto 144». Shakespeare brasileiro. Consultado em 3 de março de 2026
- ↑ «50 Sonetos - William Shakespeare» (PDF). Consultado em 3 de março de 2026
- ↑ «Soneto 144 de William Shakespeare». Consultado em 3 de março de 2026
- ↑ «Sonetos completos de William Shakespeare» (PDF). Consultado em 3 de março de 2026