Soneto 96

Soneto 96

Some say thy fault is youth, some wantonness;
Some say thy grace is youth and gentle sport;
Both grace and faults are loved of more and less;
Thou mak’st faults graces, that to thee resort:
As on the finger of a throned queen
The basest jewel will be well esteemed,
So are those errors that in thee are seen
To truths translated, and for true things deemed.
How many lambs might the stern wolf betray
If like a lamb he could his looks translate?
How many gazers mightst thou lead away
If thou wouldst use the strength of all thy state?
But do not so; I love thee in such sort,
As thou being mine, mine is thy good report.

–William Shakespeare

Soneto 96 é um soneto que faz parte dos 154 sonetos de William Shakespeare, da série ao Belo Jovem.

Estrutura

Sinopse

O jovem é elogiado pelos encantos encontrados tanto em seus defeitos quanto em suas qualidades; se quisesse, poderia "levar embora" ou seduzir ainda mais aqueles que o admiram. No dístico final, o eu lírico o adverte: Não faça isso, pois, como a boa reputação do jovem se baseia em parte em seus defeitos, se ele for longe demais, esses defeitos poderão representar um perigo para a reputação de ambos.[2]

Traduções

Alguns dizem ser teu erro a juventude; outros, a lascívia;
Outros dizem ainda que a juventude e o ânimo dão-te graça.
Tanto a graça quanto os erros são bem ou mal amados;
Transformas faltas em bênçãos como bem te aprazem.
Como no dedo de uma rainha coroada
A mais simples joia será mais cara,
Assim são os erros que diviso em ti,
Traduzidos como verdade e tidos como autênticos.
Quantas ovelhas pode o astuto lobo enganar,
Se na ovelha pudesse se transformar!
Quanto assombro não irias afastar,
Se usasses o poder concedido por teus bens!
Mas não faças isso; amo-te de tal modo, que
Por seres minha, digo que tudo fazes à perfeição.

A graça e o mal

Uns dizem que o teu mal é a mocidade
E que tua graça é um prazer moderado,
Ambos, graça e mal, trazem dualidade,
Tornas em graça o teu erro acumulado;

Como no dedo de uma rainha entronada
Uma jóia barata terá um grande valor,
Assim, também tuas faltas observadas
Serão tomadas como o verdadeiro teor;

Quantos cordeiros o lobo mau mataria
Se, como cordeiro, pudesse se vestir,
E quantos assimilarão tuas anomalias
Se, com decisão, puderes te exprimir?

Não sejas assim, eu amo teus valores,
Como se fossem meus os teus louvores.

Tradução de Paulo Camelo[nota 4]

És jovem por defeito, ou libertina,
e brincas com tal graça, em juventude,
amada em teus defeitos por tal sina
em graça transformada à completude.

E se no dedo levas, qual rainha,
a jóia falsa, entanto, é valorada;
os erros não carregas mais sozinha;
em verdadeiras coisas és notada.

Um lobo quais cordeiros vai trair,
se traduzir doçura em seu olhar?
Quantos olhares poderiam vir
da força e do poder, se os vai usar?

Não faças isso, pois te amo assim;
tu, sendo minha, te reporto a mim.

Tradução de Milton Lins[nota 5]

Uns dizem que é luxúria, alguns que é juventude,
Outros que tem a graça ardente do esportista;
Ambos, faltas e graça, amadas, amiúde:
Fazes faltas com graça, à moda de um artista.

Como o dedo anular no trono da rainha,
Tuas jóias comuns serão valorizadas;
Tal como os erros têm em ti mesquinha,
E a verdade as verter, e as vires estimuladas.

Quantas ovelhas vão trair o lobo, enfim,
Como o cordeiro trai mudando o seu olhar!
Quantas contemplações desvias para um fim,
Se tiveres empenho em força acumular!

Porém não age assim; eu te amo de tal sorte,
Que, se tu fores mau, assumo o que te importe.

Notas

  1. ↑ Sendo um soneto inglês, com 3 quartetos e um dístico, o poeta optou por o apresentar em monóstrofe.
  2. ↑ A forma utilizada por Thereza Christina Motta para apresentar sua tradução foi um quatorzain monostrófico, com versos livres e sem rimas. Assim utilizando, sua tradução ficou próxima à literal.[3]
  3. ↑ O soneto inglês utilizado por José Arantes Júnior em sua tradução trocou o formato rítmico (decassílabos) por espacial (36 caracteres por verso, com a utilização de fonte monoespaçada). Manteve o esquema rímico e acrescentou um título.[4]
  4. ↑ Na sua tradução, Paulo Camelo construiu um soneto inglês com versos decassílabos em pentâmetro iâmbico utilizando ritmo holístico. O esquema rímico é o mesmo: ABAB CDCD EFEF GG.[5]
  5. ↑ A tradução foi feita na forma de soneto inglês, porém a métrica utilizada foi a de versos dodecassílabos alexandrinos, variando entre hexâmetro iâmbico e misto de anapesto, iambo e peônio.[6]

Referências

  1. ↑ CAMPOS, Geir. Pequeno Dicionário de Arte Poética. Rio de Janeiro:Edições de Ouro, 1960.
  2. ↑ Shakespeare, William. Duncan-Jones, Katherine. Shakespeare’s Sonnets. Bloomsbury Arden 2010. p. 302 ISBN 9781408017975. in: Sonnet 96 (en:Wikipedia)
  3. ↑ «Soneto 94». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 13 de abril de 2026
  4. ↑ José Arantes Júnior. «Soneto 96» (PDF). Sonetos completos de William Shakespeare. Consultado em 13 de abril de 2026
  5. ↑ «Soneto 96 de William Shakespeare». Consultado em 13 de abril de 2026
  6. ↑ Shakespeare, William. Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: Ed. do Tradutor (impressão FacForm), 2005, ISBN 978-85-98896-04-5