Soneto 87

Soneto 87

Farewell! thou art too dear for my possessing,
And like enough thou knowst thy estimate.
The Charter of thy worth gives thee releasing;
My bonds in thee are all determinate.
For how do I hold thee but by thy granting,
And for that riches where is my deserving?
The cause of this fair gift in me is wanting,
And so my patent back again is swerving.
Thy self thou gav'st, thy own worth then not knowing,
Or me, to whom thou gav'st it, else mistaking,
So thy great gift, upon misprision growing,
Comes home again, on better judgement making.
Thus have I had thee as a dream doth flatter:
In sleep a king, but waking no such matter.[1]

–William Shakespeare

Soneto 87 é um soneto de uma série de 154 sonetos de Shakespeare.

Análise

Como os demais sonetos de William Shakespeare, este foi todo construído no ritmo de pentâmetro iâmbico[nota 1], no formato de soneto inglês, com 3 quartetos e um dístico, e rima em ABAB CDCD EFEF GG.

Sinopse

O poeta escreve como se sua relação com o amado tivesse terminado – e como se esse relacionamento tivesse sido um sonho maravilhoso do qual ele agora acordou.[2]

Traduções

Adeus! És muito cara para que eu te tenha,
E bem conheces o teu próprio valor:
O privilégio de teu peso te liberta;
Minha devoção a ti é toda determinada.
Como posso ter-te, senão por teu favor?
E, diante de tanta riqueza, que fiz por merecê-la?
A causa do presente que me é dado é meu desejo,
E, assim, meu direito me é subtraído.
Tu mesma marcaste teu valor sem o saber,
Ou a mim, a quem o deste, por engano;
Pois tua grande dádiva, de mim arrancada,
Retorna à tua casa, melhor considerada.
Assim, tive a ti, como um sonho demasiado:
Um rei ao dormir e, ao despertar, um exilado.

Tradução de Milton Lins[nota 3]

Adeus! És caro para as minhas posses,
Como já sabe o teu estimativo:
Ações do teu valor, não as endosses,
Os meus laços contigo estão no ativo.

Por que te tenho só no que parece?
Por todos esses bens, onde mereço?
A causa do presente não se esquece,
O meu retorno assim não tem começo.

Doaste sem saber o seu valor,
A mim, a quem o deste como engano,
Então, o teu presente foi penhor,
Regressa para casa, e baixa o pano.

Assim te conquistei, sonho e encanto,
Dormindo - um rei, desperto... já não tanto.

Adeus, tua face é o elo do meu apego
E percebes bem tua própria avaliação,
O dom do teu valor gera um aconchego
E meu elo contigo tem mais expressão;

Como conquistar-te com tua permissão
Para essa riqueza onde está o mérito?
A causa dessa dádiva está em omissão
Então meu privilégio não tem crédito;

Deste do teu próprio valor sem saber
Ou a mim, ou a alguém, é um equívoco,
A negligência fez tua dádiva crescer
Assim, faça julgamento menos frívolo;

Tive-te em sonho que me fez encantar:
Um rei no sonho e ninguém ao acordar.

Tradução de Paulo Camelo[nota 5]

Te dou adeus, pois precioso és,
e certamente sabes teu valor,
se os teus escritos não te dão revés
e o que nos une faz assim supor.

Se eu te retenho, é só por permissão,
não há merecimento nem valor
nesse presente belo, assim, senão
por recompensa que se esvai em dor.

Tu deste a conhecer esta importância
e a mim tu deste apenas por engano.
O tal presente não tem mais fragrância
e o vejo por revés, num desengano.

Assim foi o meu sonho, assim te vi
pois, quando me acordei, eu te perdi.

Notas

  1. ↑ O Soneto 145 foi exceção em métrica e ritmo, sendo construído com versos octossílabos em ritmo de tetrâmetro iâmbico.
  2. ↑ A tradutora procurou fazer uma tradução mais literal, sem se ater a ritmo, métrica ou rima.[3]
  3. ↑ O tradutor apresentou o soneto em decassílabo, pentâmetro iâmbico. O esquema rímico segue o do autor, como um soneto inglês: ABAB CDCD EFEF GG.[4]
  4. ↑ Este tradutor seguiu o esquema rímico do autor no soneto: ABAB CDCD EFEF GG, como um soneto inglês. Mas não o seguiu no ritmo nem na métrica, preferindo dar-lhe um aspecto plástico, com 36 caracteres em cada verso, que lhe mostram a forma, quando utilizada uma fonte monoespaçada, como o fez em todos os seus sonetos traduzidos. E, como os outros, deu-lhe um título.[5][6]
  5. ↑ O tradutor procurou seguir o ritmo de pentâmetro iâmbico usado pelo poeta inglês, atendo-se ao ritmo holístico, mantendo também o esquema rímico utillizado pelo autor.[7]

Referências

  1. ↑ «Sonnet 87: Farewell! thou art too dear for my possessing». Poetry Foundation (em inglês). Consultado em 6 de abril de 2026
  2. ↑ «Sonnet 87». Folger Shakespeare Library (em inglês). Consultado em 6 de abril de 2026
  3. ↑ «Soneto 87». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 24 de outubro de 2025
  4. ↑ SHAKESPEARE, William - Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: FacForm, 2005. ISBN 978-85-98896-04-5
  5. ↑ Shakespeare, William - Sonetos completos de William Shakespeare. Tradução de José Arantes Júnior. - São Paulo: Ed. do Autor, 2007.
  6. ↑ José Arantes Júnior. «Sonetos completos de William Shakespeare» (PDF). Consultado em 24 de outubro de 2025
  7. ↑ «Soneto 87 de William Shakespeare». Consultado em 6 de abril de 2026