Soneto 140
| Soneto 140 |
|---|
Be wise as thou art cruel; do not press |
| –William Shakespeare |
Soneto 140 é um dos 154 sonetos de William Shakespeare, constante da série de sonetos à Dama Negra (Dark Lady). É complemento do Soneto 139 e se complementa com os sonetos 141 e 142.
Estrutura
Como a maioria dos sonetos de Shakespeare, este tem a estrutura de um soneto inglês[nota 1] com versos decassílabos em ritmo de pentâmetro iâmbico[nota 2], com esquema rímico ABAB CDCD EFEF GG.
Sinopse
O 'Soneto 140', de William Shakespeare, contém as ameaças do narrador à Dama Negra caso ela não mude seu comportamento. Neste poema, o poeta profere diversas ameaças. Diz que já é hora de ela começar a tratá-lo melhor, ou terá de contar a todos sobre o seu comportamento, que ela flerta com homens por todo o lado e está longe de ser casta. Ele parece seguro no que diz e que qualquer reputação que lhe reste será arruinada. O seu desejo é que ela pare de olhar para outros homens quando estão juntos e que reserve os seus olhos apenas para ele.[3] Ele a adverte de que ela seria mais sábia se fingisse amá-lo e, assim, evitasse levá-lo a um desespero que o impediria de se conter.[1]
Mergulhando rapidamente no desespero com o triste estado de seu relacionamento com a mulher, o poeta a ameaça com humilhação pública caso ela não finja ao menos amá-lo. Como um moribundo que só quer falsas garantias de seu médico sobre sua condição, ele quer que a mulher finja seu amor por ele. E, quando estiverem em público, ela deve prestar atenção apenas a ele e a nenhum outro homem; se não fizer o que ele deseja, ele a caluniará publicamente.[4]
Traduções
Thereza Christina Rocque da Motta apresenta uma tradução quase literal do poema original, dele mantendo, na forma, apenas os 14 versos, em monóstrofe, como um quatorzain. Não lhe segue métrica, ritmo nem esquema rímico.
Sê tão sábia quanto és cruel; não pressiones
Minha contida paciência com muito desdém,
A menos que o pesar me dê palavras, e estas
Expressem como me sinto diante da minha dor.
Se eu pudesse te ensinar a ter mais juízo, melhor seria,
Embora não a amar, mesmo que o amor me diga isso;
Os enfermos, quando a morte se aproxima,
Só esperam que os médicos os salvem.
Se eu me desesperasse, enlouqueceria,
E em minha loucura, posso falar mal de ti.
Este mundo tornou-se tão doente e distorcido,
Que loucos ouvidos aceitam loucas calúnias.
Que eu não me deixe levar, nem sejas difamada;
Mantém os olhos firmes, mesmo orgulhosa de coração.[5]
José Arantes Junior optou por dar um formato estético à obra traduzida, utilizando 36 caracteres em cada verso, com fonte monoespaçada. O formato, de soneto inglês, e o esquema rímico foram mantidos, mas lhe foi acrescentado um título.
A posição e a vastidão
[6]
Sê prudente tal como a arte é astuta
Tenho minha língua atada pelo desdém,
Há o dó da palavra e palavra resulta
Na maneira de se chamar a dor também;
Se precisasse ensinar tua capacidade
O amor ainda me ensinaria como fazer
Tal como a um doente sem viabilidade,
Todavia, que pudesse se restabelecer;
Se me desesperasse, eu enlouqueceria,
E falaria mal de ti em minha loucura,
E uma disputa ampla se desencadearia
Eu seria um caluniador sem estrutura;
Para não ser falso, veja tua posição,
Embora teu coração sinta na amplidão.
A tradução de Paulo Camelo manteve forma, métrica, ritmo e esquema de rimas do original, sendo feita no formato de soneto inglês, em versos decassílabos em ritmo de pentâmetro iâmbico e rimas ABAB CDCD EFEF GG, sendo feita perseguindo o ritmo holístico.
Tu és cruel e sábia, porém não
me impacientes com o teu desdém.
Palavras tristes dão-me a impressão
de que a dor piedosa se entretém.
Pudesse eu te ensinar, que bom seria!
Entanto o amor não sei dizer se ama.
Irrita às vezes, se é finado o dia
e de doença nunca se reclama.
Eu enlouqueceria em desespero
e então talvez falasse mal de ti,
mas é cruel o mundo, podes crer,
ouvidos maus se bastam só por si.
Para que eu não te calunie assim,
faz bons olhar e coração em mim.[7]
A tradução de Milton Lins, por sua vez, mantendo com o original a forma de soneto inglês e o esquema rímico, foi feita em versos dodecassílabos alexandrinos, mas não manteve, em todos os versos, o hexâmetro iâmbico, a se aproximar do esquema de iambos do original.
Sê sábia e sê cruel, e, peço, não apresses
Minha quieta mudez, com tua fatuidade,
Minhas palavras vãs, perdoa, e não expresses
O ar de minha dor carente de piedade.
Se o saber te ensinar, melhor não há de ser,
- Nem vale para o amor - contudo, amor, me conta,
(Tal como o moribundo ao se sentir morrer,
Só novas da saúde ouve o doutor dar conta;)
Quando eu desesperar, me tornarei mais louco,
E, na minha loucura, um mal te vou dizer:
Neste mundo de mal, a gente cresce pouco,
O mal-falante crê um louco ouvido ter.
Jamais eu seja assim, nem sejas difamada,
Tem firme o teu olhar: sem teu orgulho, és nada.[8]
Notas
- ↑ Duas exceções são o Soneto 99, que apresenta 15 versos, formando 1 quinteto, 2 quartetos e um dístico, e o Soneto 126, que apresenta apenas 12 versos, formando 6 dísticos.
- ↑ Há uma exceção, que é o Soneto 145, que usa verso octossílabo em tetrâmetro iâmbico.
Referências
- 1 2 «Shakespeare's Sonnets». Sonnet 140. Folger Shakespeare Library (em inglês). Consultado em 9 de fevereiro de 2026
- ↑ «Sonnet 140». Genius (em inglês). Consultado em 9 de fevereiro de 2026
- ↑ «Sonnet 140». Poemanalysis (em inglês). Consultado em 9 de fevereiro de 2026
- ↑ «Summary and Analysis Sonnet 140» (em inglês). Consultado em 9 de fevereiro de 2026
- ↑ «Soneto140». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 9 de fevereiro de 2026
- ↑ José Arantes Junior. «Sonetos completos de William Shakespeare» (PDF). Consultado em 9 de fevereiro de 2026
- ↑ «Soneto 140 de William Shakespeare». Recanto das Letras. Consultado em 9 de fevereiro de 2026
- ↑ SHAKESPEARE, William - Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: FacForm, 2005. ISBN 978-85-98896-04-5