Soneto 83
| Soneto 83 |
|---|
I never saw that you did painting need |
| –William Shakespeare |
Soneto 83 é um dos 154 sonetos de Shakespeare, e faz parte dos sonetos ao Belo Jovem.
Estrutura
Soneto inglês[2] produzido em versos decassílabos com ritmo de pentâmetro iâmbico, rimas ABAB CDCD EFEF GG. Apresentado pelo autor em monóstrofe.
Sinopse
Este soneto dá continuidade ao Soneto 82, mas o poeta descobre, para seu desgosto, que sua franqueza (e/ou seu silêncio) ofendeu a amada. Ele argumenta que nenhuma palavra consegue igualar a beleza dela.[1]
O soneto representa um dos momentos mais sutis e conceitualmente refinados de toda a sequência dedicada aos poetas rivais. Após discutir a competição, a ênfase retórica e a simplicidade como verdade, Shakespeare dá aqui um passo ainda mais radical: ele não apenas defende seu próprio estilo, mas também o valor do silêncio.[3]
Assim como os sonetos 85 e 86, mostra-nos o mergulho do poeta em sua própria subjetividade e a ruptura com o que lhe é externo, a fim de distinguir-se daquilo que o cerca. Diante de um universo estranho, mudo e banal, o poeta se cala.[4]
Traduções
Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta:[nota 1]
Jamais vi precisares de cores,
E, assim, não há como pintar a tua beleza;
Supus (ou pensei supor) que excedesses
O legado cru de um poeta;
E, portanto, adormeci por tua causa,
Que tu, ao existir, pudesses mostrar
Quanto uma moderna pena deixa de escrever,
Falando de valor, do valor que cresce em ti.
Tu imputaste este silêncio pelo meu pecado,
Que será a minha glória, mesmo sendo surdo;
Pois não impeço a beleza, embora mudo,
Quando outros dariam a vida e encontrariam a morte.
Há mais vida em um de teus belos olhos
Que ambos teus poetas conseguem louvar..
Tradução de José Arantes Júnior:[nota 2]
Um olho versus dois vates
Não pensei que quisesses uma pintura
E eu não te pintei de forma concreta,
Acreditei que para a tua envergadura
Bastasse o dom e o dever de um poeta;
Desta forma eu cochilei em teu labor
Tu, por ti mesma, pode melhor exibir
Quão distante uma pena está do valor
Que, de tua alma, está a se expandir;
Fizeste silêncio para a minha proeza
O que torna a minha glória mais muda,
Para não aborrecer mais a tua beleza
Criei este monumento que só te saúda;
Um só de teus olhos revela mais vida
Do que os dois vates desta investida.
Tradução de Paulo Camelo:[nota 3]
Não acho que precises de pintura
e, sei, ninguém jamais te retratou.
Eu descobri que tu, a essa altura,
estás além, poeta algum falou,
pois sabes que o que dizes sobre ti
não alcancei e espero te entender,
se é insuficiente o que escrevi,
pois teu valor não dei, não vi crescer.
Esse silêncio entendes por pecado,
entanto é para mim um grito mudo;
essa beleza exalto, se calado,
onde um falante mataria tudo.
Há vida nos teus olhos para além
do que concebe elogiar alguém.
Tradução de Milton Lins:[nota 4]
Nunca te vi necessitar pintura,
Nem precisar de estojos junto à tela.
Achei, ou assim pensei, que tens finura
E a guarda que, sutil, um bardo estrela:
E por isso dormi em um relance
Que, tendo tal vigor, irás dizer
Como uma pena escreve, em curto alcance,
Fala em valor, e faz o teu crescer.
Imputas o silêncio ao meu pecado,
Que vai ser minha glória lá no fulcro;
Pois não pioro o belo, se calado,
Outros dariam vida, e dão sepulcro.
Mais vida em um só olho podes ter
Do que esses dois poetas podem ver.
Notas
- ↑ Apresentada como um quatorzain monostrófico, sem obediência a métrica, ritmo ou rima.[5]
- ↑ Soneto inglês em que foi acrescido um título e que, não seguindo métrica nem ritmo, apresentou-se em formato simétrico ao usar fonte monoespaçada.Usou rimas ABAB CDCD EFEF GG[6]
- ↑ Soneto inglês construído com versos decassílabos em pentâmetro iâmbico obedecento ao ritmo holístico.[7]
- ↑ Soneto inglês construído com versos decassílabos onde predomina o pentâmetro iâmbico.[8]
Referências
- 1 2 Folger Shakespeare Library. «Sonnet 83». Shakespeare's Sonnets (em inglês). Consultado em 30 de março de 2026
- ↑ CAMPOS, Geir. Pequeno Dicionário de Arte Poética. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1960.
- ↑ «Analisi del Sonetto 83» (em italiano). Consultado em 30 de março de 2026
- ↑ Carlos Antônio Leite Brandão. «Dissonâncias, magia e simpatia cósmica». Artepensamento. Consultado em 30 de março de 2026
- ↑ «Soneto 83». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 30 de março de 2026
- ↑ «Soneto 83» (PDF). Sonetos Completos de William Shakespeare. Consultado em 30 de março de 2026
- ↑ «Soneto 83 de William Shakespeare». Consultado em 30 de março de 2026
- ↑ SHAKESPEARE, William - Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: FacForm, 2005. ISBN 978-85-98896-04-5