Soneto 119

Soneto 119

What potions have I drunk of siren tears
Distilled from limbecks foul as hell within,
Applying fears to hopes and hopes to fears,
Still losing when I saw myself to win!
What wretched errors hath my heart committed,
Whilst it hath thought itself so blessèd never!
How have mine eyes out of their spheres been fitted
In the distraction of this madding fever!
O, benefit of ill! Now I find true
That better is by evil still made better;
And ruined love, when it is built anew,
Grows fairer than at first, more strong, far greater.
 So I return rebuked to my content,
 And gain by ills thrice more than I have spent.[1]

–William Shakespeare

Soneto 119 é um dos 154 Sonetos de Shakespeare, pertencente à série da Dama Negra.

Estrutura

Estrutura-padrão nos sonetos de Shakespeare:

Sinopse

Apesar de sentir repulsa por si mesmo por ter se submetido a tantos males durante sua infidelidade, o poeta encontra uma justificativa ao descobrir que seu amor, agora reconstruído, é mais forte do que antes.[1]

Traduções

Que poções bebi das lágrimas das Sereias,
Destiladas dos troncos que queimam como o inferno,
Vertendo medos em esperanças, e esperanças, em medos,
Sempre perdendo quando eu estava a ponto de vencer?
Que males terríveis cometeu meu coração,
Enquanto se julgava jamais abençoado!
Como vagaram meus olhos fora de suas órbitas,
Ao se distraírem nessa louca febre!
Ah, o benefício da dúvida! Agora descubro ser verdade
Que o bem se aperfeiçoa com o mal;
E o amor arruinado, ao ser reconstruído,
Cresce mais belo, mais forte e se torna ainda maior.
Então, retorno, refeito, ao meu contentamento,
E ganho, por sorte, três vezes mais do que gastei!

Tradução de Paulo Camelo[nota 4]

Bebi poções dos olhos da sereia
e limões fétidos que nem o inferno,
entre esperança e medo mergulhei
assim perdendo, e pra ganhar, alterno.

Ousou cometer erro o coração,
se nunca se julgou abençoado
e viu-se distrair com tal visão
porque, febril, foi desorientado?

Então descubro que tal benefício,
ainda melhorado pelo mal,
ruína desse amor, é só o início
e vai crescer mais forte, mais normal.

Assim desconto na satisfação,
três vezes mais de ganho e de emoção.

Tradução de José Arantes Júnior[nota 5]

Tempero amargo para a felicidade

Eu tive que beber lágrimas de sereia
Destiladas nos alambiques do inferno,
Com medo e com um medo que se anseia
Perdendo tal como um vencedor eterno;

Que erros ignóbeis fez o meu coração
Enquanto a razão nunca seria prezada,
Meus olhos viam fora do tom de visão
Na distração de uma febre avantajada;

Oh, grato erro, agora vejo a verdade
O bem feito pelo erro é ainda melhor,
E dom ferido quando tem oportunidade
Torna-se bastante mais forte e maior;

Eu voltei censurado e até me diverti,
Pois na dor ganhei mais do que perdi.

Tradução de Milton Lins[nota 6]

Quanto bebi do pranto da sereia,
Em fétido alambique destilado,
Que, à falta de esperança, o medo ateia,
Perdendo ainda o que foi conquistado!

Quais erros na desgraça o coração
Teve, ao pensar em nunca ser ferido!
E quão distante em meu olhar estão
Alegres, num fervor enlouquecido!

Boa doença! Agora acho a verdade,
O melhor junto ao mal melhor se finda,
O amor é mais amor na tempestade,
Cresce depressa e forte, e mais ainda.

Repreendido assim, feliz voltei,
Ganhei três vezes mais do que gastei.

Notas

  1. ↑ Exceções:
  2. ↑ O Soneto 145 distingue-se dos outros, pois tem versos octossílabos, com ritmo de tetrâmetro iâmbico.
  3. ↑ Utilizando a forma de quatorzain monostrófico, a tradução procura a literalidade, sem se ater a métrica, ritmo nem rima.[3]
  4. ↑ Soneto inglês com versos decassílabos em pentâmetro iâmbico, ritmo holístico, rimas em ABAB CDCD EFEF GG.[4]
  5. ↑ Soneto inglês, com seu esquema rímico, usando formato simétrico (com fonte monoespaçada), e lhe acrescentando título.[5][6]
  6. ↑ Soneto inglês com esquema rímico característico em versos decassílabos em pentâmetro iâmbico.[7]

Referências

  1. 1 2 Folger Shakespeare Library. «Sonnet 119». Shakespeare's Sonnets (em inglês). Consultado em 22 de abril de 2026
  2. ↑ CAMPOS, Geir. Pequeno Dicionário de Arte Poética. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1960.
  3. ↑ «Soneto 119». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 22 de abril de 2026
  4. ↑ «Soneto 119 de William Shakespeare». Consultado em 22 de abril de 2026
  5. ↑ Shakespeare, William - Sonetos completos de William Shakespeare. Tradução de José Arantes Júnior. - São Paulo: Ed. do Autor, 2007.
  6. ↑ José Arantes Júnior. «Soneto 119» (PDF). Sonetos completos de William Shakespeare. Consultado em 22 de abril de 2026
  7. ↑ SHAKESPEARE, William - Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: FacForm, 2005. ISBN 978-85-98896-04-5