Soneto 92

Soneto 92

But do thy worst to steal thyself away,
For term of life thou art assured mine;
And life no longer than thy love will stay,
For it depends upon that love of thine.
Then need I not to fear the worst of wrongs,
When in the least of them my life hath end.
I see a better state to me belongs
Than that which on thy humour doth depend:
Thou canst not vex me with inconstant mind,
Since that my life on thy revolt doth lie.
O, what a happy title do I find,
Happy to have thy love, happy to die!
But what’s so blessed-fair that fears no blot?
Thou mayst be false, and yet I know it not.[1]

–William Shakespeare

Soneto 92 é um soneto da série de 154 sonetos de Shakespeare. Faz parte dos sonetos ao Belo Jovem.

Estrutura

Como os demais sonetos de William Shakespeare, este foi todo construído no ritmo de pentâmetro iâmbico[nota 1], no formato de soneto inglês, com 3 quartetos e um dístico[nota 2], e rima em ABAB CDCD EFEF GG

Sinopse

Continuando o argumento do verso 91, o poeta, imaginando a perda da amada, percebe com alegria que, como até mesmo a menor diminuição percebida desse amor o faria morrer instantaneamente, ele não precisa temer viver com a dor da perda. Mas, ele pergunta, e se a amada for falsa, mas não der nenhum sinal de infidelidade?[1][2] Resignado, o poeta está preparado para aceitar o que o destino lhe reservar.[3]

Traduções

Embora simules a tua pior faceta,
O fim da vida você assegurou o meu;
E não haverá vida além do teu bem-querer,
Por este depender apenas de teu amor.
Assim não preciso temer o maior dos males,
Quando o menor deles puser fim à minha vida.
Vejo que me cabe uma condição ainda melhor
Do que a de depender do teu humor.
Não podes humilhar-me com tua inconstância,
Pois minha vida jaz em tua revolta.
Ó, que felicidade encontro,
Feliz por teu amor, feliz por enfim morrer!
Mas o que é tão abençoado que não tema a mácula?
Poderás ser falsa e, mesmo assim, a tudo ignoro.

A segurança e a insegurança

Faças o que desejares ao ausentar-te
Tua segurança na vida ampara a minha,
A vida não é mais longa que tua arte
E, dependendo de ti, traça as linhas;

Não necessito temer o pior dos males
Quando minha vida tem um fim natural,
Com mais teor do que os preliminares
E do que os que têm humor proverbial;

Não me aflijas com mente inconstante
Minha vida em teu vigor pode crescer,
Oh, que título bonito e interessante,
Feliz por teu amor e feliz ao morrer;

Que alma é pura com manchas de temor?
Podes ser falsa e eu não ser sabedor.

Tradução de Milton Lins[nota 5]

Dá sempre o teu pior e vem te contrapor,
Para a vida ajudar, tu contas só comigo;
A vida não irá além do teu amor,
Uma vez que se fez do teu amor antigo.

Então não vou temer dos erros o pior
Que deles ao menor a minha vida tende.
E vejo só a mim pertence o que é melhor,
Pois sei que tudo o mais do teu humor depende;

Não podes me vexar usando a inconstância,
Pos que tua revolta atua em meu viver.
Ó título feliz encontro em tua instância,
Feliz com teu amor, feliz para morrer!

Mas qual exaltação não teme os seus borrões?-
Bem podes falsear, não sei os teus senões.

Tradução de Paulo Camelo[nota 6]

Para afastar-te, então, faze o pior,
porque da minha vida eu me garanto.
A vida tem seu tempo. O amor maior
depende desse amor que eu amo tanto.

O teu amor não temo, e tanto mal
terminará no fim da minha vida.
Eu vejo o meu melhor, o meu normal,
que em teu humor já não vê mais guarida.

E tu não podes me afligir com mente
em inconstante forma e rebeldia;
eu não dependo mais de ti, somente;
o teu amor por mim tem mais valia.

Abençoado o que já não tem medo.
É falso o teu amor, mas é segredo.

Notas

  1. ↑ A exceção, quanto a ritmo e métrica, é o Soneto 145, feito em octossílabos, com tetrâmetro iâmbico.
  2. ↑ Há dois poemas que fogem a esse formato e não são classificados como soneto:
    O Soneto 99 apresenta-se com 15 versos, constante de 1 quinteto, 2 quartetos e 1 dístico.
    O Soneto 126 apresenta-se com apenas 12 versos, distribuídos em 6 dísticos. No soneto original os 2 últimos versos são representados por parênteses vazios: ( ).
  3. ↑ A tradutora, como nas suas outras traduções, procurou fazer uma tradução mais literal, mantendo os 14 versos do original, mas sem se ater a ritmo, métrica ou rima.[4]
  4. ↑ Mantendo-se coerente em todas as suas traduções de Shakespeare, o tradutor seguiu o formato de soneto inglês e seu esquema rímico, ABAB CDCD EFEF GG, mas optou por uma apresentação plástica, com 36 caracteres por verso, que lhe dá um visual próprio, quando escrito com fonte monoespaçada, sem se ater a ritmo ou métrica. Acrescentou-lhe um título.[5][6]
  5. ↑ O tradutor apresentou o soneto em decassílabos, alexandrinos. O esquema rímico seguiu o do autor, como um soneto inglês: ABAB CDCD EFEF GG.[7]
  6. ↑ O tradutor manteve o pentâmetro iâmbico em toda a feitura do soneto, mantendo-se também no ritmo holístico. O esquema rímico usado foi o mesmo do poeta: ABAB CDCD EFEF GG.[8]

Referências

  1. 1 2 «Shakespeare's Sonnets». Sonnet 92 (em inglês). Consultado em 8 de abril de 2026
  2. ↑ «Sonnet 92» (em inglês). Consultado em 8 de abril de 2026
  3. ↑ Cliff Notes. «Summary and Analysis Sonnet 92». Shakespeare's Sonnets (em inglês). Consultado em 8 de abril de 2026
  4. ↑ «Soneto 92». Shakespeare Brasileiro. Consultado em 8 de abril de 2026. Cópia arquivada em 4 de dezembro de 2024
  5. ↑ Shakespeare, William - Sonetos completos de William Shakespeare. Tradução de José Arantes Júnior. - São Paulo: Ed. do Autor, 2007, pág. 227.
  6. ↑ José Arantes Júnior. «Sonetos completos de William Shakespeare» (PDF). Consultado em 7 de novembro de 2025
  7. ↑ SHAKESPEARE, William - Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: FacForm, 2005. ISBN 978-85-98896-04-5
  8. ↑ Paulo Camelo. «Soneto 92 de William Shakespeare». Recanto das Letras. Consultado em 8 de abril de 2026